Good Truck: bom e do bem!

1
1362
Caixas e caixas de alimentos ainda bons, que seriam descartados só por estarem machucados, feios ou maduros.

Quem me conhece de perto sabe que sou uma pessoa forte, mas que tenho o coração mole. As enfermidades do mundo sempre foram uma dor pra mim. De pequena, perguntava à minha mãe “quem é que mais mandava no mundo”, porque queria muito mudá-lo, e para tanto precisava saber onde eu tinha que chegar para conseguir. Ela, muito humildemente, respondia: é o presidente, filha. E, então, presidente se transformou no que eu queria ser, desde os 5 aninhos.

Sempre procurei fazer trabalhos voluntários. Participava do preparo de sopões para moradores de rua, fazia ações em orfanatos e asilos, arrecadava brinquedos e roupas para distribuir no Natal. Eu era moleca e, apaixonada, vivia sem a tampa do dedão, com o joelho remendado. Quando minha mãe me pedia para “ficar linda”, eu resmungava dizendo que quando crescesse usaria calça jeans e camiseta branca, e que ela não poderia me impedir. Vaidade, para mim, era passar a tarde em cima das árvores, sentir o vento na cara ao correr de esquina a esquina, brincar de escorregador na terra úmida.

Sempre à espreita na barra da saia da vó, observando a dinâmica das panelas, facas e colheres, cresci esperando o tempo de colheita da horta e sentindo o cheiro de pão fermentando no sol. Com o passar dos anos, o sonho de ser presidente foi dando lugar a percepções mais reais do mundo: quis estudar gastronomia, mas não me permitiram. Resolvi que talvez o urbanismo me levasse mais perto do sonho de “melhorar o mundo”.

Hoje, arquiteta de formação, vejo que o caminho estava bem planejado para que eu chegasse até aqui. Através do urbanismo, tive contato com a ONG Teto, que me levou ainda mais próximo de uma realidade que só existia na minha imaginação e me fazia inquieta desde tão jovem. Ali minha cabeça borbulhava de ideias, meu coração sentia as feridas de cada alma que cruzava o meu caminho. Aprendi a respeitar as escolhas mais inaceitáveis, aprendi a ouvir, a desapegar. Ali nasceu o Good Truck.

unnamed-1

Paixão é paixão

Não é à toa que a gastronomia voltou com muita força ao meu dia-a-dia, inclusive, e talvez principalmente, através do meu blog Flor de Sal e tudo o que ele tem me proporcionado vivenciar nesse meio. Nos últimos 4 anos, a alimentação tem mudado minha vida em vários âmbitos, e foi muito fácil percebê-la como um agente com potencial transformador incrível. Comer é um ato político, social, revolucionário. Alimenta a alma. É amor, é amar. Em tempos de fast food, tirar algumas horas do dia para cozinhar para si ou para alguém é ir contra o sistema, é demonstrar carinho e cuidado.

Comer é um ato político, social, revolucionário. Alimenta a alma. É amor, é amar. Em tempos de fast food, tirar algumas horas do dia para cozinhar para si ou pra alguém é ir contra o sistema, é demonstrar carinho e cuidado.

O Good Truck nasce, então, das minhas insatisfações mais profundas. De dar o mínimo de nutrição, tanto física, como espiritual, para quem não tem acesso a amor, a aconchego, à informação, à saúde. De minimizar os impactos de um setor que produz muito mais do que precisa e faz um movimento que minha cabeça se nega a entender gerar muito, descartar muito.

Hoje, somente no Ceasa de Curitiba, são descartadas 14 toneladas de alimentos em perfeito estado de consumo, diariamente. Essa quantia alimentaria mais de 25 mil pessoas, quase 13 vezes o número de pessoas em situação de rua na cidade.

img_4361

O que é o projeto

O Good Truck é um projeto social que transformará excedentes de feiras e supermercados em REFEIÇÕES COM QUALIDADE para quem não tem acesso. A ideia é diminuir dois problemas um econômico/ambiental: o desperdício de alimentos/geração de resíduos, e um social: a fome.

img_4328

Hoje tenho a grande honra de poder contar com a parceria da Manu Buffara, uma mulher forte que, desde o princípio, acreditou em mim e me apoiou graças a Jussara Voss, esse anjo que a vida me deu de presente, minha mãe de coração. Além disso, uma equipe cheia de vontade e bom humor corre ao meu lado: Mauricio Noronha (meu namorado, que sonhou comigo desde o primeiro dia, e trabalhou duro pra que tudo se concretizasse), Priscila Kondo, Gabriela Coutinho e Diogo Utrabo, e não posso deixar de citar a Flavia Schiochet, que sempre me encorajou e incentivou. Tive também o enorme prazer de conhecer o David Hertz, criador da Gastromotiva, e contar com seus conselhos e apoio.

Nosso objetivo é impactar milhares de pessoas, incontáveis cidades, inúmeras toneladas de alimentos. A ideia é que centenas de trucks no Brasil adiram ao “Selo Good Truck”, saindo em prol dessa causa ao menos uma vez por mês. E não só, mas vou guardar algumas surpresas para o caminho 🙂

Enfim, o primeiro passo de um sonho se realizará no dia 23/12. A primeira ação do Good Truck acontecerá em Curitiba! Não coincidentemente, é muito provável que você me encontre por aí de calça jeans e blusa branca. Os sonhos amadurecem, mas a essência não muda!

Para mais informações, é só acessar www.flordesal.blog.br/goodtruck.

Seja um voluntário, seja um apoiador, seja um parceiro, mas, acima de tudo, seja mais consciente! Comece a mudança aí na sua casa 🙂

opc%cc%a7a%cc%83o_03

A Gabi é arquiteta urbanista e metida a cozinheira! Desde que entrou no mundo do esporte, mudou sua alimentação, o olhar sobre o mundo e sobre seu corpo. Hoje é maratonista, autora do blog Flor de Sal e colunista do Presunto Vegetariano e estuda para ser chef especialista em culinária veg.

Leia mais:

6 lugares para levar aquele seu amigo “veg”
Ceviche sem peixe? Sim! Anota aí a receita!

1 COMENTÁRIO

Comments are closed.