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Lua de Mel na Itália de moto

29 de julho de 2018

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Confira o roteiro completo da viagem

Talvez eu não seja lá muito normal. Certamente não sou. Pelo menos sob o olhar daqueles que me cercam. Uma viagem de lua de mel na Itália de moto, que não atenda aos padrões preconcebidos é quase um desaforo às expectativas sociais, causa indignação, o “como assim?” desapontado daqueles que pensam que o retiro pós matrimônio encontra-se embalado nas prateleiras das agências de viagens: Taiti, Fernando de Noronha, Aruba, com um elegante serviçal oferecendo duas taças de champanhe na portaria do hotel e pétalas de rosas na Jacuzzi fumegante com lâmpadas azuis. Nada contra, de maneira alguma, só um bobo desdenharia de tamanho conforto e cordialidade, mas, confesso, detesto o paparico de serviçais, prefiro eu mesmo fazer o serviço. Ah, sou um tanto impaciente também, estender meu corpo numa espreguiçadeira de frente pro mar e banhar-me a cada meia hora afim de fixar os tons do sol na pele não satisfaz meus anseios.

Lua de Mel na Itália

Nossa lua de mel na Itália começou em Alba, no norte, vestidos quase como astronautas, com jaquetas, calças, botas e capacetes, sob o radiante sol da primavera. Seriam 15 dias até chegar ao destino final, Brindisi, onde pegaríamos um ferry até a Grécia. Quinze dias sem programação de hospedagem, alimentação, ou roteiro predefinido, a única coisa que sabíamos é que passaríamos grudados o dia inteiro, um abraço duradouro, eu na frente, ela atrás, e todo o resto seria descoberto a cada curva, a cada vilarejo, a cada taça de vinho e prato típico de cada região. Nada poderia ser mais fascinante e encantador.

Amarrei as malas no bagageiro. A Júlia subiu. Fiz o sinal da cruz e dei a partida. Fui invadido por uma alegria explosiva, refrescante, renovada a cada respiração pelo vento ainda gelado daquela manhã. Espiei a Júlia pela fresta do capacete, ela soltou um gritinho “uhuuuuuu”, parecia sentir o mesmo. Seguimos para o sul. Foi uma das viagens mais lindas da minha vida.

Alba, Sestri Levante

Lua de mel na Italia

Cruzamos as terras de Barolo, entramos no centrinho de Bossolasco, a cidade das rosas, e paramos em Montezemolo, quase uma hora depois, para o nosso primeiro café de estrada: uma focaccia com anchovas e molho de tomate que estava exposta na vitrine. Seguimos descendo as montanhas da Ligúria repletas de oliveiras, de repente estávamos em Génova, numa estrada frenética espremida entre o mediterrâneo e as casas amareladas empilhadas nas montanhas.

lua de mel na Itália

Queria parar e contemplar. Impossível parar. Escapei por uma tangencial, me perdi no porto, voltei alguns metros na contra mão, até que, pelas vielas sujas do cais, paramos em frente à Osteria dei Vico Pala, um restaurante conhecido por fazer o melhor trofie com pesto genovês da Itália. Tarde demais. Passaram-se dois minutos das 14h45, horário de fechamento, e não nos quiseram atender. Seguimos. Algumas gotas de chuva caiam, decidimos parar e saciar a fome com dois sanduíches num café à beira mar, esperando a chuva passar. Aos poucos um arco-íris se formou, a chuva passou, e seguimos por uma estrada costeira até Portofino, onde o cansaço misturado com a insegurança de deixar as malas abandonas sobre a moto nos levou a uma discussão: eu não via problema; ela me dizia inconsequente. Assim nos odiamos por alguns minutos.

Deixamos as malas, descemos a pé até o píer dessa cobiçada praia, conhecida por ter um dos metros quadrados mais caros do mundo, onde é comum ver iates transatlânticos entrando e saindo da pequena baía, num contraste até estranho entre o antigo das construções e o modernismo hightech dos barcos. Seguimos.

Horas mais tarde paramos a moto em frente à um hotel em Sestri Levante e entrei pra perguntar o preço. A Júlia atravessou a rua e descobriu uma tarifa melhor. Hotel Gênova, lá ficamos.

