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Um filho de dono de restaurante (parte 7)

16 de novembro de 2016

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Caneta na mão

É verdade. Pensando bem, meu pai tinha razão. Eu não servia para a coisa. Como alguém com uma alma infantil e carregada de compaixão seria capaz de dar ordens? Eu me identificava mais com aquelas pessoas que apareciam para trabalhar sem um currículo debaixo do braço do que com minha própria família. Gente sem passado e sem futuro. Sem sonhos. Levadas pelo mundo, assim como eu.

No Madalosso era assim, as contratações aconteciam de forma orgânica. Recrutamento? Seleção? Manuais de integração? Nada disso. Os próprios funcionários iam trazendo seus familiares, vizinhos e conhecidos. E, assim como meu pai e meus tios começaram no ramo sem nunca ter entrado num restaurante, eles começavam sem ter qualquer noção de como servir uma mesa. Espelho do espelho. Nos domingos de maior movimento, aparecia uma enxurrada deles. “Eu trouxe meu filho pra ajudar”, dizia um. “Eu trouxe meus sobrinhos”, dizia outro. Alguns apareciam aleatoriamente depois que a notícia de que a taxa paga no Madalosso dobraria de valor no Dia das Mães se espalhava pelo bairro. Chegavam aos montes. Cinco, dez, quinze, vinte, que, como zumbis, entravam por todas as portas e circulavam pelos salões até esbarrar em alguém e dizer “eu vim pra trabalhar”.

Vestiam as camisas e calças emprestadas do irmão mais velho, as mesmas peças que usavam para ocasiões especiais. Mesmo que improvisando as vestimentas, faziam de tudo pra ter uma boa apresentação. Ajustavam com clipes os excessos das mangas e colarinhos, compartilhavam ceras para engraxar os sapatos e dividiam navalhas para aparar os pelos do rosto. Sorridentes, nem sempre com todos os dentes, vinham cheios de graça. As instruções eram simples, as mesmas que recebi do Ernani em meu primeiro dia de trabalho. Limpe a mesa, leve a louça ate a área das louças, as bebidas ficam aqui, os talheres ficam ali algum veterano explicava. Famintos e apreensivos, enchiam seus pratos de macarrão com frango e comiam como se aquela fosse a última das refeições. Pronto. Era só começar.

No final, recebiam suas gorjetas e rumavam para longe e, caso lhes faltasse dinheiro durante a semana, voltariam no próximo domingo. Eu ficava. Ficava com alguma sensação de querer trocar de lugar com eles e sorrir os seus sorrisos ao abrir uma garrafa de refrigerante.

De repente estavam carregando travessas, tirando pedidos e servindo as mesas de clientes que não faziam ideia de onde vinham. No final, recebiam suas gorjetas e rumavam para longe e, caso lhes faltasse dinheiro durante a semana, voltariam no próximo domingo. Eu ficava. Ficava com alguma sensação de querer trocar de lugar com eles e sorrir os seus sorrisos ao abrir uma garrafa de refrigerante. Era como se eu quisesse sentir na pele as suas dificuldades e suas alegrias. De certo modo, a vida deles parecia mais legitima do que a minha. Não dava. Eu não era eles. Era preciso aceitar o fato de ser filho do dono. Ser aquilo que eu deveria ser. Encontrar o meu caminho.

Dentre garotos humildes e honestos, haviam os desonestos. Bandidinhos capazes de arrombar o armário do colega pra roubar desde uma carteira de dinheiro até uma carteira de cigarros. Aprendi a primeira lição: humildade é diferente de honestidade. Além de atacar colegas, atacavam o restaurante com abundante criatividade. Subtraiam vinhos da adega, peças de carne da câmara fria, trocavam o dinheiro vivo do cliente por cheque roubado comprado na praça, cobravam contas sem repassar o valor para o caixa, etc.

Minha primeira demissão se deu quando descobri um funcionário fantasma. Alguém batia seu cartão-ponto enquanto o cafajeste fazia taxa no restaurante do vizinho. Velho de casa. Mesmo estando seguro do que eu estava fazendo, foi difícil. Comecei sem saber como começar, sem encontrar argumentos, até que a frase “você não faz mais parte da equipe” finalmente saiu de dentro de mim. Me senti vinte quilos mais leve. Foi meu momento de virada. Eu acabava de escalar o primeiro degrau da minha carreira profissional. No dia seguinte o clima era outro. Todos sabiam que eu também tinha a caneta na mão.

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