O X-salada da Questão

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Foto: Zonta Snooker Bar e Lanchonete

Sou uma pessoa de hábitos simples que gosta de coisas boas. Isso resume e explica muitas coisas, mas a principal delas é uma das minhas teorias: nem sempre o que é bom, ou muito bom, ou até extraordinário, é o mais caro, o mais fino, o mais descolado. Aliás, descolado é se descolar. É dar-se ao trabalho de ir à contramão do que vem sendo estabelecido. Para tanto, é preciso disposição para fuçar, explorar lugares e serviços.

Não foi por acaso, então, que decidimos naquele momento esfomeado, enquanto minhas lombrigas se golpeavam mútua e violentamente, que minha primeira coluna versaria sobre “x-salada”.

Há quase duas semanas eu vinha saindo de um desses cursos que terminam quase 10 da noite. Era bem a hora da minha fome. Perguntei ao meu amigo – colega nesse curso – onde poderíamos comer um x-salada bacana em Curitiba, àquela hora. Ele pensou um pouco e relacionou um ou dois lugares onde eu encontraria bons burgers. Esclareci que eu queria um x-salada de verdade, daqueles “com gosto de infância” e, ainda, não queria gastar demais nesse lanche. Ele perguntou se seria um daqueles “com alface crespa” e eu confirmei – meu casal de lombrigas se digladiando dentro da minha barriga. Embora eu tenha percebido que ele havia entendido perfeitamente o que eu queria, meu amigo não tinha ideia de onde eu poderia encontrar tal “especiaria” àquela hora na capital paranaense.

O nome do amigo em questão é Beto Madalosso e ele havia acabado de me fazer o convite para assinar uma coluna neste portal, Tutano Gastronomia. Não foi por acaso, então, que decidimos naquele momento esfomeado, enquanto minhas lombrigas se golpeavam mútua e violentamente, que minha primeira coluna versaria sobre “x-salada”. Mas não qualquer x-salada. Tinha que ter gosto daqueles “X” de infância. Não poderia ter sofrido o impacto do que hoje se chama de raio gourmetizador, não custaria mais do que R$9,50 e, sim, tinha que levar alface crespa ou os meus dias na Tutano estariam contados antes até de eu começar. Finalmente, houve um pedido especial do Beto: “Bicho, não vai incluir “x-salada que possa dar azia ao leitor da Tutano.” Me dediquei a atender cada aspecto.

A partir daí, contem-se seis dias de garimpo até eu comer o sétimo x-salada para a coluna da Tutano. Isso porque houve o dia quando almocei e jantei o lanche, tamanho meu apego ao ofício. Veja bem, garimpar x-salada não é o mesmo que garimpar petiscos, por exemplo. Petiscos, por maior que seja a porção, você pode pedir uma reduzida, apenas para degustação. Se não for possível, há sempre a alternativa de se comer a porção parcialmente e seguir para os próximos três ou quatro petiscos da sequência. Quanto ao x-salada, não dava para pedir um menor para degustação. Os chapeiros iriam me correr dos lugares. Embora seja o pai-hospedeiro de duas saudáveis lombrigas em constante desenvolvimento, e que elas vivam nesse estado de eterno apetite severo, sou um homem de estatura normal para um brasileiro do sul, com peso proporcional. Sendo assim, um x-salada sozinho me alimenta por pelo menos seis horas. Se a carne for maior, sou capaz de passar com ele por 12 longas horas. Agora você pode entender porque levei seis dias para comer os sete lanches e, tenho certeza, entenderá que todos vieram harmonizados de refrigerante ou chá. Nunca, porém, pedi que batatas fritas acompanhassem, uma vez que quem manda nas lombrigas ainda sou eu.

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André Bezerra é diretor da Monstro Animal, produtora de eventos. Quer seguir? @andrbezerra

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