Lua de Mel na Italia

lua de mel na itáila

Sestri Levante é quase a porta de entrada para uma das regiões mais visitadas da Itália: a Cinque Terre, composta por Monterosso, Vernazza, Riomaggiore, Corniglia e Manarola. Saímos sem café da manhã. Acordamos tarde e demoramos até rearranjar tudo nas malas, ainda nos faltava prática. O desapego é regra em viagens de moto, sempre se termina com menos carga do que se começa, é comum descartar coisas ao longo dos dias afim de ter mais praticidade, menos peso e agilidade pra montar e desmontar, sendo assim, as “comprinhas” se resumem a adesivos ou chaveiros. Eu, particularmente, gosto assim. Já a Júlia…

Seguimos os caracóis de estradas que sequer tinham sinalização ou acostamento, montanha acima, montanha abaixo, e assim sucessivamente, sempre espreitados entre o mar e as paredes das montanhas. A tranquilidade das estradas escolhidas foi fundamental, a cada instante parávamos e os uivos vindos do oceano nos enchia a alma. Quando passamos pela placa “Monterosso al Mare” a Júlia me cutucou e disse “entre aí, uma amiga indicou um restaurante nesse lugar, é hora do almoço, vamos parar”.

Uma praia linda de areia grossa e escura povoada de guarda-sóis. Paramos a moto num estacionamento público, deixamos as bagagens sobre ela e andamos até achar o restaurante. Sentamos encostados ao parapeito entre penhasco e mar, cobertos por uma tenda de panos brancos, observando o trânsito dos barcos turísticos lá embaixo. Peixe pescado no dia assado com batatas, uns tomatinhos e tomilho.

– Júlia, que tal entrar nesse mar?

– Eu topo, mas não tem como se trocar.

A solução foi usar uma canga de vestiário. Ali mesmo, naquele estacionamento público, trocamos de roupa cobertos pelo tecido. Voltamos à praia, 10 euros por uma hora de guarda sol. De repente eu mergulhava nas águas frias da Cinque Terre como uma criança que vê o mar pela primeira vez. Salgados do mar, ainda com as roupas de banho, seguimos viagem. Discutimos sobre passar em Riomaggiore, ou, por que não, em Corniglia, mas resolvemos continuar, tínhamos muita coisa pela frente.

Eu pretendia me aproximar de Modena ainda naquela noite, visitar um amigo russo que havia estudado comigo no ano anterior e que hoje era um dos cozinheiros da Osteria Francescana, considerado um dos melhores restaurantes do mundo.

O dia terminou às oito da noite, numa cidadezinha de montanha chamada Bagni di Luca.

Do lado da nossa pousada, um restaurante com decoração antiga, toalhas vermelhas com bordados dourados, papel de parede idêntico, lareira no canto, velas que escorriam derretidas em candelabros sobre as mesas, música clássica e cardápio baseado em cogumelos porcini, especialidade da região. Só estávamos nós dois e o chef, atendimento personalizado. Duas doses de conhaque antes de ir dormir. Buona notte, signori.

De Bagni di Luca seguimos pelas estradas tortuosas que levam a Modena e atravessam a reserva de Abetone, com árvores que encobrem longos trechos da estrada formando lindos túneis verdes, onde diversos grupos de motociclistas se divertem, não só pelo prazer das incontáveis curvas, mas também pelo espetáculo da natureza. Chegamos em Modena por volta das duas e meia da tarde, onde o Mikael, meu amigo russo, nos aguardava para o almoço. Nos encontramos num restaurante qualquer, ruim por sinal, já que, infelizmente, não conseguimos uma mesa na cobiçada Osteria Francescana. Nos despedimos do Mikael e seguimos viagem, já era tarde quando passamos pelo centro de Bologna, mas resolvemos continuar até Firenze, onde, mais uma vez exaustos, sob clima chuvoso e sem reservas prévias para pernoitar, fomos atrás de um hotel.

Parei no primeiro que encontrei próximo ao centro da cidade, encharquei a recepção com a chuva que escorria das minhas roupas, enquanto a Júlia aguardava debaixo do pórtico de entrada. Estava puta, indignada. O estresse tomou conta. Discutimos. “Isso não me parece uma viagem de lua de mel”, dizia a ela, “eu nunca imaginei que passaria por uma situação assim, são nove e meia da noite e mal sabemos se teremos onde dormir, não sei se quero continuar”. Tivemos sorte de achar um hotel vago, razoável até. Fizemos check in, tomamos banho e seguimos para o jantar. Argumentei que aquilo era, infelizmente, parte do estilo da viagem, que as emoções vividas naquela manhã ou no dia anterior não durariam o tempo todo e que teríamos dias melhores pela frente. “Ok, Beto”.

