Press Trip com Manu Buffara

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Rosane Radecki, Manu Buffara, Flávia Rogoski, Cláudia Krauspenhar e Julia Loyola. Foto: Bruna Junskowski

Esse fim de semana fizemos uma press trip com a chef Manu Buffara. A gente tem que confessar que deu um pouquinho de ansiedade. Sabe quando você tá prestes a conhecer o seu ídolo de quando era adolescente, tipo um Menudo, e fica inseguro se tá vestido bem o bastante, se é capaz de falar quando ver o tal? Foi isso que sentimos. Mas no domingo às 18h, quando a viagem, infelizmente, acabou, percebemos o quão felizes estávamos por ter participado daquilo e o quanto tínhamos razão em ter como heroína a Manu.

Desde que a nossa Mulher Maravilha Maringaense teve o seu restaurante, o Manu, premiado pelo Latin America’s 50 Best Restaurants na categoria One to Watch – a primeira vez em que um restaurante do sul é contemplado – ela decidiu pegar para si a responsabilidade de atrair os olhos do mundo para o estado. Foi daí que surgiu a ideia da press trip. Mostrou pra geral que aqui também tem alta gastronomia e chefs talentosos. A diferença? União entre os profissionais, produção consciente e respeito às tradições.

Viajamos com a Manu e cinco convidados: o João Grinspum Ferraz, mestre em ciências políticas e idealizador da Casa do Carbonara (um blog com informações sobre gastronomia, que ajudou a Manu a selecionar os profissionais para a viagem); o Paolo Vizzari, italiano que escreve sobre gastronomia desde os 15 anos e que se mostrou um excelente cortador de palmito; o Andrea de Rosa, também italiano, jogador de poker e viajante em busca de boa comida; a Kaja Sajovic, eslovena e editora da seção de comida, vinhos e viagens da TV Nacional Eslovena; e a Sana Cherukuri estadunidense que compartilha seu amor e conhecimentos sobre comidas e bebidas com a Journey, um serviço de planejamento de viagens personalizado.

14 de dezembro, Dia 1

O roteiro incluiu não apenas visitas a restaurantes, mas também aos produtores de quem a Manu busca seus ingredientes. Depois de um almoço no Restaurante Victor, feito pela personificação do alto astral, a chef Eva dos Santos, visitamos uma fazenda de abelhas nativas sem ferrão, do seu Benedito e da dona Salete, em Mandirituba, onde os dois fazem um trabalho de resgate dessas espécies, algumas delas em processo de extinção.

Sentar numa mesa com um garfo na mão pra comer um prato de nome difícil, fazendo pose de viajante executivo, qualquer um faz – inclusive nós, somos pós-graduados nisso. Mas para chegar até a mesa, tem muita coisa que acontece e só contar, às vezes, não é suficiente.

Por isso a Manu carregou toda a gringarada até o meio do mato pra provar o mel de cada espécie de abelha e ver de perto o casal que se dedica àquela causa ambiental todo dia até 21h. É de bater palma em pé para o que eles fazem!

Encerramos o dia em um jantar no Vin Bistrô, da chef Cláudia Krauspenhar. Só na entrada, cinco tipos diferentes de ostras para o pessoal experimentar, cada uma de um produtor diferente.

“Mas por que jantar num concorrente?”, diriam alguns. A verdade é que essa foi uma das coisas mais bonitas da viagem: a união entre os chefs. A Cláudia, assim como a Rosane Radecki, a Gabi Carvalho, a Eva e a Flávia Rogoski, ajudaram a Manu desde o início a planejar a viagem. Ao contrário do que a gente pensa, que os chefs de cozinha vivem se matando e competindo por clientes, todas elas formaram uma Liga da Justiça em prol da valorização de tudo que é daqui.

15 de dezembro, Dia 2

No sábado, lá no Tatuquara, os gringos sentiram na pele, literalmente, o que dizia Bola de Fogo: “o calor tá de matar”. Num sol que nem parecia curitibano, visitamos uma horta urbana feita por 100 famílias que produzem alimentos orgânicos. Essa horta é coordenada pelo presidente da Associação de Moradores da Comunidade, o Moretti, de quem a Manu é parceira. Todos os alimentos ali produzidos são destinados para consumo próprio das famílias, o excedente é vendido ou doado. É dali que a Manu e vários outros chefs da cidade tiram os vegetais para o menu do seu restaurante.

