Não espere muito do governo

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Na hora de comer, pense no que está comendo. E na hora de votar, muito mais atenção ainda. Nossa vida e saúde dependem disso, tenha certeza. Simples assim, como fritar ovos. Desembarquei aqui e sou provocada a falar sobre o papel do governo na gastronomia. E por onde começo a puxar esse emaranhado macarrônico? É pensar no problema e me vejo tentando esticar a pouca massa numa forma de torta grande: puxa um lado, e outro fica descoberto, estica e levanta um furo no meio e, se colocar o recheio assim, vaza para todo lado. Já enfrentaram essa situação? Eu já.

Nas ações governamentais da área a cena cai perfeita. Isoladas, parecem nadar em bacia furada. O creme vai escorrendo aos poucos, deixando um vestígio apagado. Para quem atua no setor, é tão óbvia a necessidade de o governo destinar recursos, elaborar diretrizes e cumprir o planejado, que não se aceita que o molho desande. Quem tem a caneta e vive às voltas com problemas emergenciais na economia, saúde, educação, dentre tantos outros, deve até achar graça quando alguém chega bradando por investimentos para o binômio turismo/gastronomia. Pois deveria prestar mais atenção.

Foi assim com o projeto Gastronomia Paraná, ações executadas aos solavancos por quem jogava o olhar distante e mirava não apenas os modelos de países mais ricos, colocava o olho gordo no desenvolvimento dos hermanos vizinhos, Peru e México. Com quadro de pobreza e desigualdade semelhante ao nosso, eles conseguiram convencer as autoridades a apoiar a área e sair detrás da pia cheia de louça suja que nos encontramos e que nos impede de ousar, criar e atrair mais turistas e desenvolvimento. Mas o Brasil é tão grande, lamentamos pensando nas outras prioridades. Na nossa experiência com o projeto, vimos dirigentes do segundo escalão, não todos, infelizmente, que enxergaram a relação da área em gerar riqueza e atrair holofotes e expandir os resultados para a agricultura e a saúde, além do turismo, mas foi só. A iniciativa não subiu à cúpula e não deu frutos, ao contrário, acabou dançando num eterno banho-maria.

Quem tem a caneta e vive às voltas com problemas emergenciais na economia, saúde, educação, dentre tantos outros, deve até achar graça quando alguém chega bradando por investimentos para o binômio turismo/gastronomia. Pois deveria prestar mais atenção.

E na realidade, do que precisamos? Primeiro precisamos cozinhar melhor. Educar os clientes também. É preciso apresentar mais qualidade. Mostrar o valor de um bom prato. Mostrar novos sabores. Nunca se falou tanto em comida e nunca tivemos tantos problemas relacionados à obesidade e às intolerâncias, por exemplo. E não estou falando de criatividade e outras coisas tão em voga. Apenas ter regularidade, fazer o básico bem feito e sempre igual já é uma glória. Pé no chão e barriga no fogão, deveríamos começar por aí. E planejamento.

Por enquanto, o que temos para comemorar é que a ideia do projeto Gastronomia Paraná, de nos aproximar de um panorama internacional e promover nossos chefs, descobrir nossas origens, valorizar nossos produtos, receitas originais e produtores locais, deu um gostinho de quero mais em muita gente, uniu pessoas e instituições com objetivos comuns. Agora precisamos engrossar o molho na redução para ganhar sabor. É pela união, pelo debate, pela prática que iremos amadurecer, fazer o pão crescer e mostrar do que somos capazes. Leva tempo.

Por isso, não aceite qualquer comida, não vote em quem você não conhece e se não acredita nas intenções. Depois, acompanhe o trabalho e veja se a conduta e as promessas de campanha se realizam. Sei bem onde arde a cebola. Nos olhos. Acredito que o primeiro passo é a união, seguida de reflexão, aonde mesmo queremos chegar? Daí podemos exigir mudanças. Para o governo, continuidade dos bons projetos e boas cabeças pensantes nos lugares certos. Para os restaurantes, regularidade e qualidade. Pouco a pouco. Por enquanto, nada a esperar.

Jussara Voss é blogueira e jornalista de gastronomia que vive a procura da refeição ideal.

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