De Firenze para Roma e Nápoles

De Firenze para Roma nos perdemos pelos campos da Toscana, entre plantações de uvas e suas vinícolas. Eram tantas as cidadezinhas que nos indicaram que cheguei a ficar angustiado “qual a mais interessante?”. Paramos para um café numa bodega de estrada. Analisamos o mapa, decidimos por Montalcino, uma cidade romântica com ares medievais repleta de pequenos restaurantes familiares e empórios com produtos e vinhos da região. Sinais de chuva ainda nos perseguiam. Decidimos entrar e almoçar numa trattoria que anunciava “língua ensopada” e “fígado acebolado” no cardápio exposto do lado de fora.

Durante aquela refeição caseira curamos as farpas do dia anterior e refizemos os laços para seguir viagem. Seguimos. Desviamos mais uma vez o caminho, dessa vez em direção ao Lago di Bolsena, para visitar Bagnoregio, uma cidade histórica que parece flutuar no espaço, ficção científica fora do cinema. Terminamos o dia em Viterbo, num spa indicado por uma amiga. Estávamos a poucos quilômetros de Roma em profunda paz e harmonia.

Por muitas vezes lamentamos o pouco tempo para conhecer cada cidade. Esse é o ônus de uma viagem de moto: se conhece um pouco de tudo, de tudo um pouco, mas sempre superficialmente. O bônus é a capacidade de explorar: de manhã pode se tomar café na beira de uma praia, à tarde percorrer florestas e à noite dormir em uma metrópole a 400 km de distância. Outro bônus é a versatilidade, especialmente quando se trata de Itália, onde motos transitam como enxame de abelhas nas grandes cidades e estacionam em qualquer lugar. Em Roma foi assim: ônus e bônus.

O Valério, grande amigo nosso nascido na capital italiana, sempre falou “não seja nem louco de fazer essa viagem e não passar por Roma”, mandou dicas, dezenas de lugares imperdíveis, segundo ele. Mas o tempo corria e não sobrou espaço para nada além de uma parada para almoçar.

Ao me aproximar da cidade eu sentia enorme emoção trafegando por aquelas ruas, afinal, era a minha moto, com placas de Curitiba, que desfilava, de repente, em frente ao Coliseu, algo que nunca imaginei acontecer.

Nos enfiamos pelas ruelas do centro histórico até estacionar irregularmente em frente ao restaurante Roscioli. “Távola per due, per favore”, pedi para a hostess, que foi dizendo que teríamos que esperar ao menos três horas. Ao lado, porém, uma pizzaria com mesmo nome, tocada pela mesma família, oferecia pizzas “al taglio”. E foi dividindo o balcão com diversos outros clientes que mergulhamos na comilança desenfreada. Seguimos para Nápoles.

De Nápoles para Sorrento

À medida que se avança ao sul a pobreza salta aos olhos. Buracos nas estradas, lixo nos acostamentos, construções abandonadas. Até os policiais têm postura diferente, jeito de malandro, aquele olhar de quem quer te explorar, achar o erro para tirar algum trocado pro café.

Ainda no caminho paramos numa das quitandas que vendem mozzarella na beira da estrada. Pedi na vitrine, a moça enfiou num pacotinho para viagem e cobrou três euros. Ali mesmo, no estacionamento, dei a primeira mordida: nunca comi nada tão cremoso, tão puro e delicado. Seguimos. A periferia de Nápoles concentrava toda a miséria e descaso que a estrada vinha anunciando: lixo nas ruas, trânsito completamente maluco, casas pobres com fachadas mal cuidadas.

Mas eu adoro o caos, e, ao caminharmos pelas ruas imundas e abarrotadas de gente no dia seguinte, pelos comércios na calçada, fossem bancas lotéricas ou barracas imundas de frutos do mar, meu sangue borbulhava, eu só queria estar ali, ser dali, um vendedor de uma lojinha, talvez, ou, por que não, um garçom de uma daquelas espeluncas fedorentas cheias de salames pendurados no teto. Quanta vida! Chegamos à pizzaria mais famosa do mundo, Sorbillo, que na entrada traz placas como: “a melhor das melhores pizzarias do mundo”. Comemos feito loucos.

