Gastronomia à flor da pele

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Foto: Nuno Papp

São nove e meia da noite. A casa está cheia. Mais um daqueles dias que não para de entrar gente pela porta, e meu sentimento é um misto de felicidade e desespero.

Dois garçons, de uma equipe de 12, não apareceram; e um barman teve que sair antes para resolver um problema com a mulher – fato comum nos sábados à noite. Mas quem ficou, ficou, e agora é hora de segurar a onda e tentar ganhar o jogo com o time desfalcado.

Estou feito uma barata tonta, pra lá e pra cá, rodando pelo salão. Atendo a porta, tiro um chope no bar, recolho pratos sujos das mesas, cobro algumas contas. Tudo anda no limite entre o ótimo e o desastre, e eu sei disso.

De repente um garçom suplica no meu ouvido: “Seu Beto, já faz 40 minutos que tirei o pedido da mesa 34 e nada!”. Eu entendo a mensagem. Corro pra dentro da cozinha e grito feito um louco sem direção: “Cadê a 34? Cadê a comanda da 34, porra?”. Os cozinheiros mal escutam. Estão todos tão enlouquecidos quanto eu. Mas sabem que o meu mar não tá pra peixe. O chef, o único que ouviu, me entrega a comanda. Verifico o horário e vejo que a situação é ainda pior: 45 minutos se passaram desde que a mesa fez o pedido. “É a próxima”, ele diz ao mesmo tempo que berra com sua equipe: “Pessoal, manda a 34 já! Anda rápido, anda!”.

Verifico o horário e vejo que a situação é ainda pior: 45 minutos se passaram desde que a mesa fez o pedido.

Eu, descontrolado e encoberto pelas paredes que separam a cozinha do salão, descarrego meu nervosismo dando chutes numa porta de madeira. Espero por ali mesmo com o nariz e a testa encostados na parede tentando me controlar. Dois minutos eternos se passam até que os pratos da mesa 34 começam a aparecer na boqueta, aquecida por fortes lâmpadas. Estão lindos, impecáveis, suculentos.

Imediatamente seguro um garçom pelo braço fora e digo: “Pare tudo e sirva a 34. Agora!”. Sigo seus passos e espero que ele coloque os pratos sobre a mesa. Acompanho, de longe, a reação dos clientes.

Nesse momento meu mundo para. Fico ali, disfarçado atrás de uma coluna, na expectativa das primeiras garfadas. É como se eu estivesse prestes a bater um pênalti dentro de um estádio lotado numa final de campeonato. É a hora da verdade. Acompanho a maneira com que cada um olha para seu prato. Observo, vidrado, a cerimônia sutil da primeira garfada, a primeira mordida, o movimento com a cabeça e o olhar de aprovação ou desaprovação entre os comensais. Tudo acontece em fração de segundos, mas para mim é um filme em câmera lenta de uma vida inteira de trabalho. Essa é a sensação. É ali, naquele momento, que sinto a recompensa dos nossos esforços do dia a dia. É ali, naquele gesto de satisfação, que sinto amor por minha profissão. “Pronto! Foi mais uma”, penso comigo. Desperto da minha transe mental e sigo em frente. Não posso parar. Ainda faltam diversas mesas para serem servidas e outras tantas para sentar.

Nossa noite está longe do fim.

2 COMENTÁRIOS

  1. Genial! Até eu, que sou bobo, fiquei sem ar. Texto bom é assim, leva a gente para o meio do olho do furacão, por menos que o que está sendo abordado tenha a ver, diretamente, com a nossa rotina. Se algo tivesse dado errado no prato da mesa 34, até eu chutaria uma porta aqui agora. Como tudo deu certo, seguirei aliviado.

  2. Talvez algumas das vezes que fui na Forneria a equipe estivesse desfalcada como você fala no seu relato, mas foi imperceptível sempre tudo perfeito serviço acontecendo com maestria regido por grandes maestros como uma sinfonia impecável !

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