O porco, a tropa e o movimento

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Lá nos tempos do século 18, existia um grupo de pessoas parecido com os tropeiros, que atravessavam estados levando um rebanho de animais. A diferença é que esses animais não eram gado. Nem mula. Não, o tal rebanho, caro leitor, era de… porcos! E, com muito carinho, nós chamamos os tropeiros de porcos de porcadeiros. Apesar de todo o nosso potencial criativo, não foi a Tutano que inventou esse termo. Ele apareceu primeiro num livro que, quando foi folheado por umas certas mentes talentosas, diferentonas e apaixonadas pela vibe da “cozinha de galera”, inspirou um movimento que resgata o jeito de ser e de viver daquela época. Porcadeiros, com P maiúsculo, é o nome próprio que essa txurma carrega no peito, junto com valores como amizade, solidariedade e humildade. Uma baita lição pra todos nós.

Um escritor, uma chef e um professor entram num bar. Tá, o ambiente pode até ser outro, mas os primeiros personagens desta história são exatamente estes: Arnoldo Monteiro Bach, Rosane Radecki e Marson Warpechowski. Tudo começou quando o Arnoldo percebeu que o nosso Paranazão tinha uma passagem que ninguém havia contado ainda: a dos tropeiros de porcos, homens que viajavam pra lá e pra cá com esses animais para vendê-los aos frigoríficos. Aí, sabe como é escritor: tratou de pesquisar e registrar em livro os costumes desses que ele chamou de “porcadeiros”, nome que virou o título da obra. Os porcadeiros, como você vai descobrir nas próximas páginas, tiveram um papel significativo para a economia da Região Sul. Eles movimentaram povoados e motivaram a expansão de comércios e até o surgimento de novas cidades! Enfim, dava pra fazer um texto inteiro só sobre isso, mas a história que vamos contar aqui é outra.

Nosso ponto de partida é 2016, ano em que os olhos brilhantes da chef Rosane, do restaurante Girassol, em Palmeira (PR), leram o livro do Arnoldo. Foi assim que ela, cujo nome do meio poderia ser “vambora!”, ficou sabendo da relação que o porco, produto que ela tanto valoriza, tem com a história do estado. Aí ela conheceu o Marson, que manja muito dos suínos e explicou sobre o seu trabalho voltado para a pesquisa e valorização da raça Moura, um porquinho “gente” fina, com qualidade comparável à dos europeus e que já tinha sido tão desvalorizado no Brasil que quase entrou em extinção. Aaah, mas não demorou muito pra ela começar a se coçar de tanta ideia que pipocou. Aí, assim, sabe quando as coisas se organizam ou, como dizem os mais holísticos, “o Universo conspira”? Foi assim mesmo. A chef juntou um colega daqui, um amigo dali e, juntos, organizaram um evento para divulgar a maravilha que é o porco Moura, ingrediente precioso que tá aqui, no quintal de casa. Mas as intenções eram maiores: valorização da história do Paraná e resgate dos costumes das famílias e trabalhadores que construíram o estado. Assim, com todo esse significado, nasceu a primeira edição do Porcadeiros, lá em Palmeira mesmo.

De título de evento, o nome passou a identificação da “tropa” formada por Rosane e seus companheiros: chefs, pesquisadores e demais profissionais ligados de alguma maneira à gastronomia. Juntos, eles promovem eventos que celebram a comunidade, a conexão entre as pessoas e, mais do que tudo, valorizam a relação do homem com o alimento. Um dos membros do Porcadeiros é o Rene Seifert, do Pão da Casa, que explica a vibe do movimento como ninguém. “O Porcadeiros vai além do porco, resgata a importância dos relacionamentos. Nós não temos um ponto de chegada, porque nosso objetivo é caminhar, caminhar juntos. Aí, claro, nessa caminhada nós precisamos comer, então cozinhamos, compartilhamos, servimos uns aos outros”. A lógica do Porcadeiros passa longe das formalidades. A relação central é a amizade, é aquele “algo mais” que a vida te traz quando você percebe que não está caminhando sozinho, sabe?

Agora, volta comigo lá pra onde tudo começou, na época dos porcadeiros originais. Em sua andança, o tropeiro encontrava o sol escaldante, o vento que desnorteava, a chuva gelada, os perigos da estrada. Sabe o que ele fazia? Caminhava. Sempre. E continuava a caminhar. Aí, de vez em quando, ele se sentava perto da fogueira, admirava o céu, se encantava com a beleza da natureza, apreciava a mudança das estações. Assim, ele reconhecia o seu tamanho e entendia que, à sua maneira, ele fazia parte do todo. Só isso já é uma grande lição, não é? Que a gente aprenda muito com os Porcadeiros.

