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Um filho de dono de restaurante (parte 6)

9 de novembro de 2016

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Quatro irmãos e o meu destino

A intimação pra trabalhar nos restaurantes foi feita sistematicamente para cada um de nós, sempre na mesma fase da vida, entre a adolescência e a maturidade, com os pés divididos entre as baladas e o mercado de trabalho. A Gi, três anos mais velha que eu, foi a primeira.

Giovana, a militante

Além de não querer nada com o restaurante, a Giovana não levava o mínimo jeito para a coisa. Sempre foi rebelde, a mais rebelde de nós quatro. A única que enfrentava meu pai quando não concordava com ele. Sua personalidade forte não se mostrava apenas nos almoços de família. Com 15 ou 16 anos, já tinha escolhido seu partido político, o Partido dos Trabalhadores, e militava por suas causas – algo incomum dentro de uma casa de empresários conservadores como a nossa.

A Gi sempre quis ser escritora, e escolheu, ainda menina, o Jornalismo como profissão. Outra polêmica. A ideia dos meus pais era formar filhos médicos ou advogados, profissões que davam status social. E caiu sobre ela, primeira filha, a obrigação de escolher entre as duas carreiras, já que “jornalista não tem futuro”. Inteligente, ela foi lá e fez. Ingressou em Jornalismo na Universidade Federal (UFPR) e em Direito na PUC-PR. Matou a cobra e mostrou o pau. Claro que, ao longo daquele primeiro ano, apenas fingiu frequentar as aulas de Direito. Enquanto dizia estar no Centro Acadêmico, estava, na verdade, bebendo isso e fumando aquilo com seus amigos psicodélicos intelectuais em algum boteco fedorento da cidade. Quando minha mãe descobriu, por acaso, um naco de ervas secas enroladas num saquinho plástico debaixo de seu travesseiro, meu pai obrigou-a a trabalhar como recepcionista da Cantina Fadanelli nos fins de semana. Ela ia, mas sempre atrasada, com olheiras profundas e de ressaca, e não foram poucas as vezes que correu para o banheiro no meio do expediente pra vomitar as tripas marinadas a álcool da noite anterior. Outra tentativa foi o piercing que pregou na sobrancelha, contrastando com as vestimentas folclóricas e os adornos florais dos cabelos das outras funcionárias.

A gota d’água foi o dia em que resolveu expulsar um cliente que, sem razão, segundo ela, implorava por uma mesa na recepção. Clientes normalmente não entendem a logística de distribuição entre tamanhos de mesa – 4, 6, 8, 12 lugares – e reclamam quando desconfiam que estão sendo passados para trás. Ao perceber sua honestidade questionada, Giovana não engoliu. “Ponha-se daqui para fora!”, gritou. Ao final do dia, a sós com meu pai, ouviu: “Filha, na nossa profissão, o cliente pode defecar na nossa cabeça e a gente tem que aguentar. Você realmente não serve para isso”. Aquele seria seu último dia no restaurante da família.

A vez do Lorenzo também chegou

Com o Lorenzo não foi diferente. Começou aos domingos, depois pegou escala de sábado, e então preencheu o fim de semana. Ele também não se sentia em casa na lida com os clientes. Além disso, sofria da mesma culpa de todos nós, irmãos e primos, que passamos pelos restaurantes: a impotência por não conseguir fazer algo relevante. Quem mandava nos funcionários eram meu pai e meus tios, e os funcionários sabiam disso. O Lorenzo, porém, foi o primeiro dos irmãos a honrar, de fato, o desejo dos meus pais ao ingressar numa faculdade de Direito. Foi além. Passou também em Administração de Empresas e cursou as duas ao mesmo tempo, o que parecia mais uma estratégia pra fugir do trabalho nos restaurantes do que paixão pelo curso. Suas constantes reclamações de falta de tempo levaram meus pais a aceitarem seu pedido de demissão.

Novos tempos para Isadora

A Isadora, irmã caçula, passou pela tangente. Quando chegou sua vez, meu pai parecia ter percebido que forçar a paixão pela gastronomia traria um novo desconforto. Percebeu, enfim, que os filhos deveriam seguir seus próprios caminhos. Opa, nem tanto assim. A Isadora foi a única a realizar o maior dos sonhos do meu pai: formar uma filha médica. A aprovação em Medicina lhe daria o alvará de soltura. Mesmo assim, ela tinha que fazer uns bicos no caixa do restaurante de vez em quando, quando queria comprar roupas novas.

Eu fui ficando

Fui ficando por ali, dentro dos restaurantes. Nunca fui um aluno brilhante, nem soube exatamente o que queria “fazer quando crescer”. Tanto é que prestei vestibular em faculdades e áreas completamente diferentes. Engenharia em uma, Direito em outra, Biologia, Administração… só passei em Administração. Sempre fui o menos promissor de nós quatro, e ajudar nos restaurantes era a única alternativa para mim, aquele menino inocente e infantil que não iria dar em nada.

Ser filho de dono é pior que ser ninguém. Quando você é ninguém, você é ninguém e ponto, não esperam nada de você, e você está em paz com isso. Agora, quando você é filho do dono, você é um ninguém cercado de expectativas: “Será que vai dar em alguma coisa?”. Essa é a pergunta de sempre, a expectativa de todos, comparando você ao seu pai, colocando em você uma carga que você não escolheu, fazendo com que sua relação pai x filho se transforme em uma competição de quem vai mais longe, deixando para trás, muitas vezes, os únicos laços que realmente deveriam existir nessa convivência.

Ser filho de dono é pior que ser ninguém. Quando você é ninguém, você é ninguém e ponto, não esperam nada de você, e você está em paz com isso. Agora, quando você é filho do dono, você é um ninguém cercado de expectativas: “Será que vai dar em alguma coisa?”.

Meu próprio pai tinha dúvidas quanto a mim. Influenciado também pela expectativa dos outros, meu pai queria um filho vencedor e passou a me tratar com desprezo diante do meu amadorismo como dono de restaurante. Não por mal, esse era seu jeito de ser e de ensinar. Certo dia, ao vasculhar seu guarda-roupa atrás de um par de meias, vi uma anotação em um pequeno pedaço de papel em meio a outros lembretes: “O Beto é devagar, não vai dar em nada na vida. Falar com a Neuza”. Era um bilhete dele para ele mesmo, pra não esquecer de falar com minha mãe sobre o filho lerdinho.

Foi como um soco na boca do estômago, um golpe na minha autoestima que já andava manca das duas pernas. Senti ódio. Senti medo do futuro. Senti pena de mim mesmo. Chorei. O cara para quem desde minha infância eu tentava provar algo e não conseguia, agora deixava claro e por escrito que sentia pena de mim. Entendi, naquele momento, que não adiantava falar sobre o bilhete ou tentar argumentar o contrário. Eu só tinha uma saída, apenas uma maneira de vingar aquele soco e provar que ele estava errado: seria através do trabalho. Precisava traçar meu caminho, abrir meu próprio negócio e, pra nocautear, conseguir ir mais longe do que ele.

O processo de trabalhar loucamente em busca de reconhecimento começava a se repetir, de geração para geração, dentro da minha própria casa. E quem despertou essa fúria dentro de mim foi meu ídolo, foi meu algoz, foi meu pai.

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Um filho de dono de restaurante (parte 5)
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