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Um filho de dono de restaurante (parte 11)

27 de março de 2017

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Meu primeiro dia em Nova York ia chegando ao fim

Voltamos para o metrô, linha L, e seguimos para o Brooklyn. O Neil morava no último andar de um prédio de quatro andares de tijolo à vista avermelhado, numa rua calma, com alguns predinhos parecidos ao redor. No térreo, ao lado da porta que dava acesso aos apartamentos, havia uma pizzaria take away, dessas que têm fatias expostas na vitrine, com letreiro de neon e cardápio escrito na parede. O dono, um rapaz italiano, ainda se batia com o inglês. Seus subordinados, três mexicanos usando moletons e bonés da NFL, ajudavam na limpeza das mesas e no atendimento aos clientes, com vocabulário restrito a welcomes e goodbyes. Antes de subir, compramos duas fatias de pizza e sentamos para comer. Tocava mariachi, o que me fez sentir em casa. Na verdade, tudo o que era latino-americano parecia conversar comigo.

Arrisquei um “ola que tal” com um dos garçons. Não fui correspondido. “Beto, you are in New York. People here don’t give a fuck about who you are or where you come from. Better get used to this”, falou o Neil. Terminamos as pizzas e subimos os quatro lances de escada. Era final de tarde, escurecia e fazia frio no outono nova-iorquino. Apesar da fraca iluminação, era possível ver algumas quinquilharias entre sacos de lixo pretos e azuis deixados em frente às portas de cada apartamento. “Here is where I live”, falou o Neil, apontando uma porta descascada assim que chegamos ao último piso.

“Beto, you are in New York. People here don’t give a fuck about who you are or where you come from. Better get used to this”.

This is your new house in NYC

Pediu que eu o seguisse até outra porta, no fundo do corredor. Explicou que aquilo não era exatamente um quarto, mas uma despensa, e era ali que eu iria ficar. Ao abrir, me deparei com baldes de tinta, peças de carro, molduras de quadros, ferramentas, varas de pesca, roupas, etc, revirados e empilhados, ocupando os dois metros quadrados do quartinho. “Sorry, I’ve been too busy and didn’t have time to clean up this mess. Give me a hand”. Então, tiramos aqueles entulhos e os espalhamos pelo corredor do prédio. Ele posicionou um colchão no chão, ao lado de uma escrivaninha. “Ok, this is your new house in New York City”.

Ajeitei minha mala ao lado do colchão enquanto ele me passava regras básicas de convivência.

Voltamos até a porta descascada. Entramos em seu apartamento malcuidado e imundo como o resto do prédio. Um cômodo conjugado com cozinha, sala e quarto, onde apenas alguns fiapos de cortina separavam sua cama das outras peças. Louças transbordavam da pia. Sobre a mesa de canto, tocos de cigarro, latas de cerveja amassadas e um prato com resto de comida. Algum líquido do dia anterior grudava meus pés no chão. Escutei um miau. Vi um gato cinza sobre a geladeira. “Thats my cat, Mimi. She says hi”. “Now let me show you the bathroom. Red is hot, blue is cold, same as Brazil, right?”. Espalhados pelo chão do banheiro havia pelos e fios de cabelos de diferentes DNAs, lâminas de barbear enferrujadas e fragmentos usados de papel higiênico. Ele abriu o armário de espelho, tirou uma escova de dentes e disse: “This is my tooth brush, I whash my dick with it…so you better stay away from it”. Depois da apresentação, enquanto eu voltava para o meu quarto, ele gritou: “Ah, Beto, if you want some weed, let me know. I have the best stuff”.

 O Drawathon – arte verdadeira, beleza autêntica

Estiquei um lençol sobre o colchão mofado e deitei. Estava exausto da viagem. Meia hora depois, ouvi batidas na porta. “Beto, wake up, wake up. There is something special for you tonight”, falava o Neil do lado de fora. Levantei e abri a porta com todo o respeito e servidão de um hospede recém-chegado. Neil, estou morto, quero dormir. “Hey, you wanna see naked girls? Lots of them? Listen to me, man, I am taking you to the best place in town. Take a shower, get dressed and lets go”. Obedeci. Pegamos um metrô para o sul do Brooklyn. No caminho, o Neil tentava explicar sobre o Drawathon, uma espécie de “maratona de desenhistas”, onde artistas desempregados retratam pessoas nuas, e quando falava “naked people”, lançava sobre mim um olhar triunfal, soberano, como se estivesse levando um irmão mais novo pra perder a virgindade.

Saltamos do metrô num bairro residencial, de casas simples e ruas pacatas. Vi uma movimentação de pessoas em frente a uma delas. Era lá. Na porta, uma moça apenas de lingerie me entregou um folder do evento. “IV Drawathon – True Art, Authentic Beauty”. Entramos. Luzes vermelhas, velas negras, e grandes candelabros prateados decoravam a sala principal. Posicionados formando um círculo, meia dúzia de artistas empunhavam pincéis e paletas de tinta pra interpretar, cada um do seu jeito, o grupo de homens nus e mulheres nuas no centro da roda. Dispostos como bem entendiam – de quatro, em pé, ou sentados –, os protagonistas da festa mantinham-se estáticos pra colaborar com os pintores. Passei o olho rapidamente: velhos, velhas, gordos, gordas, magros, esqueléticos, jovens, tatuados ou não, barbudos ou não, com pelos pubianos para todos os gostos, e um festival piercings sadomasoquistas. Ao contrário do harém de odaliscas que imaginei encontrar, aquilo me parecia uma clínica de reabilitação.