Tá, mas o que tanto tem esse tal porco Moura?

Podemos começar comemorando a prata da casa, porque o porco Moura é bicho do Paraná. Mas não é só isso. A forma como ele é criado reflete o ideal de consumo no qual os integrantes do Porcadeiros acreditam: com respeito entre homem, animal, comida e as outras pessoas. Se considerarmos que os Porcadeiros formam um time, dá pra dizer que o porco Moura é o mascote. O movimento que resgata tanta história, tanta cultura, aproveitou também pra ajudar no resgate dessa raça, que quase entrou em extinção.

E qual é essa história de tropeiros e porcos?

Assim como aconteceu com o gado e as mulas, os porcos também eram uma mercadoria transportada de um estado a outro por meio de grandes travessias. 

Os porcadeiros paranaenses saíam de cidades como Francisco Beltrão, Palmas e Pato Branco e caminhavam cerca de 500 quilômetros até chegar a Jaguariaíva, onde ficava o frigorífico de Francesco Matarazzo.

E os tropeiros de hoje são…

 

São a tropa, ué! É com esse apelido que os membros do Porcadeiros se identificam. É que o movimento é mais do que a junção de vários ofícios. Eles têm habilidades diferentes, mas acreditam na mesma coisa: resgatar a história de quem veio antes de nós é algo prazeroso. Juntos, eles aprenderam sobre a importância de se conectar às pessoas e entenderam que a vida acontece o tempo todo, na caminhada, no tropear.

Rosane Radecki 

A chef do Restaurante Girassol já era conhecida pelo Pão no Bafo, prato que foi tombado como patrimônio cultural imaterial do município de Palmeira. Aqui, ela encabeça o movimento, organiza eventos e chama a tropa toda pra espalhar a palavra do Porcadeiros Brasil afora.

Rene e Vanessa Seifert

O casal que bota a mão na massa – de pão – e ensina coisas como manter a calma e respeitar o tempo das coisas, lições que valem na cozinha e na vida.

Marson Warpechowski 

Doutor em Zootecnia e Nutrição Animal, o professor da UFPR é o coordenador do Projeto de Pesquisa que resgata e estuda os suínos da raça Moura. 

Arnoldo Monteiro Bach

Escritor que foi a fundo na história dos tropeiros de porcos, escrevendo o livro “Porcadeiros”, lançado em 2009.

Flávia Rogoski

A Flávia sabe fazer uma mesa de antepastos como ninguém. A mestre queijeira é proprietária da loja Bon Vivant e manja dos queijos e embutidos.

Eva dos Santos 

Chef do Bar do Victor, a Eva está envolvida no resgate da história, costumes, ingredientes e, claro, dos pratos que os integrantes do Porcadeiros apresentam.

Aloisio Selhorst

O artesão cuteleiro sabe forjar a faca certa para cada necessidade, o tipo de trabalho que teria ficado pra trás se não fosse a atuação de gente como ele.

Rodrigo Bellora

Você já conhece o chef do Vale Rústico de outras páginas desta edição da Tutano. Com sua criação de porco Moura (que ele chama de Gris) lá para os lados dos pampas, ele levou a turma do Porcadeiros para se aventurar em terras gaúchas.

Carolina Ueberbacker

A Carol é responsável por uniformizar a tropa inteira com os aventais da Papipano, feitos com tecidos naturais. Suas peças artesanais atendem às necessidades de quem passa o dia cozinhando.

NO FIM DA$ CONTA$

Qual é o impacto financeiro de movimentos como o Porcadeiros?

Porcadeiros

Indústria

Além do porco

O movimento Porcadeiros resgata uma história e costumes que vão ao encontro dos padrões de produção e consumo escolhidos pela maioria das pessoas. A produção é um “modo de fazer” que pode ser aplicado a vários “ingredientes”.

QUEIJO

Feito a partir do leite cru, tem mais aroma e sabor que aquele queijo que você sempre encontra nas prateleiras de grandes supermercados. 

CUTELARIA

Arte de fabricar instrumentos de corte, como as facas, bffs dos chefs e dos amantes da gastronomia.

PÃES

Na fabricação artesanal pode mudar a farinha, o fermento, o tipo de forno. Só não muda o respeito por um dos alimentos mais importantes no Brasil e no mundo.

AVENTAIS

Esquece aquele avental “simprinho” com estampa que se apaga em duas lavadas. Estamos falando daquele parceiro de trabalho que te acompanha por anos e, no fim, você olha pra ele e fala “quanta história pra contar…”.  

 

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