Onde tomar caldo de cana em Curitiba, por André Bezerra

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Caldo de Cana Strapasson. Foto: André Bezerra

Está na Wikipedia: “o caldo de cana ou garapa é o líquido extraído da cana-de-açucar durante o processo de moagem.” O caldo de cana conserva todos os nutrientes da cana, a maioria deles necessários para o funcionamento normal do corpo. Ele é rico em cálcio, potássio, ferro, magnésio e fósforo. Mais estudos têm mostrado que o caldo de cana pode ajudar a recuperar a perda de vitaminas, além de ser composto também por antioxidantes. Ele é matéria-prima na fabricação do açúcar, do etanol e de bebidas alcoólicas como a cachaça e o rum.

Mas foi em busca do caldo de um tipo específico de cana que a Tutano saiu. Algumas espécies de cana são a caiana e as java, sendo que existem a java roxa e a amarela. Pelo que levantamos, a caiana e a java roxa são mais doces, porém sua fibra é mole, podendo embolar facilmente. A java amarela tem a fibra mais dura, ideal para a bebida que queríamos encontrar: a Garapa ou, para a maioria dos apreciadores de Curitiba, simplesmente caldo de cana. Nosso objetivo era descobrir as histórias por trás dos carros ou barraquinhas de alguns caldeiros pela cidade. Descobrimos que esses profissionais são mais doces no trato até do que o próprio refresco que servem.

Garapa do Dudu

Calma, o Dudu Sperandio não abriu uma barraquinha de caldo de cana. Na barraca de garapa da Praça Osório, o Dudu em questão é o Emerson. Ex-professor de artes marciais, ele assumiu a barraca do pai dele, o Lourival “Gaúcho”, que começou a vender caldo de cana há 42 anos nos campos do Coxa e do Atlético. O Dudu assumiu o negócio do pai há 26 anos junto com a irmã, Ana Carolina. O ponto fixo atualmente é a barraquinha na Osório, onde vendem o caldo nos sabores natural, limão e abacaxi. Tem de 300 e 500 ml, a R$ 5 e R$ 7 . Bem gelado e o choro é praticamente outro copo inteiro.

Uma boa dica é aproveitar para pegar um pastel na barraca vizinha, Pastel da Gina. A Ana Carolina também comanda a Pastelaria da Carol, na Alfredo Bufren, ao lado da UFPR. O Dudu contou para a Tutano que ela deve começar a servir caldo de cana na pastelaria a partir do ano que vem.

Caldo de Cana Strapasson

Indo pela avenida Nossa Senhora da Luz tem uma concessionária Toyota, alguns metros depois do cruzamento com a Augusto Stresser, no sentido Bacacheri. Nesta altura você verá a placa indicando que o caldo de cana está dobrando a rua à direita, bem diante da concessionária. Seguindo as indicações das placas ou do GPS, você chegará na Praça Eisenhower. Ali estará o micro-ônibus do Caldo de Cana Strapasson, do Dirceu Strapasson. De cara perguntamos qual era o parentesco dele com a família da Chácara Strapasson. “Sou primo-irmão. Eles foram pro hortifrúti, eu vim pra cana.” – respondeu esse simpático caldeiro. A primeira coisa que chama atenção no micro-ônibus é o cuidado com a higiene. O Seu Dirceu começou no negócio de cana há 17 anos, como complemento para a aposentadoria como representante de frigorífico. Hoje, o filho Everton trabalha junto com o pai. Além do ponto na praça, eles também são convidados para irem a eventos corporativos, shows e festas. O rendimento ajuda a sustentar duas famílias, uma vez que o Everton é casado e pai da pequena Rafaela, de dois anos e meio, fã do caldo de cana do pai e do avô.

Sabores limão ou natural, vem em copos de 300 ou 400 ml, a R$ 4,50 e R$ 5. Também é possível pedir para levar. A garrafa de 500 sai a R$ 6 e de 1 litro a R$ 12. “Sou o único caldeiro que atende na tríplice fronteira: Jardim Social, Hugo Lange e Bacacheri.” – divertiu-se o Seu Dirceu enquanto derramava o terceiro choro no nosso copo e no da Rafaela. Se você mora ou transita pela região dos três bairros, Alto da Glória, Juvevê, Cabral e Alto da XV, uma boa dica é levar as crianças para brincarem na ampla praça com play.

