Gastronomia da alma

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Já parou para pensar que esta é a pergunta mais importante que existe e que pouco refletimos sobre ela? Saber quem somos pode nos levar a ter uma experiência gastronômica mais rica e até mesmo nutrir nosso corpo com ingredientes que vão muito além dos materiais que foram utilizados no preparo do alimento. Afinal, uma refeição preparada com amor e ingerida com atenção plena tem um poder que não se pode medir.

Em 2015, embarquei em uma jornada na serra gaúcha, onde permaneci durante 4 dias em um retiro Zen, sem me comunicar com ninguém. A proposta era o foco na pergunta mais importante que existe, talvez a única que realmente importe, e toda a estrutura do projeto me forçava a dela não desviar. As instruções orientavam a compreender que não sou o meu corpo, tampouco a minha mente, e as técnicas de meditação dinâmica visavam a exaustão de tudo o que atrapalha o reencontro com o que sobra, com a nossa essência.

Em um primeiro momento eu senti muito medo.

Senti que não suportaria permanecer tanto tempo sozinho comigo mesmo. Cada vez que eu me direcionava a pergunta, imediatamente surgiam propostas da minha mente. Eu observava essas propostas e me aprofundava. Tão logo eu apurava a reflexão, percebia que as respostas eram vazias e que não serviam para solucionar o meu questionamento. Não tinham sentido.

Após uma noite e um primeiro dia intermináveis foram as dores no corpo que começaram a reclamar. O corpo procurava chamar a atenção com dores nas pernas e nas costas que pareciam insuportáveis. Fome, desejos de ir embora, de que o tempo passasse mais rápido e de abandonar aquilo tudo insistiam em me desviar do meu objetivo. As dores ficavam tão fortes que eu não mais sentia a minha perna. Eu sabia que ainda haveria três dias pela frente e que não tinha mais nada a fazer a não ser persistir. Confesso que em alguns momentos cheguei perto do desespero. Determinado, eu focava e seguia.

Foi quando começaram a surgir respostas diferentes e eu notei que a investigação estava penetrando em uma camada mais profunda. A persistência se transformou em presença. Com a mente enfraquecida e o ambiente interior muito mais calmo, me determinei a prestar atenção plena ao momento que eu estava experimentando, e sutilezas antes totalmente despercebidas começaram a revelar um sentido indescritível e me trazer informações que estavam mais conectadas com a pergunta que eu procurava responder.

O vento que penetrava pela janela e acariciava o meu rosto. A formiga que caminhava sobre a minha perna esticada na grama. Os pingos da chuva que caiam sobre meu corpo. As folhas das árvores que se moviam com o vento e os cantos dos pássaros que ecoavam por todos os cantos. Quando minha atenção estava totalmente concentrada nestes acontecimentos comecei a perceber que o tempo perdia o sentido, as dores e os desejos deixavam de existir e passei a não mais desejar que o tempo passasse depressa, pois eu estava gostando de mergulhar naquela contemplação fascinante.

Em um intervalo para alimentação, resolvi permanecer conectado com a pergunta e focado na atenção.

Decidi não “perder” o caminho até o refeitório, não transformar aqueles preciosos momentos em mais um acontecimento que simplesmente passaria pela minha vida e me levaria de um lugar a outro. Iniciei a caminhada percebendo o contato da sola dos meus pés com o chão a cada passo. Cheguei ao local onde serviam a refeição com o foco atento na minha fome, que naquele momento era grande. Foi a primeira grande experiência que me transformou. Sentei em frente ao prato de comida e agradeci. Era um pequeno pote de nabo com shoyu. Sem pressa, levei o garfo à boca, fechei os olhos para me concentrar naquilo que fazia e fui tomado por uma espécie de júbilo, de êxtase, de maravilhamento. Uma espécie de explosão interna me fez gritar internamente: “puta que pariu, que comida deliciosa”! Eu conseguia sentir o amor e a intenção que haviam depositado no preparo daquela refeição, sentia imediatamente o alimento nutrindo o meu corpo e degustava a comida como nunca antes jamais provei.

“Puta que pariu, que comida deliciosa”! Eu conseguia sentir o amor e a intenção que haviam depositado no preparo daquela refeição, sentia imediatamente o alimento nutrindo o meu corpo e degustava a comida como nunca antes jamais provei.

Em todos os outros raros momentos que parava para me alimentar, senti essa experiência cada vez mais intensamente. Era uma espécie de oração. Um instante de plena conexão com aquilo que eu estava fazendo e sentindo.

Retomei as meditações.

