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Restaurantes tradicionais de Curitiba

10 de maio de 2016

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São muitos os estabelecimentos que permanecem fiéis às origens. O segredo, garantem alguns dos proprietários, é manter aquela clientela amiga sempre feliz

Não basta o bom atendimento, a comida bem feita ou a bebida gelada. A presença do dono é fundamental: dia a dia, olho no olho. Profissionalizar, sim, deixar que tomem conta por você, jamais. Esse seria um bom lema para os cinquentões, sessentões e até centenários no ramo. Conheça um pouco da história de restaurantes que ocupam um cantinho especial no coração dos curitibanos.

Madalosso, o cinquentão – Fundação: 1963

Mesa Farta do Restaurante MadalossoAno de 1963. Para a música, o ano em que os quatro garotos de Liverpool entraram pela primeira vez no lendário Abbey Road Studios. Para a política, o ano em que o reverendo e ativista norte-americano Martin Luther King entrou para a história com seu discurso em defesa dos direitos civis. Aquele que começava com “I have a dream…”. Mas, bem longe de tudo isso, na pacata Curitiba de 350 mil habitantes, surge uma oportunidade que em pouco tempo traçaria o destino de toda família Fadanelli Madalosso: comprar um pequeno restaurante no Bairro de Santa Felicidade, em frente a casa onde moravam.

Desde a inauguração do restaurante, Flora Madalosso Bertiolli – a Dona Flora – está diariamente na cozinha. É dela o cuidado na escolha dos ingredientes e o controle de qualidade de tudo o que sai para a mesa dos clientes. Tudo é produzido lá, inclusive as sobremesas, garante Teresa Custódio, a “Preta”, funcionária mais antiga da casa. Esse clima de família é o que mantém o restaurante em suas origens, garante Carlos Roberto Madalosso, irmão de Flora e o responsável pela administração do Novo Madalosso. Hoje o restaurante conta uma estrutura de Recursos Humanos eficiente, mas o toque especial permanece. “Um dos nossos pontos fortes é a salada de radicchio com bacon, como fazíamos em casa”. Se há hoje uma forte tendência dos restaurantes em resgatar detalhes como esse na hora de servir, os Madalosso estavam certos na sua aposta. O restaurante é hoje um ponto de encontro para as famílias. Só isso para justificar um movimento como aos domingo, que só no Novo Madalosso é de 3 mil a 3.500 pessoas. Talvez quem venha de outra cidade e veja a dinâmica que é o almoço de um domingo por lá pense que o restaurante é administrado por um grupo de empresários, coisa assim. Mas o fato é que Carlos mantém-se firme à frente do estabelecimento, onde trabalham cerca de 400 funcionários, enquanto Flora não arreda o pé da sua cozinha. Lá atrás, foi ela que plantou em seu pai a ideia de comprar o pequeno restaurante Florilda, rebatizado de Madalosso por sugestão de seu marido, Ademar Bertolli. De lá pra cá, muita coisa – e ao mesmo tempo, quase nada – mudou. Que o empreendimento vai manter suas tradições em família, não há dúvida. “Do meu pai e da minha mãe, somos hoje descendentes 52 pessoas, entre filhos, genros, netos e bisnetos. Temos bastante gente para dar continuidade à nossa tradição”. O que surpreende é quando se percebe que ainda há muitos planos na cabeça do empreendedor Carlos Madalosso. Hotel, centro de eventos, parque de lazer, entre tantas apostas para o entorno do estabelecimento. Carlos sempre enxergou o bairro de Santa Felicidade como um local atrativo para lazer e turismo, tanto que chegou a fundar uma associação comercial para fortalecer os produtores e empresários locais. E é nessa linha que ele pretende investir. “Estou de olho num mercado muito influente hoje, que são as crianças”, brinca.

