Shuffle Gelinaz: impressões de uma embaixadora

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No aeroporto, foi ele quem nos achou e a ansiedade acabou no ralo quando sorrimos. Soube no mesmo instante que tudo ia ser como deveria ser.

Ansiedade nos dias que antecederam o jantar Shuffle Gelinaz 2, mesmo antes da chegada do chef do Black Axe Mangal, que receberíamos aqui. Afinal, um dos mais importantes eventos internacionais iria acontecer embaixo do nosso nariz, em um lugar desconhecido  “middle of nowhere”, como se refere a nós o jornalista Andrea Petrini (organizador do Gelinaz ao lado de Alexandra Swenden), mesmo que a nossa chef Manu Buffara insista em mudar essa realidade.

Shuffle Gelinaz 2 fez a troca de chefs em 40 restaurantes espalhados pelo mundo, Japão, França e Austrália, para citar alguns países. Eles viveram por uma semana a vida de um outro cozinheiro. Desconfio que Petrini quis chacoalhar Curitiba, capital do Paraná, estado do Sul do Brasil. Escolheu, para recepcionarmos, um chef de personalidade forte. Obrigada, balançou nosso coreto. Bem, pelo menos foi essa a intenção, imagino.

A chegada

No aeroporto, podia sentir minha respiração. Aquele nó no estômago. Bobagem, claro. Eu não tinha um cartaz com o nome do convidado: e se não o reconhecesse? Difícil, pensei. Achei demais fazer um, tinha consultado várias vezes a internet. Por sorte, um anjo apareceu e providenciou uma “carinha de chef”, aquele desenho do cozinheiro feliz do livro do Alex Atala, que ajudaria até a mantermos a identidade dele preservada nas primeiras fotos. E foram muitas fotos.

Conviver com uma millennial vegetariana, minha parceira, fez com que logo a adotasse para sempre. Milagrosamente estávamos conectadas, nossos valores são os mesmos, apesar das grandes diferenças. Ela, ele e eu ficamos quase grudados por seis dias, marcou feito ferro em camisa de seda. Íamos tateando, ressabiados feito gato com estranhos. Tão delicadas são as relações.

A cidade que adora mignon e camarão recebeu o cara que adora kebabs, pimenta, curry, grelhados e flatbreads […].

Lee Tiernan, o chef vindo de Londres, acha Gelinaz um modelo divertido de caos. “Precisamos de momentos assim, é bom sair da rotina para recuperar a criatividade”, ensinou. A cidade que adora mignon e camarão recebeu o cara que adora kebabs, pimenta, curry, grelhados e flatbreads, que fez e faz sucesso aproveitando, como deveria ser, tudo do animal, do focinho ao rabo – ele trabalhou por mais de 10 anos com o pai do movimento “nose do tail”, Fergus Henderson, do St. John, em Londres.

No quarto dia de recepção, adoeci, me vi sem energia e tendo que postar no endereço eletrônico do evento e nas redes sociais, imaginando comentários inteligentes brotando feito grama depois de uma chuva de verão. Mesmo assim, amei tudo.

Conhecendo ingredientes e pessoas

Tiernan se mostrou sincero e autêntico, com uma cozinha multiétnica e de vanguarda, na minha definição simplória. Embarcou na corrente que valoriza sabor, simplicidade e preço. Ganha pontos porque ousa ser diferente e contemporâneo. Seu olhar vai longe. Usa defumados, condimentos fortes, especiarias e muita lenha para seus grelhados e pães. Irreverências nas referências pede o mundo. É a identidade cultural que se forma na mistura, nas imigrações contemporâneas e enfrenta crises sem demarcar a fronteira.

Aqui, provou de tudo e foi, aos poucos, enquanto conhecia os cozinheiros do Manu e alguns ingredientes, relaxando. Entre as contradições, estava a do paladar apurado e o gosto pela cerveja barata. Nem ligou para as nossas artesanais. Bem que insistimos. Disse que achou falta de um lugar em Curitiba que sirva comida boa e barata. Bom seria.

Irreverências nas referências pede o mundo. É a identidade cultural que se forma na mistura, nas imigrações contemporâneas e enfrenta crises sem demarcar a fronteira.

Gostou do palmito na brasa da Eva dos Santos – adorou seu carisma e espontaneidade também. Ficou impressionado com o ativismo e as explicações da Gabriela Carvalho e com as abelhas nativas, além do trabalho da Rosane Radecki e do Cláudio Oliver, os dois de Palmeira. Elogiou os cogumelos preparados com tomilho, servidos com os pães do Rene Seifert, do Pão da Casa, de Witmarsun, e o pastel de feira, que foi parar no cardápio do jantar.

