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Um filho de dono de restaurante (parte 9)

26 de dezembro de 2016

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Me chamo Beto, Beto Madalosso

Não, eu não estava recebendo aquela direção em sinal de reconhecimento, por mais que parecesse ser. No fundo, eu sabia que meu pai passava a direção contra a sua vontade. Meu pai havia chegado ao fim da linha. Mais do que isso: havia passado do fim da linha. Talvez, se aquele movimento sucessório tivesse sido feito muito antes daquele dia, ele jamais tivesse chegado ao estágio que chegou. Eu imagino os anos de dias de angústia e noites em claro que meu pai teve que esperar até aquele momento minimamente adequado pra tomar a delicada decisão de deixar o seu posto. E eu era a sua única opção. Ele jamais passaria o bastão a um executivo de sangue desconhecido, até porque, sua participação societária não era a de um amigo de longa data ou a de um investidor em busca de resultados. Ele era um dos três irmãos. Havia muito mais do que trabalho envolvido, havia valores e códigos familiares tão fortes que convocar um profissional de mercado seria como dividir a cama com um estranho.

Além do mais, restaurantes são empresas difíceis de delegar.

São como filhos, demandam afeto. Restaurantes possuem alma, e almas não brotam de planilhas numéricas. Não foram poucas as vezes que vi meu pai cruzando o estacionamento no meio da madrugada pra ir até o porão do restaurante e apagar a luz do poste esquecida acesa ou para desligar uma câmara fria da qual era possível ouvir o motor funcionando de dentro da nossa casa. Com meus tios não era diferente. Todas as noites, a Flora lavava pilhas e pilhas de copos e taças até duas e pouco da manhã. “Prefiro lavar na pia, na máquina não ficam tão limpas”. No dia seguinte, lá estava ela, bem cedinho, preparando bacias imensas de nhoque ao lado de outras cozinheiras. Tio Severino, o faz tudo, consertava pessoalmente os motores das coifas, bocas de fogão empenadas, bombas hidráulicas, armários, geradores, etc. Foi numa dessas que quase perdeu a vida ao ter o rosto e mãos chamuscados após a explosão de um quadro elétrico enquanto ele fazia a manutenção. Ficou hospitalizado por alguns dias e saiu “pronto para outra”.

Executivos de mercado jamais fariam o mesmo. Por isso nunca foi possível contratar profissionais que se adequassem aos nossos “códigos de conduta”. Minha família esperava que um administrador de empresas com visão de negócios arregaçasse as mangas pra limpar um ralo entupido no meio da noite. Desejo utópico.

“Minha família esperava que um administrador de empresas com visão de negócios arregaçasse as mangas pra limpar um ralo entupido no meio da noite. Desejo utópico.”

Mesmo assim, meu pai precisava ir. Acabou cedendo seu lugar após ter ouvido diversos conselhos de diferentes pessoas orientando-o a parar. “Carlos, você precisa parar um pouco”, minha mãe, irmãos, médicos e clientes mais íntimos diziam. Ele mesmo sabia que havia caído no fundo de um poço e que estava distante demais da felicidade. Tinha uma família saudável, uma esposa companheira, um negócio de sucesso, imóveis adquiridos, etc. Porém, não tinha coragem de sair de dentro de seu próprio quarto.

A direção que eu segurava não era exatamente a de um restaurante. Tratava-se de uma instituição.

A rotina desse templo gastronômico começava cedo. Todas as manhãs, ainda nos primeiros raios de sol, entre seis e sete horas, uma fila de pessoas carentes e moradores de rua se formava em frente à porta dos fundos da nossa cozinha. Eram dezenas, talvez centenas deles, carregando sacos, bacias, tigelas ou pacotes de papel. Vinham comprar comida do dia anterior ainda em condições de consumo. A Lurdinha, braço direito da tia Flora, conhecia bem cada um deles, afinal, eram os nossos clientes mais assíduos: estavam ali, religiosamente, todos os dias. “Aquela ali, ó, é a Matilde, ela vem buscar comida para um asilo onde fica sua mãe. Aquela outra, com o cabelo preso, é a Mara, que pega comida para oito cachorros que tirou da rua e adotou. Aquele é o seu Nicolau, é viúvo, tá sem emprego e vem buscar comida pra alimentar os quatro filhos”, dizia Lurdinha, com orgulho por conhecer tão bem cada um que aparecia. Ela continuava: “Tem aquele ali, Beto, tá vendo? Aquele é o Rato. Lembra esses dias que roubaram os fios de cobre da placa frontal do restaurante? Então, foi ele. Todo mundo sabe. Ele é cara de pau mesmo, rouba aqui, rouba ali, arromba carros, invade as casas, mas, sabe, né, se a gente disser não, acaba sendo pior…”. O valor cobrado era simbólico. A cobrança foi instituída apenas pra conter uma desvairada fila de pedintes, a fim de colocar “ordem na casa”. Apareciam com alguns trocados e recebiam uma quantia de comida relativa (medida ocular) ao valor que traziam. Levavam risoto, maionese, frango, polenta, macarrão, etc. Às sete em ponto encerrava a distribuição e a porta da cozinha era fechada com ou sem fila. Todos eles já sabiam.

Logo após atender aos “pedintes”, era a vez das doações, digamos, oficiais.

