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Uma visita a Cuba e o melhor para comer

27 de junho de 2016

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A jornalista Giovana Ruaro e seu marido, o fotógrafo Daniel Lane, visitaram Cuba e descobriram o melhor da nova cozinha cubana

“Temos que ir antes que tudo mude”, eu e meu marido dissemos um ao outro. Se os noticiários estavam certos, Cuba estava prestes a ter sua maior transformação desde a Revolução Cubana. O embargo americano ia acabar logo e tínhamos que aproveitar a última oportunidade de conhecer uma Cuba autêntica, antes da invasão turística e capitalista.

Desde que o irmão de Fidel, Raúl Castro, assumiu o poder, em 2008, ele começou a introduzir aos poucos novas políticas de abertura do comércio particular em Cuba, incluindo mais paladares. A restrição de produtos de luxo – como lagosta, camarão e ostras – foi abolida e finalmente cubanos podiam cozinhar o que tinham no jardim de casa. Os cubanos, um povo extremamente criativo e alegre, começaram a experimentar novas receitas. Nasceu então a nova cozinha cubana.

Chegamos em Havana e logo de cara tive minha primeira grande surpresa. No centro histórico, chamado de Habana Vieja, tem um paladar a cada esquina. É incrível! Cada um com seu estilo de comida diferente, a maioria com preços acessíveis e comandados por uma família.

Havana

A grande atração gastronômica de Havana é o paladar La Guarida. É também o mais famoso internacionalmente por ter sido cenário do filme “Morango e Chocolate”, indicado ao Oscar em 1994. Fizemos a reserva com um dia de antecedência, pois é impossível conseguir mesa sem reservar antes. O paladar fica em uma antiga casa de barões de café do século 19, transformada em cortiço e com várias famílias morando em cada andar.

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Subindo as escadas de mármore, você pode ver cada família assistindo novela ou cozinhando. Quando fui em 2004, o paladar era pequeno, com apenas uma sala. Hoje ocupa quase todo o andar. Enquanto esperávamos pela nossa mesa na sacada (melhor lugar da casa), tomamos uma marguerita com Lily Cole e vimos o Burt de Mad Men reclamando que não tinha uma mesa pra ele. Em Havana, ninguém dá bola para celebridades.

A comida da La Guarida é a melhor da nueva cocina. Entre os pratos de destaque estão a lasanha de mamão, bonito com cana-de-açúcar e a lagosta com molho de limão. Terminamos a noite com uma torta de chocolate maravilhosa. Os daiquiris são perfeitos para esticar a visita por mais uma hora e aproveitar a vista de La Habana à noite.

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O prato típico cubano é chamado ropa vieja. É tipo um barreado com molho de tomate, servido com moros y cristianos (arroz e feijão) e plátano frito. O paladar Hanoi (que de asiático só tinha o nome) serve generosas porções por meros US$ 3 e você pode acompanhar o campeonato de beisebol enquanto come. Nada mais cubano. Para beber, uma cerveja bem gelada ou suco natural. Em Cuba, eles não são muito fãs de refrigerante. Até tem a Ku-Cola (versão comunista da Coca-Cola), mas não é grande coisa.

Os melhores achados são por indicação de amigos, viajantes que você esbarra na viagem ou os donos das casas particulares. Também gostamos muito da 5Esquinas Trattoria (massas com charme local, como o molho delicioso de caranguejo), o Café Laurent e o paladar La Mulata del Sabor.

O prato típico cubano é chamado ropa vieja.

Casas Particulares

Em Cuba, existem duas opções de estadia: hotéis, normalmente resorts ou redes internacionais, ou casas particulares, quartos dentro de casas de famílias cubanas. Como resort tem no mundo inteiro, resolvemos ficar somente em casas de cubanos. Além de ter um contato mais perto com o dia a dia deles, há uma outra grande vantagem de ficar em casas particulares: a comida caseira.

Todas as casas oferecem refeições à parte, normalmente são a especialidade da casa. Peixe, frango e legumes são os pratos mais populares, mas nós também comemos crocodilo, camarão e variações de malanga, o aipim deles.

Duas casas particulares foram o destaque da viagem em comida caseira: a Casa Colonial El Patio, em Trinidad, preparou um jantar especial de aniversário para meu marido no topo do terraço com peixe, camarão, bolinhos de malanga, bolo de chocolate e uma vista de tirar o fôlego. Além de tudo, Manuel, dono da casa, faz as melhores piñas coladas do mundo. O pátio interno tem duas mangueiras que tinham milhares de mangas penduradas. Um lugar incrível.

