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Um filho de dono de restaurante (parte 10)

15 de março de 2017

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Morri. E ninguém aqui é insubstituível.

Então, depois de um longo tempo afastado, meu pai apareceu no restaurante. Chegou de mansinho, como quem volta de uma longa viagem, como se pisasse em lugar estranho. Cumprimentou um, depois outro, até chegar à minha sala. Encontrou tudo mudado. Eu havia comprado alguns móveis de escritório usados de uma amiga que fechara seu café a algumas quadras de nós. A mesa era outra, os sofás eram outros, a prateleira era outra, até o telefone era outro. Ao ver tudo aquilo, ficou surpreso. Ao vê-lo, também fiquei. Levantei-me rapidamente e nos abraçamos. “Que mudança bonita”, ele falou. “Pois é”, eu disse. Não havia muito o que dizer. Vivíamos juntos, na mesma casa, não havia nada que não soubéssemos ou que quiséssemos saber um do outro. Convidei-o para sentar. “Não, só vim dar um oi”, ele disse se afastando, e seguiu para cumprimentar os outros funcionários.

Sua visita se repetiu no dia seguinte. Entrou, cumprimentou e, desta vez, sentou-se na minha frente, ao contrário do que sempre foi: eu na cadeira dele e ele na minha. “Pai, sente aqui, esse é o seu lugar”, eu disse, levantando-me. “Não, filho, pode ficar”. Conversamos um pouco sobre o restaurante. Tentei explicar o que eu vinha fazendo, mas ele não prestou atenção. Apenas disse: “Será que a sala ao lado está vazia?”. A sala ao lado tinha o nome da minha tia, Dona Flora, estampado na porta. A Flora nunca usou a sala, já que sempre esteve dentro da cozinha. “Sim, aquela sala é um depósito, ninguém usa”, falei. “O que você acha de ajeitá-la para mim?”, ele perguntou. Eu topei.

Não havia muito o que dizer. Vivíamos juntos, na mesma casa, não havia nada que não soubéssemos ou que quiséssemos saber um do outro.

No dia seguinte, a sala estava vazia, com uma mesa e um telefone à disposição. Ele apareceu, ocupou a sala, mas, mesmo assim, sentiu-se deslocado. E não era pela sala em si, mas pela falta de comando, pela falta de função. As coisas, de certo modo, vinham caminhando muito bem em sua ausência. Ele foi até a sala do financeiro, pegou alguns papéis e começou a fazer conciliações como se fosse um estagiário no primeiro dia de trabalho. Como eu já disse, restaurantes familiares não têm funções preestabelecidas, é preciso encontrar seu próprio espaço. E lá estava ele, num processo discreto de reabilitação, resgatando aos poucos o seu lugar.

Não questionava o que eu fazia, mas eu dava um jeito de contar, queria que ele sentisse orgulho do meu trabalho. “Contratei essa empresa de consultoria pra dar treinamento”, “implantei uma nova política de cargos e salários”, “investi em uma nova sala e centralizei o setor de vendas”, “contratei fiscais pra abrir mesas e diminuir desvios”, eu dizia. Ele dava de ombros. Não via qualquer importância nas minhas realizações, aliás, ao contrário, achava tudo aquilo perda de tempo, por mais que não declarasse abertamente.

Nossos “modelos de gestão” eram definitivamente diferentes. E isso se dava por diversos motivos, especialmente pelo choque de gerações, acredito. Aos poucos, meu pai se restabeleceu nas atividades do cotidiano. Voltou a assumir decisões importantes, como definir preços de grandes eventos, encomendar novas reformas, fazer negociações com fornecedores, etc. Voltou a ocupar o espaço de dono, mesmo que ainda lutasse contra os baques da depressão.

Aquela sala não combinava com ele, e, certamente, a minha não combinava comigo. Sugeri trocarmos. “Pai, você volta para a sua sala e eu ocupo essa daqui”. Ele topou. De repente, silenciosamente, sem perceber os sinais, eu voltava a ser o filho do dono do restaurante, subordinado às suas ordens e sem o poder de comando. Não poderia ser diferente, nunca deveria ter sido. Continuei exercendo minhas atividades, com muito menos ânimo. Volta e meia eu era desautorizado. A nova sala de vendas foi desfeita, a consultoria de treinamento foi suspensa, as fiscais de mesa foram demitidas. Meu rebaixamento de função virou rebaixamento moral e, mais do que nunca, eu senti a necessidade de buscar meu próprio caminho.

Decidi morar fora

Entre diversas possibilidades, dois motivos me fizeram optar por Nova York: o primeiro é que eu falava inglês fluentemente, já que havia morado em Kansas por um ano, com 15 anos de idade, durante um programa de intercâmbio. O segundo é que eu teria casa pra ficar sem pagar aluguel, o que aliviava um pouco a ideia de estar gastando sem estar recebendo. Além disso, eu tinha desejo de conhecer a cidade, atraído por sua fama de metrópole mundial. Quando descobri que a CIA – Culinary Institute Of America –, uma das melhores escolas de gastronomia do mundo ficava duas horas ao norte de Nova York, não tive mais dúvidas: era para lá que eu iria.

Havia algumas barreiras. A primeira era meu apego aos restaurantes, o receio de perder meus projetos e as pessoas que neles estavam envolvidas – a “minha” equipe. Outra questão era que eu continuava presidente da ACISF, a associação de Santa Felicidade da qual eu deveria pedir afastamento. Era preciso delegar. Passei a distribuir todos os meus trabalhos. “Pessoal, eu morri, não tem nada que eu faça que vocês não possam fazer, essa empresa não depende de ninguém. Ninguém aqui é insubstituível”, eu dizia em nossas reuniões, especialmente com a equipe do Fadanelli, que era onde meu pai interferia menos. “Vou viajar, estudar fora, e nesse tempo ninguém da minha família deve ser incomodado. Vocês podem fazer isso dar certo”. Eu não dizia aquilo da boca para fora. Percebi, nos meses que antecederam minha viagem, que as pessoas que trabalhavam comigo exerceriam várias atividades com muito mais competência do que eu. Senti que dava para ir.

“Pessoal, eu morri, não tem nada que eu faça que vocês não possam fazer, essa empresa não depende de ninguém. Ninguém aqui é insubstituível”.

Desci numa estação central do metrô de Nova York em novembro de 2005

Quando pus meus pés para fora e vi a cidade, senti meu corpo flutuar. Meu coração latino-americano explodiu em emoção. Gritei por dentro. Minhas frustrações saíram por todos os poros, ficaram para trás. Sonhei sem saber com o quê, diante das inúmeras possibilidades que aquela cidade poderia proporcionar. Entrei num café onde havia marcado um encontro com o Damian. “Hi! Nice to meet you. I am Beto, Giovana’s brother”, me apresentei. “Sure you are, I thought you were her”, ele disse, tirando onda. “Ready for New York? Life is not easy around here”.

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