“Estou procurando um presente. Tem cerveja de mulher?”

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Foto: Maria Fernanda Stinghen Gottardi

A cena é clássica. O cliente entra e pede: “Estou procurando um presente. Tem cerveja de mulher?”. Eu respiro fundo e lá vamos nós de novo! Com muita calma e vontade de mudar o mundo, lanço outra pergunta: “O que é cerveja de mulher?”.

Quando me iniciei no mundo das cervejas especiais, o que mais me inspirou sempre foi a variedade e as sutilezas de cada estilo. É um mundo muito amplo e democrático. São centenas de tipos, cores, aromas, sabores e possibilidades e tem cerveja para todos os gostos, até para quem não gosta de cerveja. Cerveja é para todos. Cerveja engloba, agrega, nos faz compartilhar histórias, vivências e descobertas, fazer amigos. Mas mesmo assim, mulheres que trabalham na área ou consumem cerveja ainda vivenciam situações de rejeição.

Perdi as contas de quantas vezes, ao cumprimentar um cliente me dirigindo para atendê-lo, tive que vê-lo passar reto ou ouvi-lo dizer que preferia ser atendido por um homem, “que deve entender mais de cerveja”. Outra situação comum é perguntarem se sou casada com o dono do empório, como se uma mulher não pudesse se interessar por cerveja por livre e espontânea vontade ou ser a dona do negócio. “Você está aqui só para enfeitar a loja?”, “Moça, tem alguém aqui que poderia me explicar a diferença dessas cervejas?”. –“Sim, eu!”. Cara de estranhamento e dúvida.

Perdi as contas de quantas vezes, ao cumprimentar um cliente me dirigindo para atendê-lo, tive que vê-lo passar reto ou ouvi-lo dizer que preferia ser atendido por um homem, ‘que deve entender mais de cerveja’.

É irônico passar por isso quando a história da cerveja está conectada à mulher: na antiguidade e na era medieval, a cerveja era produzida por mulheres. Até o século 15, as mulheres produziam cerveja para consumo doméstico e também comercial, administrando tabernas. Aos amantes de lúpulo, agradeçam a uma mulher por suas cervejas serem amargas: Hildegard von Bingen, cientista, freira e cervejeira, foi quem descobriu a utilidade do lúpulo para a cerveja no século 12.

Foi só depois do século 16 que a mulher ficou mais apagada no mundo cervejeiro. A produção passou a ser industrial e, aí, os homens, com mais recursos financeiros e grau de educação, conquistaram o mercado. Mas superando as adversidades, a mulher continuou a se envolver no “clube do bolinha”. Um exemplo é o da cervejaria alemã Schneider. Depois da morte do marido cervejeiro, Georg, Mathilde Schneider se envolveu ativamente na administração e produção da empresa. Sob seu comando, a cervejaria se tornou a mais bem sucedida do sul da Alemanha antes da Primeira Guerra Mundial. Foi ela quem criou a receita da primeira cerveja Weizendoppelbock do mundo, a potente e complexa Schneider TAP 6 Aventinus.

“Você está aqui só para enfeitar a loja?”, “Moça, tem alguém aqui que poderia me explicar a diferença dessas cervejas?”. –“Sim, eu!”. Cara de estranhamento e dúvida.

Estereótipos de lado

Mesmo com muitos exemplos machistas no mercado, temos visto campanhas publicitárias e iniciativas acertadas que deixam estereótipos de lado, abraçando os consumidores de cerveja como um todo. O mercado está cheio de mulheres na liderança de cervejarias e empreendimentos e como docentes na área cervejeira. As consumidoras estão também mais antenadas. Não existe mais lugar para estereótipos. É muito recompensador, como profissional, ver cada vez mais mulheres vindo ao empório escolher cervejas, fazendo confrarias, se interessando por produção de cerveja. Também adoro quando vejo homens comprando cervejas para presentear mulheres – sem pedir por “cerveja de mulher” 😉 Quer melhor presente que uma deliciosa cerveja escolhida especialmente?

Mulheres consumidoras e produtoras de cerveja não deveriam ser vistas com estranheza, afinal, elas já estiveram lá. Lembra daquela tal “cerveja de mulher”? Então. Ela não existe. Assim como não existe cerveja de homem. Não duvido que muitas gostem de cervejas leves e doces, mas isso pode ser pela falta de perguntarem o que ela prefere, se gostaria de experimentar outro estilo ou ampliar seu paladar.

Mulheres não querem cerveja feita para elas com base em estereótipos.

Mulheres querem beber a cerveja que as faça se sentirem bem, a que elas escolheram, amarga ou doce, leve ou bem alcoólica, não importa. Se a cerveja é boa, vamos aproveitar! Vamos nos divertir, rir, degustar. Assim dá para a gente pensar em uma pequena grande modificação para a célebre frase do Kaiser Wilhelm: “Me dê uma mulher que ame cerveja e nós vamos conquistar o mundo juntos!”. Que tal?

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