Meu ambiente interno ficou tão calmo que comecei a refletir como eu aceitava tantas mentiras que a minha mente e os padrões culturais com os quais cresci me contavam. Refleti como eu falava tanto e a maioria das coisas que eu falava não possuíam absolutamente nenhuma importância ou sentido. Foi aí que eu resolvi dar um passo adiante: decidi falar para mim mesmo somente aquilo que tivesse alguma conexão com a minha pergunta. As palavras ficaram escassas, não sobrou quase nenhuma, mas as que sobraram ganharam um sentido intenso que não se esgotavam na linguagem. Percebi que em um processo de comunicação as palavras constituem apenas uma pequena parte. Passei a notar o incrível poder de comunicação do silêncio e as revoluções e revelações que as pausas entre as palavras traziam.

Em vários momentos da minha experiência eu chorei como não chorava há muito tempo. O contato com algo que fazia um sentido inexplicável em palavras era tão gratificante que nada mais importava. Chorei como não chorava desde os meus primeiros anos de idade e, de repente, notei que o que eu era na essência eu sempre fui. Como quando eu era criança. Eu simplesmente era. Eu vivia mergulhado em cada momento. Era pura atenção. Eu jamais tinha deixado de “ser”, mas fui me afastando lentamente na medida em que fui acreditando e aceitando as mentiras que alimentavam a minha mente. Tantos anos de condicionamento me distanciaram muito daquilo que eu verdadeiramente sou.

Não posso dizer que encontrei uma reposta, mas posso dizer que fiz um reconhecimento.

Sozinho, com minha mochila nas costas, peguei um ônibus na pequena cidade que me levaria por 100 km até a rodoviária de Porto Alegre. Chegando lá, entrei no metrô rumo ao aeroporto de onde voaria para Curitiba, decidido a prestar atenção em cada instante da viagem. Quando o avião decolou, eu decolei junto. Liguei um dos discos mais sublimes do Tom Jobim no fone de ouvido e novamente meus olhos lacrimejaram. Eu me sentia vivo! Observava as nuvens pela janela, o céu azul, o som do Tom, sons, imagens, cheiros, o ar em contato com meus cabelos, todos os sentidos juntos mostrando a integridade daquilo que eu sou de verdade. A realidade é aquilo que se percebe com todos os sentidos juntos, aguçados. Não é o que se percebe vendo, ouvindo, sentindo, provando ou cheirando separadamente. A realidade é o que se observa quando o tempo e o espaço não estão agindo. A realidade é o que se observa sem o aparato da mente. Simplesmente não existem palavras para descrever.

Desci do avião e peguei um ônibus até o centro de Curitiba. Caminhei pela praça com uma leve chuva, passei pela universidade onde estudei. Um sentimento de profunda gratidão tomou conta de mim. Pude compartilhar desse sentimento com cada rosto que cruzava o meu caminho. Quando o ônibus chegou perto da minha casa uma chuva forte começou a cair. Fui caminhando serenamente até a entrada do meu prédio. Encharcado, peguei os jornais que haviam se acumulado na portaria. Pensei o que faria com aquelas informações, mas como não iria me preocupar com elas naquele momento. Descartei esses pensamentos. Subi as escadas e parei em frente à minha porta. Coloquei toda a intenção de amor e gratidão naquele momento de encerramento de uma maravilhosa jornada e quando abri a porta parecia que eu estava entrando em minha casa pela primeira vez. Chorei.

A experiência do reconhecimento ninguém pode fazer por nós. É preciso vivê-la. Nenhum mestre, seita ou religião é capaz de conduzi-lo se você mesmo não mergulhar nessa investigação.

Abri o computador decidido a tentar compartilhar ao menos uma fração da minha experiência. A cada toque dos meus dedos nos quadradinhos do teclado coloco uma intenção. Cada movimento é carregado de um sentido. As palavras escolhidas possuem uma importância. Não serão suficientes, mas poderão indicar um caminho ou gerar uma reflexão. A experiência do reconhecimento ninguém pode fazer por nós. É preciso vivê-la. Nenhum mestre, seita ou religião é capaz de conduzi-lo se você mesmo não mergulhar nessa investigação.

Quem eu sou? Um observador. Sou aquele que observa maravilhado e atento a um processo de reconhecimento. Porque o que sou, eu sempre fui. Jamais deixei nem deixarei de ser: amor, paz e gratidão.

Diogo Busse é advogado, professor universitário e algo mais… trabalha procurando ajudar no despertar do maior número de pessoas possível para que cada uma encontre suas potencialidades e cresça em um ambiente que a estimule a desenvolvê-las.

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