Parei o olho numa gostosinha, a única talvez. Estava em pé, com dois véus negros que escorriam até o chão, um em cada braço. Parecia estar levitando. “You like her?”, perguntou Neil ao perceber que eu a olhava fixamente. Está longe de ser uma Angel da Victoria’s Secret, mas é a melhor que vi até agora, falei. Orgulhoso, ele disse: “Thats Lucy, my girlfriend”. Homem de sorte, eu falei, tentando recompor a merda do meu comentário.

Alguns minutos depois, alguém tocou uma sineta. Era o intervalo entre um grupo e outro de pintores. Distribuíram cervejas e pedaços de pizza. Os nus continuavam naturalmente nus, circulando pela casa, cumprimentando amigos que prestigiavam o evento. A Lucy veio até nós. “This is Beto, the guy I told you from Brazil”, Neil me apresentou. “Hi, Beto. Welcome. How do you like our little party?”, ela perguntou. Nunca vi nada parecido em toda minha vida, falei. “This is really amazing, isn’t it?”, ela concluiu. Volta e meia alguém encostava no Neil, cochichava algo em seu ouvido, e entregava alguns dólares em troca de uma buchinha de alguma coisa. Desconfiei, por um instante, que o Neil fazia bicos vendendo drogas, mas preferi não pensar no assunto.

Horas mais tarde fomos embora. Foi a Lucy quem nos deu carona.

Estacionamos o carro em frente ao prédio. Subimos os três. Entrei no meu quarto, e, mesmo com uma parede entre nós, eu podia ouvi-los conversar como se ainda estivéssemos dentro do carro. De repente ouvi sussurros. Sussurros que viraram gemidos. Gemidos que viraram gritos. “Fuck me, fuck me”, berrava a Lucy sobrepondo o ruído oceânico do colchão d’água. Ciente de que eu podia ouvir a sinfonia do seu sexo, assim que terminaram, Lucy chamou meu nome. “Beto, Beto, are you enjoying us?”. Acho que a vizinhança inteira está excitada, falei. Então tentei dormir. Meu primeiro dia em Nova York ia chegando ao fim.

No trem de volta para casa, decidi que não iria estudar, mas trabalhar em alguma cozinha. Os preços eram altos demais e achei que, dentro de um restaurante, eu aprenderia de verdade, aprenderia fazendo.

No dia seguinte, Neil me passou instruções de como chegar a Poughkeepsie, cidade duas horas ao norte, onde fica a CIA – The Culinary Institute of America. Conheci a estrutura e peguei informações das grades dos cursos e preços respectivos. No trem de volta para casa, decidi que não iria estudar, mas trabalhar em alguma cozinha. Os preços eram altos demais e achei que, dentro de um restaurante, eu aprenderia de verdade, aprenderia fazendo. Perguntei ao Neil se ele poderia me ajudar com isso. Então ele me passou o contato de uma amiga coreana, Karen. “Call her. She’s been working in some of the best restaurants in town, she will help you out. Oh, but first, invite her for dinner. She’s fucking hot”.

Liguei para a Karen e marcamos de nos encontrar num restaurante coreano em que ela era habitué. A Karen era realmente “fucking hot” e comia sem restrições as cebolas e dentes de alho crus que vinham como acompanhamento dos pratos típicos, enquanto me explicava sobre os hábitos de seus conterrâneos à mesa. Ela também me falou sobre um amigo, chef de um conceituado bistrô francês, que poderia me contratar. Por ser “fucking hot”, ela abria portas facilmente – e sabia muito bem disso. “People never say no to me”. Ligou para o Brian, que não atendeu, mas deixou uma mensagem de voz. “Hey, sweety, I have a friend from Brazil who is looking for a job. Can you help me with this?”. Terminamos a garrafa de saquê e fomos embora.

Na manhã seguinte, Karen mandou uma mensagem agradecendo o jantar e passando as coordenadas com endereço e horário que eu deveria chegar ao The Harrison, restaurante chefiado pelo Brian, para uma entrevista. Às 13 horas, conforme combinado, eu estava lá.

Uma senhora da limpeza me atendeu. Quero falar com o Brian, por favor. “What is your name?”. Carlos, eu falei. Passei a me apresentar como Carlos em Nova York pela dificuldade que as pessoas tinham para pronunciar Beto. O restaurante estava fechado, só abria para o jantar. Enquanto aguardava, eu observava o salão, a montagem das mesas e a disposição das taças e bebidas no bar. Um restaurante luxuoso. O Brian apareceu. “Hey Carlos, I am Brian. Karen said you wanna work with us”. Respondi que sim e puxei conversa, dizendo que eu estava encantado com o restaurante. Ele deu de ombros.

“I bet you know how to handle a knife, right?”. Menti que sim. “So, tomorrow you start. Bring your own knife and be here at one o’clock”.

Coloquei meu currículo sobre a mesa. “You can keep that, I dont need it. First of all, there is no space for another employee in here, if you wanna stay, you will work for free. If you wanna learn, I will teach you, but no money. Is that all right?” Falei que sim. “I bet you know how to handle a knife, right?”. Menti que sim. “So, tomorrow you start. Bring your own knife and be here at one o’clock”. Saí de lá feliz, tinha arrumado um emprego. Escrevi uma mensagem agradecendo a Karen e fui atrás de uma loja de facas. Gastei 100 dólares num modelo profissional. Era só começar.

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