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PaniPano: justo para quem produz e para quem consome

27 de setembro de 2018

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A PaniPano é a prova de que é possível sim ser uma boa marca valorizando seus profissionais

A gente tá acostumado com o mundo andando pra trás. Toda a glória do topete do William Bonner deu lugar a um exaustivo revirar de olhos às 20 horas, antes da novela. “Tá, manda logo, quais as notícias ruins do dia?”. Notícias. Ruins. Sempre no plural. E quando surge alguém que relembra o que deveria ser a ordem natural das coisas, como a Carolina Ueberbacker, criadora da PaniPano, nos surpreendemos. Com seus tecidos naturais, ela faz aventais e produtos para pães de fermentação natural. Peças que são um manifesto pelo retorno do que muita gente já esqueceu: ser correto em seu trabalho e respeitar quem é impactado por ele.

Foi em 2014 que surgiu a ideia. Ao fazer um curso de panificação artesanal com o Rene Seifert, na Pão da Casa, a Carol se encantou pelos panos usados pelo mestre para modelar a massa, para forrar, pelas cestas e descobriu que todos esses acessórios não eram encontrados no Brasil, todos foram comprados no exterior. Ela, que já era designer e costureira, começou a fazer seus próprios produtos.

“Comecei fazendo para mim, sempre gostei de gerenciamento de resíduos, então fazia saquinhos de pão para evitar o uso do plástico e do papel. Mostrei para o Rene e ele falou que era um produto que eu podia vender. Mostrava em cursos da Pão da Casa e as pessoas começaram a se interessar pelo meu trabalho”, explica a Carol, toda saudosa, como uma mãe quando lembra da primeira cartinha que recebeu do filho.

Mas os pães não eram os únicos que mereciam sentir em suas cascas as fibras dos tecidos da PaniPano. Chefs, que exalam romantismo por conta da profissão sedutora, mas que, na verdade, transpiram — e muito — nas cozinhas cheias de panelas ferventes, também mereciam vestir peças que melhorassem sua qualidade de vida no trabalho. Como a Carol já havia feito um curso de auxiliar de cozinha, passou a produzir aventais pensados para profissionais que passariam o dia inteiro cozinhando, com alças largas, cruzadas nas costas para não pesar na nuca, que não propagassem fogo e com tecidos naturais, nada sintético. Uma peça que tivesse vida, fosse bonita e que inspirasse.

“A cozinha se mostrou para mim um ambiente muito bruto, cansativo, quente. Ficar com avental de tecido sintético numa cozinha é um sofrimento, ele não transpira. É como ficar com uma jaqueta de nylon numa sauna. Experimenta pra ver”. Os aventais da PaniPano são personalizados. Você sinaliza o que precisa e a Carol desenha de acordo com o que deseja. Depois de pronto e entregue, os retalhos de tecidos do avental são doados para uma ONG que utiliza esses resíduos em artesanato.

Mas é importante deixar claro que a Carol não faz tudo sozinha — exigência dela deixar isso documentado. Quem está por trás da produção de aventais da PaniPano é a dona Rosa, a dona Gertrudes e a dona Dolores. Mulheres para as quais a grande indústria insiste em dizer sonoros “nãos”, senhoras que possuem histórias e talentos que muita gente já não presta atenção.

Todas as mulheres que trabalham na PaniPano têm jornadas parecidas, em situação de não empregabilidade, como a dona Rosa, a artista responsável pelo avental distribuído no Fórum Tutano Gastronomia. Agricultora de São João do Triunfo, ela se mudou para Campo Largo depois que seu companheiro faleceu. Embora tudo parecesse nebuloso depois do acontecido e pelo seu único ofício durante a vida ter sido o cuidado da terra, dona Rosa fez um curso de costura em que encontrou uma nova profissão.

“A dona Rosa é uma pessoa maravilhosa! Ela costura com alegria. Se eu ganhasse um real a cada ‘Deus te abençoe’ que escuto dela, eu tava rica”, conta Carol.

São essas mulheres que fazem a PaniPano. E a Carol faz questão de gritar ao mundo seus nomes, para que todos possam conhecê-las e valorizá-las, não apenas com um tapinha nas costas, mas com algo que as faça pagar as contas no fim do mês.

“Essas costureiras ganham cerca de R$3,50 por camiseta que fazem para a grande indústrias, peças que são vendidas por R$100. É absurdo! Por isso na PaniPano pagamos mais do que isso para elas. Uma vez, uma senhora não quis trabalhar com a gente porque achou que era mentira o quanto eu disse que seria pago, que era uma pegadinha. É tão enraizada, tão profunda essa desvalorização que ela mesma não se sentiu confortável em receber tudo aquilo”, lamenta.

Valorizar mão de obra, utilizar produtos naturais, atentar para excesso de resíduos não é uma onda de jovens universitários idealistas. É acordar a nossa humanidade e entender que a gente não vive sozinho no mundo. Se ser responsável é algo da moda, que mal estamos — afinal, moda passa. Que bom que existem algumas Carols espalhadas por aí para nos lembrar de que dá sim para ser correto.

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COMENTÁRIOS
  • Gostei muito da matéria. Ela mostra que a criatividade e a seriedade são o motor do empreendedorismo. A matéria mostra também a qualidade da linha editorial da Tutano Gastronomia. Parabéns à PaniPano, parabéns à equipe da Tutano Gastronomia.