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Um filho de dono de restaurante (parte 3)

6 de setembro de 2016

(225)
Meu primeiro banquete gastronômico

Quando eu nasci, o Madalosso já tinha 14 anos. Já tinha um apelido também: “Velho”, Velho Madalosso. Apelido que, apesar da relação com o tempo, não tinha relação com a idade. O Velho passou a ser “Velho” depois da abertura do “Novo”, em 1970. O Novo foi construído exatamente em frente ao Velho, sobre a antiga e fracassada plantação de uvas da família. Eu nasci ali, 10 de junho de 1978, numa das sete casas que circundavam o enorme terreno do Novo Madalosso. Cresci solto como um menino do interior, subindo em árvores, fazendo fogueira, soltando pipa e pulando morros de areia com minha bicicleta naquele jardim a céu aberto. O colégio era distante e os amigos do colégio eram estranhos demais para mim. Eu vivia sujo, com terra debaixo das unhas, camisa rasgada e bicho de pé, consequência das brincadeiras ao ar livre; enquanto eles curtiam playgrounds, videogames e quadras poliesportivas em seus condomínios verticais.

Apesar da ausência nas datas comuns, havia uma coisa da qual meu pai não abria mão: nosso almoço em família de segunda a sexta, preparado por minha mãe.

Meu pai, por conta do trabalho excessivo, era ausente. Diferente do que acontecia com as outras crianças, meu pai raramente aparecia em minhas competições de natação, sabia pouco das minhas notas escolares e passava pouco tempo com a família nos finais de semana. Mas eu nunca senti falta disso. A gente não sente falta daquilo que nunca teve. Percebia, apenas, como o estilo de vida na minha casa era muito diferente do estilo dos outros “sem restaurante”. Os outros faziam churrasco aos sábados, frequentavam clubes de campo nos domingos, viajavam nos feriados e finais de ano, desfrutavam de festas em família nas noites de sexta e jantavam juntos assistindo à novela das oito. Com a gente era diferente. Nada disso era comum ou rotineiro.

A vida social do meu pai era o trabalho em si: manhã, tarde e noite, todos os dias da semana e do ano, com exceção da Sexta Feira Santa, único dia na história do Madalosso em que as portas eram mantidas fechadas. Apesar da ausência nas datas comuns, havia uma coisa da qual meu pai não abria mão: nosso almoço em família de segunda a sexta, preparado por minha mãe. Ciente, porém, de sua pouca disponibilidade de tempo pra dividir comigo e com meus irmãos, meu pai encontrou alguém que pudesse fazer isso por ele: o Quarenta e Cinco.

José da Cruz levava apelido homônimo ao número de registro do táxi de seu táxi. Ele era um dos 15 taxistas que batiam ponto na porta do Novo Madalosso pra fazer o leva e traz de turistas entre os hotéis e o restaurante. Sua missão inicial era transportar, ida e volta, eu, meus irmãos e meus primos até o colégio. Alguns iam pela manhã, outros iam no grupo da tarde. Logo passou a levar-me para a natação, para as aulas de recuperação, pra comprar roupas de tradição gaúcha nas lojas de bairro e, quando viu que minhas pernas eram longas o suficiente pra alcançar os pedais de acelerador, freio e embreagem de sua Brasília alaranjada e preta, me ensinou a dirigir. Sem me dar conta, adotei o Quarenta e Cinco como pai e ele me adotou como filho. Sentia por ele profunda admiração, sem motivos específicos. Logo, incorporei seus gostos e costumes: músicas sertanejas, rodeios e o discurso puro de que “quanto menos você tem, mais feliz você pode ser”. Foi em sua casinha branca de madeira que se deu meu primeiro banquete gastronômico. Certo dia, ele resolveu programar uma pastelada para mim, meu irmão e um de meus primos. Competíamos pra ver quem comia mais, tendo o Quarenta e Cinco como jurado. Pastel de queijo, pastel de carne e gasosa de framboesa. Foi também sob a tutela do Quarenta e Cinco que tomei meu primeiro porre de quentão, enquanto acampávamos num rodeio qualquer. Vomitei as tripas até ser salvo por sua simpatia curandeira: sal grosso no bolso esquerdo e duas pedras de gelo no bolso direito. Eu tinha uns 11 ou 12 anos. O tempo passou e a adolescência chegou. Meus interesses mudaram e o “chamado” pra trabalhar no restaurante ganhou mais força. A infância chegava ao fim.

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Um filho de dono de restaurante

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