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Querem meu sangue

17 de março de 2016

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Não fui eu quem matou o carneiro, mas fui eu quem pagou o pato

O carneiro que você saboreia num delicioso jantar entre amigos está morto. Sim, morto. Eu sei que você não gosta de saber que bichinhos bonitinhos têm que dar a vida para você viver melhor. Tem coisas que é melhor não saber. Eu concordo. Mas uma das melhores apresentações do Mesa SP deste ano foi trazida por um grupo de gaúchos que tirou a pele da carne e a carne do osso de um carneiro diante de um público massivo que assistia fascinado sem piscar os olhos. Só se falava nisso. A classe de cozinheiros adora quando isso acontece! “Temos que mostrar para todo mundo como se mata e desossa um bicho!”. Talvez por ter que mexer com carne fresca todos os dias cozinheiros tenham perdido um pouco do romantismo pela vida dos animais – assim como médicos veteranos perdem o romantismo por seus pacientes. Tem gente que ainda acha que hambúrguer dá em árvore e, quando descobre que ele vem de uma vaquinha malhada que pasta feliz, vira vegetariano. O homem é um bicho desequilibrado. Afinal, o homem é o único ser capaz de desequilibrar a natureza. Até pouco tempo o homem tinha a industrialização e a produção em escala como verdade absoluta e todos seguiam essa tendência – lembro que há uns 20 anos todo o jet set de Curitiba fazia fila na porta do primeiro McDonald’s da cidade. Hoje vemos que a industrialização da comida foi uma escolha errada. Não pelo propósito em si, mas pelo exagero. Por ser desequilibrado, o homem está exagerando de novo. Para se redimir dos erros acarretados pela produção em escala, o homem começa a remar para o lado oposto e a negar tudo o que é industrializado. Sustentabilidade, produção artesanal, orgânicos etc. são as novas – e exageradas – palavras de ordem. Ordem mesmo: ai de você se não pensar assim ou ousar fazer uma selfie dentro do McDonald’s. Deixar de ir ao shopping center nos fins de semana para ir assistir ao abate de um carneiro numa chácara orgânica talvez vire um programa cult que os moderninhos (antigos enochatos) escolham para educar melhor seus filhos. Perceberemos, em breve, que o ideal seria o equilíbrio entre um e outro: industrial e artesanal. Equilíbrio? Não dá! O homem é um ser desequilibrado.

Hoje vemos que a industrialização da comida foi uma escolha errada. Não pelo propósito em si, mas pelo exagero.

Não fui eu quem matou o carneiro, mas fui eu quem pagou o pato. Publiquei esse texto no meu Facebook dois dias depois de ter participado do Mesa SP. A gente acha que para bom entendedor meia palavra basta. Nem sempre. Ou nem todos são bons entendedores, ou eu me expressei mal. Um dos comentários que recebi debaixo da minha publicação foi: “Ser desequilibrado é você seu boçal nojento! Tomara que morra com requinte de crueldade!”. Outro, um pouco mais moderado, sugeria que por eu ser “pessoa pública” não deveria me manifestar sobre alguns assuntos, quando, na minha opinião, devo fazer justamente o contrário. Não vou negar que fiquei um pouco chocado. Reli meu texto duas ou três vezes para tentar entender onde, no meio daquilo tudo, havia motivo para alguém querer a minha morte. Percebi que algumas pessoas são contra a morte de animais em detrimento da alimentação humana. Ou seja: eu devo ser cruelmente sacrificado por comer carne. Para elas isso seria “pagar com a mesma moeda”. Eu entendo.

Mas eu nasci homem; não nasci vaca. Nasci aprendendo a comer carne. Um onívoro pecador. A intenção dos meus textos não é pertencer a esse ou àquele grupo; mas gerar reflexão. Muitas das críticas que eu faço quando escrevo são pra mim mesmo. Dizer que o homem é um ser desequilibrado, exagerado, que gosta de McDonald’s mas que busca novas formas de alimentação, que tem pena dos animais mas que também admira a ousadia de quem desossa um bicho em público no meio de um congresso, é falar tudo sobre mim. Sou um cara como outro qualquer, suscetível às coisas que acontecem no mundo. Eu também ficaria feliz se nossa alimentação não dependesse da morte de animais. Nenhuma pessoa com um pingo de decência gosta de ver bicho sofrer. Eu também não. Mas o mundo não é tão cor de rosa como algumas pessoas gostariam que fosse e, por isso, sentem vergonha de serem seres humanos. É verdade! A humanidade nos causa constrangimentos. Mas eu ainda sinto mais vergonha daqueles que querem ver um homem morto do que daqueles que comem carne. E se eles querem meu sangue, terão o meu sangue só no fim.

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