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A prainha da Vicente Machado

7 de junho de 2016

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Gastronomia de rua da Vicente tem atraído cada vez mais gente e mais desafios aos comerciantes e ao Poder Público

Uma balada a céu aberto. Chegar desavisado na Rua Vicente Machado, entre a Desembargador Motta e a Coronel Dulcídio, em Curitiba, numa sexta-feira à noite, dá a sensação de ter descido a serra e desembarcado na praia. Não à toa, o perímetro foi apelidado de “Prainha da Vicente” pelos frequentadores assíduos – curitibanos carentes de maresia. As calçadas – e até as ruas –, em um dos bairros mais nobres de Curitiba, estão crowdeadas. Elas são tomadas por jovens descolados, atraídos por comida e bebida boa e barata: por R$10, dá pra se deliciar com um hambúrguer artesanal ou uma incrível fatia de pizza, por exemplo. Com mais R$ 8, um chope gelado de 400 ml. Artesanal, é claro!

Pelo menos seis bares e lanchonetes, em duas quadras da Vicente, abriram as portas com a mesma aposta: a gastronomia de rua. Os espaços são pequenos, com poucos ou nenhum lugar para sentar. A ideia é que os clientes peguem no balcão seu pão com linguiça, seu espetinho, e comam na calçada mesmo, em pé. E que peguem sua cerveja no bar ao lado. E que no caminho, troquem uma ideia com quem está fazendo a mesma coisa. Entre um drink e mais um kebab, eles não arredam o pé das calçadas antes das quatro, cinco horas da manhã.

A tendência de tomar as calçadas não é novidade em diversos países da Europa, nos Estados Unidos e, inclusive, em cidades brasileiras, como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e outras. Nem em Curitiba isso é novidade. A vontade de ficar nas ruas tem acontecido há tempos por aqui, com a invasão dos Food Trucks, das feiras gastronômicas, da Rua São Francisco, da Trajano e da Praça Espanha. A Fundação Cultural de Curitiba, há algumas gestões, vem trabalhando para proporcionar cada vez mais eventos democráticos, nas ruas e pelos bairros, como é o caso da Corrente Cultural. Até a Vicente já havia dado passos com a Vicentina, evento que já teve 11 edições, e reúne moda, design música e gastronomia locais a uma quadra do agito que acontece, hoje, todo fim de semana.

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 Essa “invasão” tem algumas características de um fenômeno conhecido como gentrificação (do inglês, gentrification), processo de mudança nos padrões culturais de um bairro ou região, de revitalização. Em Nova York, por exemplo, a gentrificação aconteceu no Soho, no Harlem e Greenwich Village. O processo começou naturalmente, com a chegada de diversos artistas que por lá ficaram. Essa migração gerou uma nova vida cultural nessas regiões e valorizou o preço das propriedades.

Por aqui, a chegada desses novos comerciantes, desse movimento boêmio, se por um lado trouxe status, veio acompanhada de muito lixo, falta de segurança, som alto, trânsito e ambulantes, que também batem ponto na área. Consequências de um novo entendimento de convivência social: quanto mais movimento no comércio, mais pessoas nas ruas e mais ocupação de espaços, o que é produtivo para a cidade. “Eu gosto muito dessa ocupação, principalmente porque a cidade é das pessoas, mas há que se ter respeito. Com muita gente, tende a surgir conflitos e excessos”, pondera o vereador Bruno Pessutti. Ele é um dos envolvidos na força-tarefa, que inclui políticos, comerciantes, o Poder Executivo e a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), todos em busca soluções para que esse movimento possa crescer saudável, com a população e o patrimônio protegidos, e a cidade limpa.

Lixo

O problema mais aparente é a questão do lixo acumulado nas ruas após o fechamento dos bares. A responsabilidade da destinação correta é dos grandes geradores (Decreto Municipal nº 983/2004). Porém, além dos resíduos que cada um dos estabelecimentos gera – ou é gerado por seus clientes – há o lixo dos ambulantes (que chegaram com força total), e de muita gente que leva sua própria bebida para lá (oi?). Prova disso é o excesso de garrafas long neck que ficam no chão, por exemplo, e que os estabelecimentos não comercializam. Aí vem a pergunta: de quem é a responsabilidade? “Somos responsáveis pelo lixo que geramos, e isso é inquestionável, mas às três da manhã, quando fechamos a lanchonete, deixamos tudo limpo. Acontece que as pessoas continuam até às cinco, consumindo o que trazem do posto, de outros bares, de casa. E de manhã, a rua está suja de novo”, conta Daniel Mocellin, proprietário do Whatafuck. “O pior é que nem podemos colocar nossas lixeiras nas calçadas que somos multados”, desabafa.