A outra foi a Casa da Danay, em Playa Larga, ao lado da Baía dos Porcos. A casa fica em frente ao mar e a cozinheira preparou crocodilo com molho de alho e limão para mim, pescado do dia com ervas para meu marido. Muitos mojitos acompanharam o pôr do sol na praia.

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Café da Manhã

Os donos das casas particulares sempre achavam que nós íamos tomar café da manhã em casa. O preço é à parte, normalmente US$ 5 por pessoa. Nós achamos meio caro pela oferta – normalmente tinha ovo, pão, geleia, um bolinho e frutas. Depois de nos acostumarmos com o estilo cubano, resolvemos explorar as opções de café da manhã que os locais tomam: as cafeterias.

As cafeterias são, na verdade, uma porta ou janela da casa de alguém com o menu do dia pendurado e vários potinhos com as ofertas do dia. Em Cuba, você só pode comprar com peso cubano, que na época era 25 para cada dólar. O cafezinho custa um peso cubano. Tem pão francês com requeijão cremoso, goiabada, geleias caseiras, tortas, biscoitinho doce, frutas e o que a dona da casa gostar de fazer. Cada cafeteria é diferente, mas os sucos sempre são frescos e deliciosos. Goiaba e manga eram sempre os nossos favoritos.

Com apenas um dólar, dá pra fazer a festa. Tomávamos café da manhã e levávamos doces de amendoim, biscoito salgado, frutas em compota e outras receitas caseiras para o piquenique da tarde. Além de tudo, você podia conversar com famílias que paravam na mesma cafeteria antes de ir para o trabalho e pegar mais dicas de lugares para comer e visitar. Melhor que qualquer dica do TripAdvisor.

Éramos os únicos turistas que comiam em cafeterias. Os outros, por receio ou falta de informação, preferiam ficar com a opção mais fácil das casas ou hotéis. Para nós, as cafeterias eram a melhor parte do dia. Saíamos das casas cedinho, antes das oito da manhã, e ficávamos caminhando pela região até achar uma. Ou duas. Ou até não aguentarmos comer mais.

Hotéis

Na nossa viagem de três semanas, ficamos apenas em dois hotéis, o Maria La Gorda, na ponta oeste da ilha, e o Colony, na Ilha da Juventude. Ambos eram do governo e não faziam parte de redes. Tivemos que ficar porque eram a única opção em lugares tão isolados do mundo. Descobrimos esses lugares porque eram paraísos de mergulhadores no meio de reservas naturais.

A comida do Maria La Gorda era correta. Já a do Colony… apelidamos de “estilo soviético tropical”. Era ruim demais. Como não havia nenhuma vila, casa ou cafeteria num raio de 50 quilômetros, tínhamos que comer lá mesmo.

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Quando estávamos no Colony, descobrimos que os barqueiros que nos levavam para mergulhar na Ponta do Francês também cozinhavam. Por meros US$ 8, fizeram a melhor e maior lagosta que eu já comi. Era do tamanho de um frango assado. O capitão pescou enquanto mergulhávamos e estava prontinha, acompanhada de arroz e legumes, quando saímos do mar. Tinha que comer com a mão, rasgando pedaços suculentos de carne e, heresia, não consegui terminar, de tão grande que era. Os restos voltaram para o mar.

Dizem que um dos motivos pelos quais Cuba tem a maior concentração de pessoas com mais de cem anos do mundo é a sua comida sem conservantes. Depois de passar três semanas só comendo comidas naturais, orgânicas e sem nada industrializado, eu me senti mais saudável. Quando foi a última vez que você ficou três semanas sem comer nada do supermercado? Uma experiência única.

A criatividade dos cubanos vem também da necessidade. Enquanto estávamos lá, não havia manteiga ou queijo para vender. O barco que ia trazer esse carregamento foi banido pelo embargo e o país inteiro teve que se virar com o que tinha armazenado.

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Um rapaz de uns 20 anos que nos atendeu na cafeteria dele em Habana Vieja disse que assim que o embargo acabasse, ele queria abrir o próprio café e servir panquecas com receitas da mãe. Outra moça de uma casa particular disse que só estava esperando as mudanças para abrir uma pousada e restaurante em Playa Larga. A invasão americana vai trazer muitas coisas boas e ruins também. Um pouco da autenticidade do país vai infelizmente se perder. Para quem quiser aproveitar Cuba antes de tudo mudar, ainda dá tempo e vale muito a pena.

Giovana Ruaro Lane é jornalista e trabalha com estratégia digital em Londres. Sócia do marido na Pacote (pacote.co), adora viajar e explorar o mundo.

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COMENTÁRIOS
  • Matéria incrível, deu vontade de viajar!!!

  • Muito bom, deu fome e vontade de ir pra Cuba