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Um filho de dono de restaurante (parte 8)

13 de dezembro de 2016

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Passando a direção

Sustentar aquela demissão não foi fácil. Afinal, eu era o filho do dono, e não o dono. Alguns dias depois, o cara apareceu pra falar em particular com meu pai e com meu tio. Não fui convidado, apenas observei a movimentação. Sem saber de nada, naquela mesma noite fui pego de surpresa: o garçom que eu demiti estava trabalhando como se nada tivesse acontecido. Fui direto no meu pai: “Pai, esse cara tá roubando a gente, outro garçom bate o ponto no lugar dele e ele faz taxa em outro restaurante!”, falei indignado. Ele jogou para o meu tio, que jogou de novo para o meu pai, que jogou pelos ares, e eu tive que engolir aquilo. Não fizeram por mal, claro. Era assim que as coisas funcionavam ali. Havia muito mais que normas ou leis envolvidas. Havia sentimento, havia o jeito Madalosso de ser, onde as emoções, e não as razões, guiam as tomadas de decisão: o garçom sustenta a família; ele é filho de ciclano; que é parente de fulano; que ligou pra se desculpar; que está arrependido; que trabalha com a gente há muitos anos; e a rescisão vai sair cara demais; pensando bem, ele não é má pessoa; blá-blá-blá. As mesmas infinitas desculpas se repetiriam muitas outras vezes em outras demissões que eu tentaria fazer. E eu, um empresário amador cheio de energia, cursando Administração de Empresas, condenava tudo aquilo. Eu queria implementar normas, controles e procedimentos, adotar o modelo Toyota de gestão que estudávamos em sala de aula. Eu ainda levaria muito tempo pra entender que a magia do Madalosso estava justamente nesse jeitão meio tosco, paizão que dá tudo, mãezona acolhedora, e que esse era o maior de nossos patrimônios: a relação familiar que, como um campo magnético, envolvia o restaurante e encantava cada um de nossos clientes. O jeitão “desgovernado” do Madalosso tinha seu ônus, mas um valor intangível que nenhuma faculdade ou livro de administração trazia em suas teorias.

Por mais que eu encontrasse resistência, aos poucos, eu avançava com minhas crenças.

Assessoria financeira daqui, consultoria de recursos humanos dali, programas motivacionais, manuais de integração, cartazes com missão, visão, valores, etc. Eu exercia a transformação de baixo para cima, e mesmo que eu trouxesse novas ferramentas de gestão, eu continuava executando as funções do velho e eterno dono de restaurante: ora eu ficava no caixa, ora eu estava no banco pagando duplicatas, ora eu fazia compras de louças na ponta de estoque, ora eu elaborava a carta de vinhos, ora eu pendurava os anúncios de emprego nos terminais de ônibus. Além, é claro, dos traslados às três, quatro, cinco da manhã, quando eu carregava garçons e cozinheiras na caçamba da minha camionete até deixar, um por um, em suas casas ao fim do expediente. Eu adorava essa parte. Conversávamos um pouco sobre a vida de cada um, sobre os sonhos de cada um, e cantávamos refrões de clássicos sertanejos, sentindo alguma nostalgia do passado cada um do seu. No fim do dia, éramos uma família.

Por outro lado, as desavenças com meu pai continuavam. Era mais difícil lidar com ele do que com a equipe. Nossa casa era a extensão do restaurante e vice-versa. Não só pela proximidade a casa fica no estacionamento do restaurante –, mas também pelo conteúdo das conversas à mesa, no corredor, no banheiro, no jardim, na garagem ou na sala de estar. “Beto, você ligou para o eletricista vir arrumar a bomba da caixa d’água?”. “Você deu retorno para aquele evento de duzentas pessoas em janeiro?”. “Você deu uma atenção especial para aquele senador que estava na mesa doze?”. Restaurante, casa, casa, restaurante, pai, patrão, filho, empregado, afeto, desafeto.

A única hora do dia em que não estávamos juntos era enquanto eu estava na faculdade.

Nem sempre. Certo dia, tomando cerveja depois da aula com alguns amigos num boteco do outro lado da rua, meu pai me ligou: “Beto, volte para casa já! Pegue um rodo e fique puxando a água das goteiras que estão alagando o Fadanelli“. “Mas pai, eu to com uns amigos aqui”. “Eu falei venha”. Com meu pai não havia dialogo, ordem era ordem. Senti ódio. Engoli o ódio. Fiquei com um nó na garganta. Passei o rodo com raiva naquele salão vazio escuro e cheio de goteiras madrugada adentro, enquanto a tempestade durou. Nossa convivência era critica, oscilava com enorme frequência e intensidade entre carinho fraterno e repulsa profissional. Cada vez ficava mais claro que não havia espaço pra nós dois.

Certo dia, tomando cerveja depois da aula com alguns amigos num boteco do outro lado da rua, meu pai me ligou: “Beto, volte pra casa já. Pegue um rodo e fique puxando a água das goteiras que estão alagando o Fadanelli”.

Então, passamos a nos dividir. Definimos, por várias vezes, que eu tocaria sozinho a Cantina Fadanelli e ele o Madalosso. Assim eu não interferiria em seu trabalho e ele não atrapalharia o meu. O acordo durava poucas semanas. Logo ele aparecia, dizendo: “Beto, vim dar uma olhada na manutenção de uma geladeira”. E eu não largava o osso do Madalosso. Era frustrante demais para mim imaginar que todas aquelas mudanças que consegui implantar seriam deixadas para trás. Os próprios funcionários me chamavam. “Cara, a gente tá precisando de você lá”, diziam. E lá ia eu, com alguma desculpa pronta pra justificar minha volta. E de repente, novamente, eu e meu pai, juntos e misturados.