Sabe aquela mania que a gente tem de achar que a comida vem de supermercado? As marcas de camiseta no braço por causa do sol mudaram essa impressão. Ver a Manu, que já trabalhou em restaurantes super finos na Europa e é responsável por um dos melhores da cidade, com chapéu de palha na cabeça, colhendo cebola numa comunidade periférica (que muito curitibóca entorta a cara quando ouve a palavra) foi uma lição bem forte sobre respeito ao que a gente coloca pra dentro do prato.

Depois de queimar o couro no Tatuquara, fomos até Palmeira, almoçar no Restaurante Girassol, da Rosane Radecki, a Rainha do Gado do Paraná (créditos a esse apelido para a Cláudia Krauspenhar, maior chef noveleira deste país). De bombacha, faca na bota echapéu, enquanto assava um porco Moura desde madrugada, a Rosane recebeu todo mundo como uma legítima fazendeira, junto com todo mundo que faz parte do projeto Porcadeiros, com mesa perto de uma árvore, um gaiteiro para fazer a trilha sonora, correndo pra cima e pra baixo conferindo se estava tudo em ordem e copo de cerveja Anarquista na mão (receita dela e de seu filho, produzida pela Usina Malte). O almoço também teve a Flávia Rogolski, que deu uma aula sobre o seu trabalho com queijos artesanais, a Vanessa e o Rene Seifert sobre o Pão da Casa, a Gabi Carvalho sobre o Quintana Gastronomia, e o Beto Madalosso contando sobre a Tutano, a Forneria Copacabana e o Madalosso.

Já no fim da tarde, a Rosane ainda ensinou o pessoal a fazer doce de leite à moda paranaense, do jeitinho que era feito antigamente, com erva mate e brasa! Esse foi o dia mais longo da viagem, mas também um dos mais significativos, por ter reunido tanta gente para contar das suas experiências, seja como chef ou empresário paranaense.

De volta a Curitiba, uma visita ao Madalosso, guiada pelo chefinho Beto Madalosso – que arrebentou fazendo piada em inglês -, levou a galera da press trip até as partes mais secretas do restaurante. Foi lindo ver a expressão de susto do Andrea quando se deu conta do tamanho do Madalosso e da quantidade de frango frito feito por dia!

Então, finalmente, aconteceu: jantar no Restaurante Manu. Todas as pessoas que foram conhecidas durante os dois dias de viagem estavam naquele menu. O Benedito, a Salete, o Moretti e as 100 famílias da horta urbana do Tatuquara. Suas histórias estavam em cada prato que a chef apresentou. Podemos dizer, porque estávamos lá, que cada um dos 5 convidados se emocionaram em ver a tradução de histórias em gastronomia.

16 de dezembro, Dia 3

Acordar às 7h num domingo pra trabalhar é foda, hein. Só que aí você lembra de quem vai encontrar, do que vai fazer e do porquê. O sono te abandona em dois segundos. Fomos para Morretes, conhecer o Sítio Tubuna, que produz alimentos orgânicos em meio a Mata Atlântica. Lá fomos recebidos pelo Rafael Cabreira, responsável pelo sítio, um cara com tantos ideais que deveria ser ouvido por mais gente.

Durante a visita, o Rafa colocou os gringos pra colher e descascar mandioca (não permitirem a piada do “Eu to saudando a mandioca, com o milho”, o Beto fez ela o tempo) e cortar pupunha. Tudo que eles colheram foi feito no almoço, preparado pela equipe do Restaurante Manu.

Enquanto isso, foi todo mundo pra cachoeira. Teve Beto Madalosso passando vergonha com uma sunga feia, teve a Flávia dando mergulho de sereia, cachorros pulando na água e muito mosquito com fome de sangue de gringo. Foi uma experiência linda, em todos os sentidos que a palavra pode abranger.

Acabou?

Confessamos que foi difícil dar tchau pra cada um que viajou com a gente. É aquele sentimento de apego, sabe, vontade de guardar o Paolo, o Andrea, a Kaja e a Sana no potinho pra por na estante e poder olhar sempre que der. Vontade de comer a comida da Manu todo dia, de refletir sobre a comida não só como alimento pro corpo, mas como um posicionamento político.

Foram três dias em que vimos o que há de melhor no Paraná, foi um curso intensivo sobre trabalhar junto em prol de algo. À Manu Buffara, deixamos um obrigado cheio de sentimento por ter nos proporcionado uma das melhores coberturas jornalísticas que já fizemos. Você é pura inspiração, como chef e como mulher.

 

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2 COMENTÁRIOS

  1. Muito legal isso tudo. Muito legal essa gente boa tudo junto. Realmente levanta a moral acompanhar histórias como essa. Parabéns pelo texto e pelo “causo”. inspirador!

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