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Um filho de dono de restaurante (parte 4)

22 de setembro de 2016

(64)
O primeiro dia de trabalho

A gravata que meu pai deixou com o nó pré-preparado me aguardava sobre o balcão da cozinha. Minha mãe escolhia a camisa mais adequada pra combinar com minha calça de pregas bege e meus sapatos pretos lustrados. Um beijo na testa, um abraço rápido. “Vai lá, filho, vai. Já passou da hora”, disse ela com olhar de compaixão.

Atravessei o pátio do restaurante desviando centenas de carros que já haviam chegado para o almoço de domingo. Era meu primeiro dia de trabalho, meu primeiro dia OFICIAL de trabalho. Eu tinha 15 anos. Sentia medo e vontade de ficar, mas continuei andando, com a cabeça vazia de pensamentos. Desta vez, seria diferente, diferente de todas as outras vezes que entrei no Restaurante Madalosso. Diferente de quando eu entrava pra roubar uma bola de sorvete ou de quando eu buscava um galão de azeite a pedido de minha mãe. Diferente de quando eu levava um ou outro amigo pra almoçar após o trabalho da escola, ou, ainda, diferente daquelas vezes em que eu cuidava de carros pra cantar uma gorjetinha do cliente ao final da noite. Agora, como eu contei, era oficial.

Garçons vestidos em calças e coletes vermelhos fluíam como glóbulos sanguíneos, preenchendo corredores e irrigando cada uma das quinhentas mesas com as especialidades da casa, indo e vindo, entrando e saindo de um pulsante coração: a nossa cozinha.

Contornei o corpo estrutural desse templo gastronômico até encarar a porta da frente, onde uma multidão de clientes se aglomerava pra conseguir uma mesa. Sobre um púlpito, um dos gerentes gritava, com um microfone em mãos, a sequência de nomes na lista: “seu Dionísio, seis lugares”, “seu Adroaldo, oito lugares”, enquanto polentinhas fritas e jarras de Alexander eram servidas pra acalmar o ânimo dos demais famintos. A visão era, assim como é até hoje, de caos. Entrei como um estranho, um desconhecido. Tentei penetrar a barreira humana e fui expelido de volta pra fora. Tímido e desajeitado, tentei de novo, e, devagarinho e com paciência, consegui. Dei de frente com um salão lotado. Duas mil pessoas, milhares de talheres, copos, pratos e garrafas. Garçons vestidos em calças e coletes vermelhos fluíam como glóbulos sanguíneos, preenchendo corredores e irrigando cada uma das quinhentas mesas com as especialidades da casa, indo e vindo, entrando e saindo de um pulsante coração: a nossa cozinha.

Foto: Restaurante Madalosso

Todos eles me conheciam bem, muito bem. Alguns faziam parte do time que me “pegou no colo” quando saí da maternidade. Mesmo assim, seus olhares zombeteiros fitavam com sarcasmo minha roupa engomada, e isso me deixava ainda mais inseguro. Diante do mar de clientes, um calafrio tomou conta do meu corpo. Minhas pernas tremiam e, pra não perder de vez a sustentação, eu tinha que reagir. Não havia um script, eu não sabia por onde começar. Os mais sacanas, percebendo minha paralisia, esbarravam em mim carregados de travessas pra dar a entender que eu estava atrapalhando. Um disse: “volta para a saia da mamãe, mané”. Outro disse: “veio trabalhar, folgado?”. Quem estendeu a mão foi o Ernani, que com seus quase 30 anos de casa, ordenou – “Beto, tá vendo aquela mesa ali? Vá lá e limpe!”. Desengonçado, eu fui, dando graças por ter o que fazer. Era minha chance de mostrar serviço, mas, acima de tudo, de fugir daquele estado abobado e inerte. Sem qualquer habilidade, peguei uma garrafa numa das mãos, dois pratos na outra, e fui em direção à cozinha.

Desengonçado, eu fui, dando graças por ter o que fazer. Era minha chance de mostrar serviço, mas, acima de tudo, de fugir daquele estado abobado e inerte. Sem qualquer habilidade, peguei uma garrafa numa das mãos, dois pratos na outra, e fui em direção à cozinha.

Naquele ritmo, eu levaria umas quatro viagens pra terminar o serviço, algo que qualquer um com mais experiência faria de uma só vez. Cheguei até a área das louças, onde garçons se acotovelavam por um espaço pra descarregar as travessas sujas. Enfiei-me em meio àquela confusão e, enquanto depositava meus pratos sobre o balcão, levei uma passada de mão e um tapa nas costas que nunca soube de onde vieram. Era um teste, um teste à minha coragem. Provocavam-me como provocam todos os calouros que entram pra trabalhar no Madalosso. Comigo, porém, havia um sabor especial: eu era o filho do dono, o filho do patrão. Mexer comigo dava prazer redobrado. Talvez eu tenha sofrido algum bullying no colégio, mas ali, amigo, ali eles são especialistas. O Madalosso é uma escola de malandragem: ou você se vira ou você tá fora, não existe meio termo. Olhei para trás, procurando, mas preferindo não encontrar quem teria sido o filho da puta que passou a mão em mim. Seria o mesmo que deu um tapa nas minhas costas? Alguns se entreolhavam, seguravam o riso, ninguém a meu favor. Eu não tinha nada a fazer a não ser sumir dali. Pisei para fora e entrei na corrente, que me levou de volta para o salão.

A mesa que eu havia começado a limpar já estava limpa e outra família já era atendida. O Ernani estava em qualquer outro lugar, e meu pai, que eu ainda não tinha visto nessa primeira hora de trabalho, passou lá no fundo, como um pequeno veleiro em alto mar, parando de mesa em mesa como se parasse em pequenos atracadouros, certificando-se da satisfação de cada cliente. Meu primeiro dia de trabalho foi assim, um choque. Aquela inocência que eu trazia na alma foi rompida. Eu não estava mais diante da cordialidade de garçons que me tratavam como um herdeiro distante. Agora eu estava lado a lado, no campo de batalhas, lutando por minha própria sobrevivência. Eu sabia que teria um longo caminho até conquistar o respeito e a admiração desse exército de homens vermelhos.

Foto: Restaurante Madalosso

Foto: Restaurante Madalosso

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Um filho de dono de restaurante (parte 5)
Um filho de dono de restaurante (parte 4)
Um filho de dono de restaurante (parte 3)
Um filho de dono de restaurante (parte 2)

Um filho de dono de restaurante

 

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COMENTÁRIOS
  • Sensacional essa história. Daquelas que dá vontade de continuar lendo ansioso até o final. Aguardamos os próximos capítulos

  • Olá Beto, boa tarde !

    Linda e emocionante descrição do seu primeiro dia de trabalho no Restaurante Madalosso. Eu adoro ver o movimento, lá não existe crise, quer fugir dela, vá lá. Parabéns pela sua página Tutano Gastronomia, vou indica-la para os meus amigos.
    Beijos

    Lilica