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Um filho de dono de restaurante (parte 13)

25 de abril de 2018

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Tracei meu plano de fuga

Minha rotina era fazer exercício pela manhã, restaurante tarde e noite, e algum boteco ou leitura antes de dormir. Vez ou outra, quando encontrava o Damian de pé ao chegar em casa, a gente saía pra uma cerveja ali por perto, onde ele conhecia todo mundo. A conta sempre era minha, era nosso trato: “Beto, você não paga aluguel mas paga a cerveja”. Tudo bem, justo. Também com o propósito de compensar a hospedagem, volta e meia eu enchia a geladeira com alguns mantimentos para o café da manhã: salame, queijo, pão, leite. Um dia o Damian me chamou, abriu a geladeira, tirou o que eu tinha acabado de comprar e disse “Isso aqui é toxico, é químico. Comece a comprar comida boa. Vou colocar uma regra: nessa geladeira não entra nem salame nem queijo que custe menos de um dólar. O leite também, compre outro melhor”. Ele tinha razão, como eu não tinha renda, não queria gastar, comprava tudo do mais barato, coisa vagabunda mesmo, enquanto ele queria coisa boa, orgânicos de boa procedência, era chato para comer.

Eu curtia sair com o Damian de vez em quando. Não tinha um lugar onde a gente chegasse que ele não fizesse amizade usando a tatuagem do braço esquerdo para puxar assunto. Ele mostrava a frase escrita em português e perguntava: “Você sabe o que isso significa?” e então a conversa fluía, algumas piadas, suas memórias sobre o Brasil e seus posicionamentos políticos carregados de teorias da conspiração – o Damian sempre achou que o atentado de onze de setembro era obra do próprio governo americano.

Um cara querido com humor sarcástico, sempre preparando alguma armadilha. Quando perguntei se ele sabia de um clube para eu fazer natação ele me indicou uma academia ali do lado da Times Square, a única que teria piscina. Uma piscina vagabunda, essas de 18 metros com três raias e água morna, mais adaptada pra hidromassagem da terceira idade do que para nadar. Não teve jeito, foi a única que achei. Me inscrevi num pacote de seis meses. Logo no inicio achei estranho que quase não haviam mulheres. Os frequentadores marombados se alternavam nos equipamentos pra perna e peito e entre as saunas seca e úmida, desfilando corpos e besuntados escondendo o sexo com uma micro toalha fornecida pela academia, e nesse trânsito, entre vestiário, chuveiro e saunas, lançavam sobre mim olhares gulosos que lambiam de cima a baixo, de baixo a cima, invadindo minha privacidade sexual. O filho da puta do Damian tinha me mandado para uma academia gay e logicamente, sempre que possível, perguntava: “Os amigos da academia estão cuidando bem de você, Betinho?”.

 Ele tinha razão, como eu não tinha renda eu não queria gastar, comprava tudo do mais barato, coisa vagabunda mesmo, enquanto ele queria coisa boa, orgânicos de boa procedência, era chato pra comer

De volta à cozinha

Nunca me destaquei dentro do Tribeca, não passei dos trabalhos mais simples, fatiar, descascar, colocar para ferver, coisas assim, sem grandes responsabilidades. Eu era uma peça descartável. O que garantia minha vaga era o fato de eu não ser remunerado e, acredito, porque eu tinha as costas quentes, era indicado da Karen, a coreana gostosinha que transitava pela mente sacana dos cozinheiros do Tribeca. Era falar dela que rolava alguma especulação, alguma fantasiosa contravenção. Ela era amiga do chef. Uma ou duas vezes por semana ela aparecia pra um coquetel no final da noite. Nunca achei que eu tivesse chance. Não custava tentar.

Num fim de tarde de terça feira, durante o jantar da equipe, mandei uma mensagem convidando a Karen pra uma cerveja. Ela fazia uns bicos de garçonete em outro restaurante e estaria livre depois do expediente no mesmo horário que eu. Topou. Pediu que eu a encontrasse num bar do Soho. Suei frio. Mulher gostosa tem esse poder. Tomei duas doses de uísque numa licquor store na rua de trás do Tribeca antes de ir encontrá-la. Firmei o pulso e segui as coordenadas. Fui parar num refugio oriental com cheiro de fritura e cigarro impregnados nos veludos vermelhos das cortinas e sofás. Sobre o caixa um Buda dourado com a pintura trincada, descascando. Os garçons eram importados do Japão ou da China, sei lá, sei que não falavam inglês. Coreanos, talvez. “Adoro isso aqui”, ela disse, e fez nosso pedido. Um yakissoba acompanhado de legumes crus. Para beber, saque morno, eu nunca tinha tomado aquilo antes. Mais bebi do que comi, ela também. Peguei na mão, cheguei mais perto, a outra mão enfiei entre pernas, debaixo da saia. Nos beijamos. Hálito de cebola. Foda-se. Eu só pensava em trepar. Vamos para o meu apartamento? Sim. Uma hora da manhã, quarenta minutos entre estações. Um frio infernal. Nos agarramos descontroladamente dentro do vagão vazio. Estação Carroll St. Chegamos!

