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Um filho de dono de restaurante (parte5)

28 de setembro de 2016

(185)
Em busca de reconhecimento

Meu pai chegou em casa umas duas horas depois de mim, depois de verificar o fechamento dos caixas e certificar-se de que todas as lâmpadas estavam apagadas – por mais que ele fosse dono de um negócio imenso, seu modus operandi continuava o mesmo de sempre. Pela primeira vez na vida, ouvi sua entonação de voz diferente, agora, de um pai-patrão, que me chamou de guri e não de filho pra não misturar as coisas: “Guri, como foi de primeiro dia? Atendeu algum amigo da escola? Os garçons deram uma forcinha pra você?”. Eu, ainda assustado com o que se passara, respondi sim para tudo. Uma conversa meio atravessada, em que ele não sabia direito o que perguntar e eu não fazia ideia do que responder. Deixamos assim. O tempo tomaria conta por nós.

Pela primeira vez na vida, ouvi sua entonação de voz diferente, agora, de um pai-patrão, que me chamou de guri e não de filho pra não misturar as coisas.

Os domingos de trabalho viraram rotina para mim. Era sempre igual. Eu acordava cedo, rodava de bicicleta com alguns vizinhos pelas trilhas do bairro, e às 11 da manhã já estava uniformizado e reunido ao redor da mesa da nona com meu pai, tios, primos, irmãos e alguns funcionários mais chegados da família, entre eles o Ernani, como se fosse uma concentração pré-batalha regada a macarrão caseiro e frango ensopado pra enfrentar o dia de maior movimento da semana.

Minha escala aumentou. Passei a trabalhar sextas, sábados e domingos, e quanto mais eu trabalhava, mais eu traçava meu próprio caminho. Minhas passadas ficaram mais firmes. Aprendi onde encontrar talheres, bebidas e toalhas. Aprendi a carregar quatro travessinhas cheias de frango de uma só vez e aprendi a servir lasanha na manteiga fazendo “pinça” com duas colheres. Eu circulava por entre as mesas com mais desenvoltura e, mesmo que minha timidez não me permitisse abordar clientes, eu estava mais do que pronto quando alguém levantava a mão pra fazer um pedido. – “Pois não, senhor!”. – “Mais uma travessa de risoto e duas águas, por favor.”. – “Sim, senhor!”. E lá ia eu, correndo para cima e para baixo, procurando mais mãos levantadas, louco pra atender um novo pedido e feliz da vida por ganhar a atenção dos clientes.

As sacanagens dos garçons ficaram menos frequentes. Perceberam que eu era um cara resistente e isso tirava o tesão das brincadeiras bobas. Perceberam, também, que eu era um aliado e que por mais que estivessem diante do “filho do patrão” não estavam diante de um cara folgado, traiçoeiro ou babaca. No meio do time, eu fazia parte do time, e as sacanagens viraram coisa de gente grande. Certa vez, passaram uma ligação para mim. Do outro lado da linha, um cliente enlouquecido, puto, dizendo que tinha jantado no restaurante, sido muito mal atendido, e que fazia questão que eu levasse uma porção de polenta e frango imediatamente até sua residência. Apavorado com o chamado, tomei um táxi e fui atrás daquele endereço em um bairro distante. Endereço que nunca existiu. Duas horas depois, ao chegar de volta ao restaurante, todos riam como crianças como se assistissem a um palhaço entrando na arena de um circo. Trotes por parte deles eram comuns. Passavam ligações para mim com pedidos falsos de emprego, com pedidos de reserva para 31 de fevereiro, com voz sensual feminina solicitando um encontro romântico no ponto de ônibus em frente ao restaurante, e até trotes com ameaças de bomba. Fui aprendendo a dar o troco. Cada dia eu gostava mais daquilo.

Ao mesmo tempo em que eu conhecia melhor cada um dos garçons, eu conhecia meu pai numa versão que ia além (muito além!) dos limites das paredes da nossa casa.

Meu pai era um cara fora da curva. Sempre foi. Não escolheu que carreira seguir, não escolheu a gastronomia por amor, sonho, ideal ou coisa assim. Não estudou para isso. Não há nada de romântico em sua história. Foi destino. E mesmo que o destino tenha escolhido por ele, meu pai, guiado por sua intuição e determinação, superou expectativas. Foi o melhor do seu bairro, o maior da sua cidade e, por fim, o maior do seu país. Não foi resultado de um plano de negócios bem feito. O que ele queria era vingança! Queria, através do trabalho, mostrar que era mais do que um colono desajeitado e “perebento” como era chamado na escola. Se alcançasse sucesso, ele vingaria humilhações sofridas por amigos abastados durante a infância, tal qual aquela ocasião em que saiu pra entregar leite montado em sua velha bicicleta. Carregando uma caixa com seis garrafas de vidro entremeadas com serragem, meu pai foi interrompido à força por um dos garotos do bairro. – “Para onde vai com tanta pressa, Carlos?”. – “Vou entregar leite!”, respondeu timidamente, temendo apanhar em via pública daquele conhecido carrasco, mais velho e com o dobro do tamanho. Então, o canalha encheu a mão com a serragem que separava os litros de leite, arremessou contra o rosto de meu pai como se cuspisse em sua cara, e disse: – “Sai daqui, italiano de merda! Nem pra entregar leite você presta!”. Com os ossos congelados, meu pai orava em silêncio pra sair dali com vida. Três dias com serragem nos olhos e ódio guardado na alma para a vida inteira. Aquela não seria a primeira nem a última vez em que meu pai ou um de seus irmãos seriam humilhados; mas certamente situações como essa seriam o principal combustível para que os Madalosso trabalhassem incansavelmente atrás de sucesso e reconhecimento.