Resultado final

Se encontrar pessoas, trocar conhecimento, estar em um lugar inusitado, cozinhar com ingredientes desconhecidos e ter diversão era a ideia, acho que não desapontamos Lee Tiernan e pela reação dos clientes, todos os que foram ao Manu na quinta-feira, 10 de novembro, principalmente quando viram o chef tatuado e maquiado entrar com peitos e pênis feitos de suspiro cor-de-rosa em meio a explosões de corações coloridos. Desconfio que a inesperada “Pavlover” foi preparada para provocar mais do que a pimenta, presente em quase todos os pratos servidos.

Difícil reproduzir a semana, o jantar, o convívio com o todos os envolvidos e com o nosso desconhecido chef. Parece que durou um mês. Fazia tempo que não sentia o tempo passar assim. O clima do jantar foi de festa, com boa comida. Por isso, na próxima vez que ouvir falar em Gelinaz, fique atento, corra reservar.

 

Read the article in English:

Shuffle Gelinaz: impressions of an ambassador

Anxiety in the days leading up to the Shuffle Gelinaz 2 dinner. Even before the arrival of the chef we would receive here. After all, one of the most important international events would happen right under our nose. In an unknown place, “in the middle of nowhere”, as we are told by journalist Andrea Petrini, the organizer of Gelinaz, next to Alexandra Swenden, even if our chef Manu Buffara insists on changing that reality.

Shuffle Gelinaz 2 made the exchange of chefs in 40 restaurants around the world, in Japan, France and Australia, to name a few countries. They lived the life of another cook for a week. I suspect Petrini wanted to shake Curitiba, capital of Paraná, southern Brazil. He chose for us to welcome a chef with a strong personality. Thank you, you rocked our bandstand. Well, at least that was the intention, I suppose.

The arrival

At the airport, I could feel my breath. Butterflies in the stomach. Nonsense, of course. I didn’t have a poster with the guest’s name, and what if I didn’t recognize him? Tough job, I thought. I thought making one was too much. I had checked the internet several times. Luckily, an angel appeared and arranged a “chef’s face”, that happy cook’s drawing from Alex Atala’s book, which would help to keep his identity preserved in the first pictures. And there were lots of pictures. It was he that found us and the anxiety went down the drain when we smiled. I knew at once that everything was going to be as it should.

Living with a vegetarian millennial, my partner, made me to adopt her forever. Miraculously we were connected, our values are the same, despite the big differences. She, he and I were almost stuck together for six days, branded like iron in a silk shirt. We were groping in the dark, reckless like a cat with strangers. So delicate are relationships.

Lee Tiernan, the chef from London, thinks that Gelinaz is a fun model of chaos. “We need moments like this, it’s good to get out of the rut to regain creativity,” he said. The town that loves mignon and shrimp received the guy who loves kebabs, peppers, curries, grilled meats and flatbreads, who made it and still makes it, using everything, as it should be, from the nose to the tail – he worked for over 10 years with the father of the “nose to tail” movement, Fergus Henderson, of St. John’s, in London.

On the fourth day, I became ill, I found myself without energy and having to post something to the event’s website and social networks, imagining intelligent comments sprouting like grass after a summer rain. But I loved everything.

Getting to know ingredients and people

Tiernan was sincere and authentic, with a multiethnic and avant-garde cuisine, in my simplistic definition. He embarked on the trend that values taste, simplicity, and price. He earns points because he dares to be different and contemporary. His vision goes far. He uses smoked meats, strong condiments, spices, and lots of wood for his grills and breads. Irreverences in references is what the world asks. It is the cultural identity that forms in the mix, in the contemporary immigrations and faces crises without setting the border.

Here, he tasted everything and slowly, as he met the cooks at Manu and some ingredients, he relaxed. Among the contradictions was that of his sophisticated taste buds and his taste for cheap beer, he didn’t really pay attention to our artisan beer. We tried though. He said that a place in Curitiba that serves good and cheap food is missing, yes, that would be great, thank you very much.

He liked the grilled heart of palm of Eva dos Santos – he loved her charisma and spontaneity as well. He was impressed by the activism and explanations of Gabriela Carvalho and the native bees, as well as the work of Rosane Radecki and Claudio Oliver, the two of Palmeira. He praised the mushrooms prepared with thyme served with Rene Seifert’s breads, of Pão da Casa, from Witmarsum, and the Brazilian “pastel de feira”, which went straight to the dinner menu.

Final result

If meeting people, exchanging knowledge, being in an unusual place, cooking with unfamiliar ingredients and having fun was the idea, I think we did not disappoint Lee Tiernan and, judging by the reaction of the customers, all those who went to Manu on Thursday, November 10th. Especially when they saw the tattooed, powdered chef come in with breasts and penises made of pink meringue amid bursts of colorful hearts. I suspect that the unexpected “Pavlover” was prepared to provoke more than the pepper, present in almost all the dishes served.

It is hard to reproduce the week, the dinner, the conviviality with the all involved and with our unknown chef. It looks like it lasted a month. It’s been a long time since I’ve felt time going by like that. The atmosphere of the dinner was festive, with good food. So the next time you hear about Gelinaz, stay tuned and book fast.

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