Caldo de Cana Praça das Nações

Quem circula pela região da Nossa Senhora da Luz, já na altura do viaduto sobre a Vitor Ferreira do Amaral, sabe que ali tem uma pequena praça com a famosa Caixa D´água. É justamente onde estaciona o pequeno caminhão do senhor Célio Sturião e da esposa dele, dona Elídia. A comunicação gráfica lê desde 1972. É que o cunhado do Célio manteve o negócio por 21 anos. Há 25 o Célio se aposentou dos Correios e assumiu. Com este complemento de aposentadoria ele formou as duas filhas, Josiane e Elisiane, em pedagogia e enfermaria, respectivamente, ambas em faculdades particulares. Ele tem curso de manuseio de alimentos e uma preocupação visível com a higiene. Descobrimos que já fez bicos como garçom no Madalosso, por mais de dois anos. “A Dona Flora me pagava um pouco mais porque eu era o profissional que menos quebrava louça” – contou-nos ele, orgulhoso.

Interessados pela alta frequência de crianças pequenas com os pais, saindo da escola, o Célio se recordou: “Sempre foi assim. Aqui já atendi muito o José Richa, que trazia o Beto e o Pépe ainda pequenos (…) a Grazi Massafera veio gravar em Curitiba e tomava caldo de cana diariamente conosco (…) a novela Sonho Meu teve dois capítulos gravados aqui.”

O carisma do casal é inegável. Reparamos que um outro casal passou com duas crianças. Ao serem interpelados se gostariam do caldo, responderam que estavam desprevenidos. “Pague outra hora, não deixem os meninos com vontade”, ofereceu a Dona Elídia. Tem nos sabores natural, limão e abacaxi. Copos de 300 e 500 ml a R$ 5 e R$ 6. Garrafas de 500 ml e 1 litro a R$ 7 e R$ 13. Uma boa dica é ir namorar ou levar as crianças ao play no final da tarde e tomar o caldo assistindo um dos mais belos pôr do sol de Curitiba.

Caldo de Cana Fonte de Jeová – “João”

Antes de comprar a máquina de moer cana e a Kombi, o João Marcelino Ferreira fez muita coisa. Dentre elas, foi metalúrgico e tocou cuíca na noite, com a banda de pagode Samba 7. Caldeiro há 25 anos no mesmo ponto – BR 277 ao lado da Havan do Parque Barigui – com esse incremento de aposentadoria criou dois casais de filhos. “E tenho 5 netos” – orgulha-se ele enquanto derrama um “choro” de garapa de maracujá que vale por mais um copo de 500ml. “Minha caçula estudou enfermagem na Evangélica e pagamos a faculdade dela com a renda da garapa. Hoje ela é policial e atende no hospital da PM.” – contou este simpático profissional de Nova Fátima, norte pioneiro do Paraná, para a Tutano.

Caldo de cana natural, com limão, abacaxi, maracujá, gengibre “ou a fruta que o freguês trouxer da feira ou de casa, fazemos também”. Excelente papo, foi o João quem nos explicou tudo sobre os tipos de cana e as benesses decorrentes do bom atendimento ao cliente. Ele faz tantas amizades que um casal de alemães chegou a propor que ele fosse junto para montar o negócio na Alemanha. Tem de 300, 400 e 500ml, a R$ 5, R$ 6 e R$ 7. Muito próximo do Parque Barigui, pela BR, a ciclovia passa bem diante da Kombi e da barraquinha, portanto a melhor dica é chegar ali de bicicleta e se refrescar com um dos melhores caldos de cana da cidade.

Horários de atendimento:

A Garapa do Dudu respeita os horários da Feirinha da Praça Osório: 2ª a sábado, 10h às 21h. Domingos, das 14h às 19h30.

Os demais atendem diariamente, das 13h até o pôr do sol, exceto quando chove.

Pagamento: tenha sempre dinheiro vivo em mãos para tomar seu caldo de cana. Alguns aceitam cartão de débito, mas não é a regra.

rodape_andreAndré Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra

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