Mesmo que o destino tenha escolhido por ele, meu pai, guiado por sua intuição e determinação, superou expectativas. Foi o melhor do seu bairro, o maior da sua cidade e, por fim, o maior do seu país.

Então, meu pai entendeu que se quisesse crescer teria que enfrentar seus fantasmas e dar a cara à tapa. Logo nos primeiros dias de trabalho em seu próprio restaurante, aquele italiano franzino e envergonhado feito cachorro escaldado sabia que teria que circular pra ver e ser visto (e principalmente lembrado!) e que, para isso, seria necessário vestir-se adequadamente e melhorar seu português. Mudar seu jeito de ser pra receber melhor seus clientes, fornecedores e turistas vindos de fora. Mudar pra não virar chacota em eventos sociais, pra ser aceito como sócio do clube frequentado pela alta sociedade ou pra ser membro de entidades filantrópicas, associações e sindicatos. Resumidamente, ele teria que reinventar-se.

Depois de revitalizar o guarda-roupa e ajeitar o discurso, meu pai foi distribuir panfletos. Percorria feiras em todo o Brasil enquanto seus irmãos, Flora e Severino, seguravam a barra (e que barra!) no dia a dia de trabalho do restaurante. Para as feiras, levava consigo dois ou três funcionários, polentinhas pré-preparadas, fritadeiras para a finalização, folhetinhos contendo fotos, telefone e endereço do então “famoso” Restaurante Madalosso. Como resultado dessas exaustivas turnês, excursões de turistas vinham de ônibus de todos os cantos do Brasil. Os que saíam do nordeste vinham visitar o frio das Serras Gaúchas; os que saíam do Sul passavam por Curitiba rumo ao litoral do Nordeste, Rio de Janeiro, ou dos congressos em São Paulo. Todos passavam por Santa Felicidade e a grande maioria parava no Madalosso. Num único almoço o Madalosso chegou a atender 136 ônibus de turismo que iam em direção à Oktoberfest de Blumenau. Por mais que os números ultrapassassem qualquer projeção feita pela família, não havia tempo para comemorar. No dia seguinte, mais ligações, mais reservas, mais ampliações, mais reformas, mais incêndios para apagar. Todos os dias; um dia atrás do outro. No início dos anos 90, o Madalosso havia se tornado uma das principais atrações turísticas de Curitiba. Clientes locais traziam amigos visitantes e abriam os tímpanos pra ouvir com orgulho – e fazer ouvir – os números continentais do restaurante alardeados pelo Ernani de mesa em mesa. – “São mais de quatro mil lugares, 30 toneladas de fubá por mês, área de um estádio de futebol, 70 cozinheiras, 120 garçons, três mil clientes todo domingo.” E assim, sem ninguém se dar conta, o Madalosso chegou à marca de 4.600 lugares, e foi exatamente esse número que o fez entrar para a história, estrelando, em 1995, numa das páginas do Livro dos Recordes – o Guinness Book – como o maior restaurante do Brasil e das Américas.

Sem ninguém se dar conta, o Madalosso chegou à marca de 4.600 lugares, e foi exatamente esse número que o fez entrar para a história, estrelando, em 1995, numa das páginas do Livro dos Recordes – o Guinness Book – como o maior restaurante do Brasil e das Américas.

Meus primeiros dias de trabalho se deram em meio à essa revolução. Aprendi, logo de cara, a navegar em águas revoltas. Ter noção do que representava o Madalosso e acompanhar de perto as conquistas de meu pai me fez sentir por ele um tremendo orgulho, orgulho sem fim, orgulho maior do que quando ele me vestia com a camisa do mesmo time de futebol e me protegia no estádio quando saía gol. Admiração, admiração eterna, que sofreria ameaças e seria desconstruída em diversos momentos de nossa convivência. Meu pai, meu herói, meu patrão, meu algoz. Logo o Madalosso se tornaria pequeno demais para nós dois.

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Um filho de dono de restaurante (parte 4)
Um filho de dono de restaurante (parte 3)
Um filho de dono de restaurante (parte 2)

Um filho de dono de restaurante

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COMENTÁRIOS
  • Opa, olha aqui a parte 6!
    https://tutanogastronomia.com.br/um-filho-de-dono-de-restaurante-parte-6/

  • Que bom que você gostou, Camila! Pode continuar a leitura! A parte 6 está aqui: https://tutanogastronomia.com.br/um-filho-de-dono-de-restaurante-parte-6/. ;)

  • Essas histórias de família são as melhores.. cade a parte 6?! 😄
    Obs: deu fome!

  • Cara!
    Que texto é esse! Me emocionei muito; o Madalosso faz parte da vida dos Curitibanos e eu não imaginava ser essa a história deste delicioso restaurante.
    Obrigada por compartilhar sua história com a gente (aliás, adoro suas histórias, vc escreve muito bem!)

  • Sempre leio todas as matérias escritas pelo Beto, simplesmente adoro!!!
    Desejo MUITO SUCESSO Sempre!! !

  • Muito legal! As primeiras partes me fizeram viajar nas lembranças da minha própria vida de "filha de um dono de restaurante" e é assim mesmo... um dia temos que bater nossas próprias asas... parabéns pela história, garra e todo sucesso!

  • Muito bom conhecer um pouco da história. Não sou de Curitiba mas já almocei no Madalosso e recentemente casamos nosso filho no Velho Madalosso. Parabéns!