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Daniel e os outros proprietários esbarram na burocracia e num Poder Público que caminha num ritmo muito mais lento que os movimentos sociais. Para se ter uma ideia, na primeira reunião do grupo, o Secretário Municipal de Urbanismo, Reginaldo Luiz dos Santos Cordeiro, sugeriu como alternativa a colocação de mais mesas dentro das lanchonetes: “convidem seus clientes para entrarem, para não comerem e beberem fora”. Patricia Brenner Lopes, Diretora da Limpeza Pública da Secretaria Municipal de Meio Ambiente afirmou que não poderia colocar mais de um varredor para fazer a varredura. Um (?) varredor? Com certeza, eles ainda não haviam entendido o xis da questão.

“A resistência será quebrada com o diálogo. Quando todos os envolvidos apresentarem suas sugestões de forma democrática e organizada, buscaremos a melhor opção para todos”, compromete-se o vereador Jonny Stica, que também é um dos entusiastas do movimento de rua. E é isso mesmo o que os comerciantes pretendem fazer. Querem criar uma associação para que, juntos, encontrem soluções viáveis (como segurança particular e coleta de lixo por cooperativas contratadas) e tenham mais força para influenciar quem pode, de fato, abrir novas portas: o Estado. “Estamos nos deparando com uma dinâmica nova que trará inúmeros benefícios para a cidade e toda a população curitibana. Mas é preciso ponderação de todos os lados: dos comerciantes que atraem a população, e do Poder Público como agente fiscalizador e mantenedor da ordem”, conclui Felipe Braga Cortes.

Estamos nos deparando com uma dinâmica nova que trará inúmeros benefícios para a cidade e toda a população curitibana.
(Felipe Braga Cortes)

Conquistas e os próximos passos nas calçadas

Veremos os próximos capítulos. Por ora, as reuniões têm se mostrado efetivas (sim, a união faz mesmo a força!). Para minimizar o impacto dos resíduos, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente se comprometeu com um plano inicial que inclui um varredor em dois turnos, e fiscais, responsáveis por verificar a correta disposição e a destinação dos resíduos. “Acredito que dessa forma, demonstramos a nossa sempre preocupação e parceria com aqueles que tornam nossa Curitiba uma cidade mais acolhedora e atraente para se viver, de forma ambientalmente sustentável”, finaliza Patricia.

E quanto às lixeiras móveis reivindicadas? Sim, foram possibilitadas pela SMU, graças à intervenção do vereador Felipe Braga Cortes (ponto pra ele!). E outros projetos estão sendo avaliados por todos os envolvidos, felizmente. Afinal, é nas ruas que vamos iniciar a caminhada rumo a um amanhã de mais negócios e empregos, com um desenvolvimento verdadeiramente integrado, humano e solidário. Pelo menos é nisso que acredita a Abrasel: “Queremos dizer ao Brasil inteiro de forma muito clara, direta e simples: vamos fazer o país deslanchar começando pelas ruas. Vamos lá, a partir das ruas, a partir de agora”, diz o manifesto da instituição.

A partir de agora, se você ainda não é figurinha carimbada nessa balada a céu aberto, não perca mais um fim de semana sem experimentar. Na Vicente, tem tudo o que a gente quer, com uma galera alto astral, inovadora e engajada, na mesma vibe para fazer acontecer. Afinal, a gente não quer só bebida, né? A gente quer comida, diversão… e as calçadas!

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Leia o que a Prefeitura afirma estar fazendo em relação ao movimento de rua em Curitiba:

Proteção e segurança

A Guarda Municipal tem se reunido com a Administração Regional da Matriz, conselhos comunitários de segurança da região central da cidade e com a Polícia Militar para planejar e executar ações de segurança. Também são realizadas ações da AIFU (Ação Integrada de Fiscalização Urbana), que envolvem urbanismo, saúde (vigilância sanitária), meio ambiente e o corpo de bombeiros.

Segurança no trânsito

A Secretaria Municipal de Trânsito (Setran) tem desenvolvido ações de conscientização, orientação e segurança viária em parceria com a Polícia Militar (BPTran).

Ambulantes

A Administração Regional da Matriz tem articulado esforços das secretarias do Urbanismo e do Meio Ambiente (limpeza urbana) para responder às demandas geradas pela presença de comércio ambulante. A SMU planeja operações de fiscalização com o suporte da PM.

Leia mais:

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Opções gastronômicas para ocupar as calçadas da Vicente

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  • Muito bom!! Adorei a matéria!