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Nicarágua na Boca

21 de setembro de 2016

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Uma viagem de muito surf e muita comida pela Nicarágua

Hoje em dia não anda simples para homens dizerem que não sabem nada de cozinha, ficou meio feio. Então, antes de você continuar a ler esta matéria, vou ser sincero: eu mal sei fritar um ovo, sofro pra diferenciar colher de chá da de sobremesa e tenho medo de forno. Se quiser parar já, tranquilo. Se não, vamos nessa porque, graças a deus e à minha fome – que, diga-se de passagem, nunca me abandonou –, sou um apaixonado pela gastronomia. E toda viagem é uma grande experiência gastronômica. A que vou contar daqui pra frente começou, quando, numa mesa de bar, rodeados de cerveja, eu e mais cinco amigos de infância resolvemos fazer a primeira surf trip juntos. Nos conhecemos e surfamos há décadas, mas uma semaninha dedicada apenas às ondas, às cervejas e à boa comida, esse grupo nunca tinha feito. Escolhemos a Nicarágua porque tinha tudo isso e ainda a proximidade e o custo-benefício da América Central.

Centenas de e-mails depois, chegou o dia e a galera embarcou para Manágua via Miami. O plano era chegar, pegar duas 4X4 e rumar para o sul, em direção a Rivas, onde ficaríamos instalados em Hacienda Iguana, entenda-se, na cara do gol. No avião já decidimos que a primeira parada seria um supermercado, pra fazer o ranchão da barca. Depois de uns momentos tensos por causa de um passaporte para vencer em, tipo, 10 dias, pegamos as bagagens, colocamos no carro e rumamos para nossa primeira experiência gastronômica: el Maxi Palí.

SuperMaxiPali

Maxi Palí, um supernica 

Comida é sempre importante em qualquer viagem, agora multiplique isso por sete. Entramos em cinco no Maxi Palí, uma espécie de SuperDip com status local de Carrefour. Cada um pegou um carrinho e foi em direção ao seu objetivo, mesmo sem saber qual era. O combinado era cozinhar o mínimo possível, pois tínhamos Érika – ela vai ganhar um capítulo à parte – para fazer o café da manhã e três jantares em sete dias. Estávamos ali apenas para comprar os “lanches pós ou pré-surfe” e a “cerva”. Claro, virou uma confusão animal e risada pra mais de metro com a descoberta de produtos interessantíssimos como o Presunto Fud, Esse é FUD IDOL, e a Avena Mosh, a veia rock ’n’ roll. Descobrimos ali que a cozinha nicaraguense dá bastante valor ao sabor e ao tempero, usando e abusando de frutas, verduras, carnes e peixes. Foi no Maxi Palí também que encontramos pela primeira vez aquela que seria a musa de toda a viagem, a Toña. Nos apaixonamos tanto por ela que compramos 10 caixas já de largada. Para acompanhá-las, muita maçã, cenoura, pão, queijo, presunto e tudo que desse para enrolar em papel-filme e levar para a praia. Claro que teve uma ala mais radical que foi responsável pelas bolachas, os chocolates e a Nutella.

MaxiPali2

Erika, a nicachef casca-grossa

Depois de uma tumultuada, mas bem-sucedida parada no supermercado, rumamos ao sul e menos de duas horas depois chegávamos ao nosso destino, la famuesa Hacienda Iguana. A Nicarágua é um país seco, árido e amarelo. Chegar na Iguana e ver aquela quantidade de verde em frente ao mar foi bom demais. No reconhecimento da área já descobrimos um bar, uma piscina e um restaurante, tudo pé na areia a uns 35m da nossa sacada. Para a primeira noite, tínhamos encomendado o jantar, que seria feito no nosso apê pela Erika. Depois de pouco mais uma hora de surf, sete monstros molhados de fome adentraram o apartamento e se depararam pela primeira vez com Erika, que em menos de duas horas já havia ganhado o apelido de “a nicachef mais casca-grossa de todos os tempos”. Do alto de seu metro e quarenta e pouco, aquela mulher morena acima do peso, já perto dos 30, com feições claramente centro-americanas e um grande sorriso no rosto, preparava sozinha o nosso jantar, com direito a entrada e prato principal. Isso mesmo que você leu, menos de 1,5m de nicaraguense dando conta de alimentar sete ogros famintos. Na primeira noite, já descobrimos o quão arregados estávamos: ela deu um show. Ao singelo custo de US$ 7 por pessoa, Erika vinha, fazia a refeição (comida incluída), arrumava a cozinha e ainda dava um gás nos quartos. Mas isso era pouco, o que Erika tinha mesmo a manha era no comando do fogão. Estreamos seu cardápio com uma parruda salada de lagosta como entrada e um frango picante, arroz e legumes grelhados com cebola e alho, simples e delicioso. Erika ainda voltou mais duas vezes para preparar o jantar, em ambas dando um show de simpatia, garra, competência e simplicidade. Fez desde um frango com salada guacamole e purê de batata até Mackerel de 8 quilos, primo do atum, pescado pela ala pescadora da barca. Só amarelou mesmo na noite do terremoto, quando pediu para ir embora junto com a amiga para ficar com a família, o que foi completamente compreensível. E um pouco assustador.