Stuart, o avô dos bares – Fundação: 1904

seguro2Certa vez, o italiano Dino Chiumento resolveu reformar o velho Bar Stuart. Não podia ter tido pior ideia. Logo que reabriu, com piso e mesas novas, os clientes já começaram a reclamar. Por sorte, conta Dino, ele havia guardado as mesas antigas e trocou tudo novamente. Quem frequenta o Bar do Stuart gosta do que é tradicional no lugar: o ambiente, os garçons, a bebida e os aperitivos exóticos, como o coelho a passarinho, o bucho ao molho e os testículos de touro. Este último, sugestão trazida por um cliente fazendeiro em 1973. O bar é o mais antigo da cidade, data de 1904, mas Dino o adquiriu na década de 1970. Era lá que ele tinha começado a trabalhar como garçom, com apenas 14 anos, e de onde nunca mais saiu. Em 2008, vendeu o bar para o empresário Nelson Ferri, porém manteve uma pequena parte na sociedade, afinal não queria abrir mão do dia a dia no estabelecimento. “Eu cresci aqui, não consigo ficar longe. Vendi porque meus filhos não quiseram continuar a me ajudar e sozinho era muito trabalho”, conta. A clientela é antiga, a maioria já de uma segunda geração de frequentadores, mas o ponto não deixa de ser um atrativo na cidade, seja para turistas, novos ou antigos curitibanos. Nas palavras do poeta Leminski, cliente assíduo na década de 1980: “O Rio é o mar. Curitiba o bar”.

Ile de France, o primeiro francês – Fundação: 1953

ile rua dr muricy 001Quando vamos indicar a alguém onde fica o restaurante Ile de France, é sempre “ali, naquela praça do homem nu”. Muito mais fácil de lembrar do que o verdadeiro nome: 19 de Dezembro. Durante o dia, no amontoado de gente que circula pela região da praça, é bem difícil notar a presença do restaurante que é um dos símbolos da alta gastronomia de Curitiba. Diz-se que foi ali, há 60 anos, que os curitibanos conheceram o strogonoff até hoje um dos pratos mais pedidos da casa. O menu sofisticado, de origem normanda, é praticamente o mesmo desde o começo. “Todas as vezes que tentamos fazer algumas mudanças, tanto
no cardápio como na decoração, os clientes reclamaram. Uma vez tiramos o filé com molho de estragão do menu e tivemos que colocar de volta”, conta Clara Chao. Casada com o engenheiro Jean Paul Louis Roland Decock, herdeiro do restaurante, ela está diariamente no estabelecimento, que administra junto com o marido. De ascendência chinesa, Clara foi um importante estímulo para que Jean Paul assumisse o Ile de France quando seu pai, Émile Decock, ficou viúvo em 1975. Émile e a esposa Janine chegaram da França em 1948 e de lá trouxeram sua experiência com gastronomia. Segundo Clara, a presença constante do casal é fundamental para o funcionamento do negócio. “Só viajamos juntos nas férias coletivas e nunca ficamos mais do que 15 dias longe”, revela.

Churrascaria Ervin, tradição em carnes – Fundação: 1950

DSC_5605Quando perguntamos para o Guilherme Boddy, neto de Ervin Ofner, fundador da Churrascaria Ervin, se o cardápio mudou muito ao longo desses 63 anos de história, ele brinca: “Claro, ampliamos 100% nosso cardápio. Começamos servindo dois pratos e agora servimos quatro”. Ser especialista é assim mesmo. Não é à toa que, mesmo com tantas churrascarias novas na cidade, os clientes não se importam em aguardar na espera para saborear as deliciosas carnes do Ervin. E pensar que tudo começou do outro lado da rua Mateus Leme, quando em 1950 o litógrafo e desenhista alemão Ervin, que havia apenas três anos tinha materializado seu sonho de abrir um bar e sorveteria, resolveu seguir o conselho do seu então fornecedor de queijo e salame e comprar o terreno que ficava logo à sua frente. Para Ervin esta era a oportunidade de fazer algo diferente. “Acho que ele estava cansado de vender pinga”, sugere Guilherme. Assim surgiu a churrascaria. Primeiro sob encomenda, e depois para a clientela do restaurante, Ervin e sua esposa Adelaide começaram a servir filé com mignon, alguns anos mais tarde alcatra e, ainda mais tarde, contrafilé e picanha premium fatiada. “O cardápio enxuto e à la carte é uma opção de negócio”, explica Guilherme, que desde os onze anos acompanha de pertinho tudo o que acontece lá dentro. E a dica para sobreviver em Curitiba? “Olho no olho do cliente”, enfatiza Guilherme. “Você tem que estar ali, 100% presente”.

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