Voltamos apanhar as malas no hotel no meio da tarde, e, ali mesmo na calçada da avenida à beira mar, vestimos as calças, jaquetas e botas, e partimos para Sorrento. Posso apostar que não existe em lugar nenhum trânsito mais caótico que aquele, onde carros param sem mais nem menos no meio da rua, o motorista desce, deixa o carro ali, como se fosse uma deliciosa vaga de um shopping center, e isso, que parece algo pontual, acontece a cada 50 ou 100 metros, e o trecho de 50 km que liga Nápoles à Sorrento durou quatro horas para ser percorrido. Entramos num hotel às nove da noite, deixamos as malas e saímos para um jantar no centro da cidade: ela, bacalhau assado; eu, o clássico espaguete com molho de tomates e manjericão.

 Costa Almafitana à Polignano a Mare

O grande dia: Costa Amalfitana! O dia amanheceu ensolarado em Sorrento, parecia encomendado pra um dos trechos mais esperados da viagem. O objetivo era viajar o mais devagar possível até chegar em Vietri sul Mare, não queríamos perder nenhum detalhe. E assim foi, comemos a cereja do bolo lentamente, como se fosse a nossa última refeição.

De Vietri sul Mare seguimos à Polignano a Mare, cruzamos o país em direção ao mar Adriático. Almoçamos em Potenza, onde paramos para abastecer, e conhecemos, no caminho, duas cidades históricas que preservam impressionante patrimônio cultural arquitetônico: Matera e Aberobelo.

Chegamos em Polignano já era noite, sem saber onde ficaríamos. Perambulamos um pouco até encontrar a recepção de algum hotel que estivesse atendendo. “Senhor, tem quarto pra hoje?”, perguntei. “Olha, aqui não é um hotel, é um restaurante” e me mostrou a foto do lugar. Quando vi não acreditei, coisa do destino. Eu estava na portaria do Grotta Palazzese, sem qualquer planejamento, um dos lugares que mais desejei conhecer na vida, um restaurante construído dentro de uma caverna sobre o mar.

“Júlia!!! Aquele restaurante é aqui, a gente precisa jantar aqui hoje!”. Por instantes esqueci que procurávamos um hotel, mesmo assim, tornei a falar com o recepcionista e pedi mesa pra dois. Ele me olhou assustado, reparou em nossas roupas de estrada e disse “Senhor, talvez seja possível daqui umas duas horas, mas esse restaurante é caro, uns 150 euros por pessoa, e não pode entrar com certas roupas, como bermuda e chinelo, por exemplo”. Olhei pra Júlia e perguntei se ela topava, seria disparado o jantar mais caro da viagem. “Sim, não vamos perder a oportunidade, vamos achar um hotel, tomamos um banho e voltamos”. Assim foi. Foi incrível.

Polignano foi, de certa forma, nosso último dia de Itália. No dia seguinte, após nadar um pouco numa praia da cidade entre as enormes falésias rochosas, seguimos até Brindisi, onde embarcaríamos num ferry com destino à Grécia. A chegada de moto no porto turístico de Brindisi nos trouxe enorme sentimento de realização. Sentamos num gramado amplo e bem cuidado em frente à alguns veleiros atracados no cais por algumas horas, onde pedimos alguns aperitivos locais. Algumas crianças brincavam com as famílias no gramado e davam comida aos pombos, enquanto nós brindávamos o final da viagem com taças de espumante.

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COMENTÁRIOS
  • O diário de uma lua de mel nada convencional!! Cheio de aventuras e romantismo!
    Sensacional!! Parabéns ao casal. Que vocês possam curtir muitas e muitas viagens
    ao longo de suas vidas!! Bjuss

  • Em 2 palavras.
    Espetáculo! Adorei!

  • Seus relatos estão sempre me surpreendendo,linda viagem...pra mim o interior mais lindo do mundo é o da Italia,que vcs sejam muito felizes!

  • Parabéns, Beto!!! Adorei o texto, desejo muitas felicidades ao casal e que esta tenha sido a primeira de muitas viagens que virão!!!