A doença do meu pai

Nessa época a depressão do meu pai, até então um assunto velado, se agravou. E a doença, seus tratamentos e efeitos colaterais, vieram para dentro de casa pra quebrar nossos diálogos monotemáticos sobre restaurantes. As palavras “garçom”, “cozinheira”, “escala”, “movimento” e “ticket médio” deram lugar à “tristeza”, “frustração”, “melancolia”, “desânimo”, “sofrimento” e “morte”. O que parecia difícil ficou ainda pior.

Debatíamos entre nós, irmãos e mãe, o estado emocional do meu pai.  Da imagem de super-herói, passei a conviver com um pai fragilizado, cabisbaixo, de corpo curvado e com um suspiro de dor a cada passada. Um homem dilacerado por anos e anos de trabalho extenuante, sem tempo para si, que nunca se permitiu descansar. Um dia, ao falar sobre a doença num de nossos almoços em família, ele disse: “É minha gente, o restaurante resolveu cobrar a conta”.

Durante um bom tempo, as tentativas e erros dos medicamentos tarja preta tiveram efeito inverso e potencializaram a doença. Meu pai não dormia mais. Passava noites em claro perambulando dentro de casa. Cansado e enfraquecido, ele passou a trabalhar menos. No começo, não aparecia pelas manhãs. Depois, não aparecia à tarde. À noite, dava só uma passadinha. Até que faltou um dia inteiro. Dois, três. Um dia me disse: “Beto, o pai precisa que você fique no restaurante enquanto eu não estiver lá. Temos dois sócios, o tio e a tia, e você é meu representante. Chegue cedo e saia tarde, não podemos deixá-los não mão”. E lá ia eu, cheio de gás, o dia inteiro dentro do restaurante, seduzido pelo desafio precoce de ser, finalmente, o patrão. Uma novela que nunca teria fim. De repente, meu pai aparecia, eufórico e cheio de energia, decidindo coisas e dando ordens, assumindo novamente a cadeira de presidente que ele nunca quis deixar de ocupar. Por um lado, eu ficava feliz. Meu pai estava melhor, meu coração sorria aliviado. Por outro lado, eu era novamente rebaixado à posição de filho do dono, frustrado e sem serventia.

A estrada é longa e cheia de buracos, a carreta é pesada…

No escritório, nossas salas eram lado a lado. Numa manhã qualquer, depois de alguns dias afastado, ouvi meu pai chamar meu nome logo que cheguei pra trabalhar: “Beto, venha aqui”. Eu estranhei. Fiquei assustado, meio sem reação. Quando entrei em sua sala, meu pai ocupava uma das duas cadeiras do outro lado da mesa, e sua cadeira, maior e mais pomposa, estava vazia. Sobre o tampo de vidro havia um volante de Kombi, desses usados nos roda-rodas do parquinho infantil do restaurante. Ele falou: “Beto, sente na minha cadeira”. Eu, ainda sem entender nada, sentei. “Segure no volante”. Achando aquilo meio patético, tentei evitar. “Vamo, cara, segura firme esse volante, com as duas mãos!”. Eu segurei. “Agora, filho, leia esse bilhetinho que esta aí do lado”. Soltei apenas a mão direita pra apanhar o pequeno pedaço de papel. Li em voz baixa. Dizia: “Carlos Roberto, meu filho, sinto que você está preparado pra assumir essa direção. A estrada é longa e cheia de buracos, a carreta é pesada. Tenha cautela e paciência. Confio em você e estarei do seu lado sempre que precisar. O pai precisa se afastar por um tempo. Te amo. Um beijo do Carlet.” apelido de infância do meu pai. Olhei para ele surpreso, absolutamente mudo. Ele me fitava sorridente, com os olhos cheios de carinho, esperando em mim alguma reação de felicidade, como se estivesse me entregando o maior presente da minha vida.

Fingindo dirigir, gargalhei, solucei, chorei. Não era uma estrada. Era uma montanha-russa de sentimentos contraditórios dentro de mim.

Sim, claro, como eu queria aquilo: sentar na cadeira do meu pai! Mas eu sabia que sua rotina de trabalho ainda era o melhor – e talvez o único – remédio contra a depressão. Ao me passar a direção, ele estaria se entregando à doença, desistindo de tentar. Ficamos mudos por mais alguns instantes até que ele quebrou o silêncio: “Levante, filho, me dê um abraço!”. Levantei-me. Nos abraçamos. Ele beijou a minha testa e saiu. Sentei novamente. Segurei o volante. E fingindo dirigir, gargalhei, solucei, chorei. Não era uma estrada. Era uma montanha-russa de sentimentos contraditórios dentro de mim.

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COMENTÁRIOS
  • Oi Beto, nossa que emocionante...tenho os olhos cheios de lágrimas... Encontrei suas historias através da Eva dos Santos, eu moro em BCN ha muitos anos mas meus pais moram perto do Portal de Santa Felicidade ainda, o nosso referente de boa comida sempre foi o Madalosso, desde os velhos tempos e sempre imaginei tudo diferente, muito diferente. Nem de longe imaginei tanto sacrificio,tanta entrega e tanta simplicidade. É bonito de leer, porque faz parte de mim, a Cantina Fadanelli, o Madalosso e agora a gente acaba colocando uma cara a tudo isso. Esta útima parte tem um sabor agridoce, é triste mas ao mesmo tempo houve o reconhecimento tao esperado do seu pai...ansiosa esperando o próximo capítulo :)

  • Adorei saber teu caminho nos restaurantes. Cheguei no bairro em 1981 e acompanhamos o crescimento e reformas dos restaurantes etc.etc.Gostei demais desta leitura.Adorei.Parabens Beto.