Caminhamos duas quadras e subimos os quatro andares de escadas escuras até chegar ao meu quarto. Deixei a janela entreaberta e desliguei a luz. Pela fresta dava para ver uma pontinha da Estátua da Liberdade, parte do braço e da cabeça, tão pequena quanto uma estrela perdida na galáxia. Era necessário fazê-la enxergar, aquela tocha era o único sinal de romance pautável dentro da espelunca onde eu dormia. “Você vê?” “Ah, sim, agora sim, finalmente”, ela disse com algum entusiasmo. Tiramos nossas roupas. Pele com pele até o amanhecer. Acordamos com o Damian batendo sem piedade na parede do quarto. Bam, bam, bam. “Acorda, Beto”. Abri os olhos. Ela sussurrou: “não diga nada, por favor, não diga que estou aqui”. Não teve jeito. O Damian tinha faro bom, sabia que alguém estava comigo e não ia deixar barato. Levantou-se, deu a volta pelo corredor e veio até nós. Ordenou que eu abrisse a porta dizendo que precisava de um cabo pra fazer chupeta no carro sem bateria que atrapalhava o trânsito nas proximidades. Sem saída, abri. Ele entrou como uma locomotiva. Viu a Karen. Não botou fé. “O filho da puta do Beto pegou a Karen”, pensou. A gente já tinha falado dela antes. Não deixou barato. “Karen, você acabou de dormir com maior sex symbol do Brasil, pelo menos é o que a mãe dele diz, foi bom pra você?”. Ela mandou ele se foder. Ele vasculhou o armário, não encontrou nada, deu uma desculpa qualquer e saiu. Esperamos um pouco, nos vestimos e também saímos. Ela foi para casa, eu, para o trabalho.

Nas conversas da noite anterior sobre nossos passados e sonhos futuros, a Karen me encorajou a falar para o chef sobre meu restaurante, achava que ele iria se interessar. Foi o que fiz. Antes de sair do quarto peguei um cardápio da Cantina Fadanelli e enfiei dentro da jaqueta. Ao chegar no Tribeca, fui direto até a salinha de vidro onde ele fazia pedidos aos fornecedores. “Com licença, chef, eu gostaria de te mostrar o cardápio do meu restaurante no Brasil”. Ele tirou os olhos do computador, olhou pra mim e pediu que eu deixasse os cardápios sobre a mesa. Dois dias se passaram sem tocar no assunto. Resolvi perguntar. “Chef, você gostou do meu cardápio?” “Eu não olhei direito, mas pelo que vi, não gostei. Tem muita redundância, vocês servem oito tipos de filé mignon com molhos diferentes. Por que oito? Sirva um, sirva o melhor, simplifique, opte por ingredientes variados e faça o melhor com cada um deles”. Engoli a seco. Fiquei puto mas entendi o recado. O cara era foda, sem meias palavras, tudo o que ele falava fazia muito sentido, sempre, pena que meus dias iam chegando ao fim.

O cara era foda, sem meias palavras, tudo o que ele falava fazia muito sentido, sempre, pena que meus dias iam chegando ao fim

Com o tempo comecei a encasquetar com o entra e sai de pessoas estranhas na casa do Damian. Era normal encontrá-lo “poderoso chefão” na mesa da cozinha com visitantes ilustres pra quem eram servidas cervejas e baseados extra puros provenientes da Baixa Califórnia, como ele gostava de enfatizar. Sobre a mesa, papelotes suspeitos, um cinzeiro transbordando e notas de dólares despretensiosas. Não, não era uma mesa de apostas. O Damian estava desempregado há tempos e culpava a crise econômica pela falta de oportunidades. Passar drogas era seu modo temporário de sobrevivência até pintar um novo emprego, “é por pouco tempo, nada sério”, dizia. Outro problema era o dono do imóvel que vivia atrás do Damian pra cobrar o aluguel de doze meses atrasado. “Beto, o dono desse imóvel é um cuzão, tento negociar a dívida mas ele é irredutível, estou planejando uma fuga. Qualquer madrugada vou encher meu carro com tudo o que tenho e sumir daqui. Se ele não quer negociar, não vai receber nenhum dólar”. Era melhor eu dar o fora. Primeiro porque a porra da história do aluguel poderia cair pra mim se o Damian fugisse, aliás, o dono do prédio não sabia que existia um sub inquilino de seu inquilino morando ali, era proibido. Outra porque toda vez que eu ouvia uma sirene da NYPD eu me cagava, achava que a hora do Damian tinha chegado e que me levariam junto como cúmplice de um traficante do Brooklyn. A paranoia me dominou.

Fui mais rápido que ele. Tracei meu plano de fuga. Antes de fechar cinco meses em Nova York anunciei minha despedida. Agradeci a oportunidade ao chef do Tribeca, liguei pra Karen, e tomei a saideira com o Damian no seu bar preferido. “Estou indo, obrigado por tudo”. Fiz as malas e toquei pra Califórnia atrás de um sonho. A Rachel me esperava lá.

 

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