Salada_Lagosta_Erika

O café de las mañanas

A rotina na Nicarágua era pesada, afinal, todos estavam ali para descansar o cérebro levando o corpo à exaustão. A vida começava por volta das 5h15 da manhã. Para não se empanturrar já de cara, junto com a chegada do sol, optávamos sempre por uma fruta, um iogurte e, às vezes, um suco de mamão e laranja. Depois de quase duas horas de surfe, a volta ao apê era rápida e, como sempre, faminta. A alegria chegava a estalar os dentes quando abríamos a porta e lá estava ela, Erika já a mil por hora, cuidando do desayuno de los tigres. Mas não era um simples breakfast, mas um brunch digno da fome e do dia que tínhamos sempre pela frente. Na primeira manhã, já sentimos que Erika não estava lá para brincadeira e, como uma grupiê das panelas, ela distribuiu sete pratos bem carregados de ovos mexidos, bacon e torradas, numa mesa cheia de pães, queijo, presunto, suco e salada de frutas. E todos os dias foram assim, apenas mudando o bacon, ora por salsichas, ora por um picante molho vermelho cheio de cebola e pimentão, naquela linha bem light que era o café da manhã na Nicarágua. Em resumo, mal tinha passado das 8 da manhã e a gente já contabilizava duas horas de água e comido como um toro rosso. Para o resto do dia, ou melhor, de praia, a comida ficava mesmo em segundo plano. Enquanto o sol de quase 40º continuasse no céu, era mais prudente e agradável manter uma alimentação leve, com sanduíches, frutas e, no máximo, um peixinho grelhado em frente ao mar. Porém, a hora que começava a anoitecer, o bicho pegava de novo.

Cafe_manha_erika

Te gusta la lagosta?

O ano de 2014, pelo menos para mim, pode ser considerado o ano da lagosta. No réveillon, já havia me esbaldado com as lagostas do sul da Bahia, que, além de deliciosas, me deixaram mal acostumado ao pagar a média de 50 reais por quatro exemplares de encher a espécie de orgulho. Mas na Nicarágua foram várias vezes, para ser exato, cinco em sete dias. O mais interessante foi que, pela primeira vez na vida, eu comprei lagosta direto do barco, no meio do mar, pegando das mãos do mergulhador que acabara de chegar à tona. Como tudo começava cedo, às seis horas da matina estávamos em frente à praia de Estillero esperando o Nazaret ir ao mar para nos levar até a onda de playgrounds. O caminho seria feito em pouco mais de 40 minutos, costeando uma estonteante parede de pedra e por uma água de fazer inveja a muita piscina por aí. Foi um dos melhores programas da trip e, quando já estávamos voltando faceiros, vimos um barco parado em alto mar dando toda pista que estava caçando lagostas. O barqueiro percebeu nosso interesse e perguntou se queríamos chegar perto e tentar comprar lagostas recém-saídas da água. Não deu outra, encostamos o Nazaret e levamos 12 lagostas por 12 dólares. E para jantar, mais uma vez, o já famoso combina nicaraguense: o Lagostoña.

Lagosta_em_casa

Isabelle

Tá, você já deve estar se perguntando: “Mas esse cara não vai num restaurante?”. Pois é, amigo, não existem muitos restaurantes nesse sul da Nicarágua aonde resolvemos ir surfar. É uma parte pobre do país, localizada entre o Lago Nicaraguá e o Oceano Pacífico, com um clima de pouca chuva, muita aridez e sinais agonizantes de uma pobreza e um descaso vítima de mais de 60 anos de ditadura, fora os 20 e poucos de guerra civil. Assim sendo, o hábito de comer fora por lá é algo meio que exclusivo dos turistas, fazendo com que não tenhamos muitos restaurantes diferentes do que você encontrava na Garopaba dos anos 90, por exemplo. Mas, como tudo na Nicarágua, tivemos mais uma chance de descobrir o quão encantador é aquele país e seu povo. No meio do nada, ou do quase nada, numa estrada de terra, uma casinha verde, com quintal de grama e uma simpática varandinha abrigava o Isabelle. Com esse nome poderia muito bem estar na Croissette, em Cannes, ou na Legian, em Bali, mas estava ali mesmo, em Rivas.

Isabele

Chegamos com a tradicional fome e, na entrada, já fomos recepcionados com sorrisos abertos e um cardápio simples mas sofisticado, numa combinação nem sempre compreensível por todos. Na entrada, pedimos ceviches de peixe, de caranguejo e de lagosta. Eram deliciosos, temperados com a acidez e a pimenta de quem sabe o que está fazendo. Como prato principal, opções como frango, mignon e arroz com camarão chegaram a balançar a turma, mas a lagosta mais uma vez acabou levando a melhor. Ali também nos deliciamos com uma das comidas mais tradicionais da Nicarágua, os Plátanos Fritos. Os caras cortam a banana em rodelas e fritam como se fosse aipim, ficando, inclusive, com a mesma consistência. Você come com uma mão no saleiro e a outra levantada para os céus, de tão bom. Voltamos no Isabelle ainda mais uma vez para repetir a sequência de ceviches, lagosta com plátanos e Toña, sempre pagando uma conta individual que mal se aproximava dos US$ 20,00

A Nicarágua

Depois de sete dias na Nicarágua, posso dizer que o surfe mais uma vez me levou a lugares que não iria se não fosse com ele. E de carona, as experiências gastronômicas únicas. A bola da vez foi um país no meio da América Central, cheio de locações para os filmes do Iñarratu, mas que esconde uma rica cultura dentro de sua cozinha. Um povo que cozinha feliz, variando sabores e temperos com a mesma ginga que a vida centro-americana impõe. Gosta de te atender e mostrar como é sua comida, seu jeito, seu país. Gente que encontra em turistas como nós não apenas uma fonte de renda que come e paga em dólar, mas pessoas que podem levar mundo afora uma boa lembrança desse país tão interessante e saboroso quanto sofrido.

 

 

bar_restaur_piscina

Fhabyo Matesick é jornalista de formação, publicitário por vocação e surfista por paixão. Diz que não sabe fritar um ovo, mas está evoluindo nas panelas: aprendeu a fazer macarrão na manteiga para alimentar as filhas!

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