Asilos, creches, e instituições de caridade com os mais variados fins. A delegacia do bairro e seus 20 detentos, inclusive, estava entre as beneficiadas. Eram 14 no total, duas por dia da semana. Cada uma tinha um tipo de demanda. Ou pediam sacos de arroz ou pediam massas, polenta pré-frita, óleo de cozinha, farinha, carcaça de frango, fubá, etc. As doações oficiais eram muito bem organizadas. Nutricionistas munidas de termômetros e pranchetas de controle apareciam em carros refrigerados pra fazer a coleta dos alimentos. Além das doações de comida, a Flora ainda dava uma ajudinha financeira aqui, outra ali, incluindo a Paróquia de Santa Felicidade e os patrocínios anuais para a realização das Festas da Uva e do Vinho.

Meu tio estava mais voltado às necessidades dos funcionários. Emprestava dinheiro para um, para outro e para aquele outro. Os motivos, às vezes legítimos, outras nem tanto assim, eram inúmeros. Ora era o carro quebrado, ora era o aluguel atrasado, ora era o falecimento de um parente, ora era a escola dos filhos. Com seu coração de fiador, mais da metade dos funcionários tinha dívida com ele. Segundo alguns garçons, o Tio Seve era um banco que não cobrava juros.

Assim como meus tios, meu pai também esteve envolvido em questões sociais. Certa vez, ao fazer uma enorme doação de mantimentos para famílias vítimas de uma enchente em Curitiba, ele recebeu a comenda do Exército do Paraná, e passou a ser tratado pelo carinhoso apelido de “Commendatore”. Mas sua maior atuação político-social estava ligada às associações de classe. Era membro do Lions Clube, da Associação Comercial do Paraná, do Sindicato de Hotéis e Restaurantes, e, com outros empresários do bairro, fundou, em 1987, a Associação Comercial e Industrial de Santa Felicidade (ACISF), da qual foi presidente no primeiro mandato. E, quase 20 anos depois, no momento em que se afastava do restaurante, ele ainda ocupava, em todas essas entidades, pelo menos uma cadeira do conselho deliberativo.

Por trás do objetivo de atender cada vez mais clientes, o Madalosso era um grande agente de ação e inserção social, que fomentava significativamente a economia do bairro, e que decidia, com outros líderes, políticas públicas que desenhariam o futuro de Santa Felicidade e, consequentemente, o futuro de Curitiba.

A direção que eu recebia, definitivamente, não era pra amadores.

Ainda naquela tarde, sentado atônito na cadeira do meu pai, o telefone tocou. “Beto, é uma ligação do presidente do sindicato para o Sr. Carlos, ele está?”, indagou a secretaria que ainda não sabia de nada sobre a “sucessão”. “Pode passar para mim. Aliás, qualquer ligação que chegar para o meu pai você encaminha para mim”, eu disse. “Olá, quero falar com o Commendatore!”, disse, do outro lado da linha, o presidente do sindicato. “Olha, meu pai não está, e eu estou respondendo por ele”. “Pois diga para ele que amanhã tem a reunião da diretoria pra debatermos as diretrizes para o segundo semestre do ano. Esperamos ele lá”, completou. À noite, ao voltar para casa, eu dei o recado. “Pai, ligaram do sindicato. Querem você numa reunião amanhã”. “Beto, o pai não pode ir. Você vai. Ouça atentamente o que eles dizem e assine junto com a maioria se precisar”, ele falou. E assim seria.

Existia um facilitador nisso tudo. Eu tenho o mesmo nome do meu pai, acrescentado por “Filho” no final. Então, na lista de presenças onde aparecia “Carlos Roberto Madalosso”, eu assinava ao lado com muita naturalidade, sem muitos questionamentos. Porém, não era com tanta naturalidade assim que eu era recebido nas reuniões. No início, toda vez que eu aparecia, os velhotes não pareciam muito satisfeitos. “Cadê o paizão?”, perguntavam com algum desapontamento. “Ele não pode vir, estou representando-o”.

Se aquilo era estranho para eles, para mim era um suplício.

Eu não entendia nada daquela linguagem corporativa, me sentia um estranho no ninho, como se um aluno da oitava série frequentasse as aulas de doutorado. Eu representava o Madalosso na Abrasel, no Sindicato, no Convention Bureau e na Associação de Santa Felicidade. De alguma maneira eu teria que me impor, ganhar meu espaço, e parar de assinar junto com a maioria só por assinar. Então, toda vez que aparecia uma brecha, eu dava um jeito de perguntar, opinar, chamar a atenção. E assim, curioso e inquieto, fui me formando e aprendendo os segredos dos negócios ao lado de grandes empresários. Empresários pelos quais eu sentia profunda admiração.

Passado algum tempo, minha palavra começou a ser ouvida com mais atenção. Eu já não falava apenas como representante do meu sobrenome, e sim como representante de mim mesmo. Fui deixando de ser o Filho do Carlos e me tornando o Beto, o Beto Madalosso. Bem nessa época, o destino pregaria uma peça: uma das cadeiras que meu pai deixou era a de Vice-presidente da ACISF. Um dia, o presidente viajou e, sem maiores explicações, passou alguns anos afastado sem mandar notícias. Eu (em nome do meu pai), seu sucessor imediato, me tornei presidente. Com 23 anos de idade passei a liderar reuniões com os antigos conselheiros que conheciam o bairro e suas histórias há décadas, como as palmas de suas mãos. Meu universo ganhava novas dimensões.

“Sem perceber, virei um ser político, um líder por acaso.”

Uma associação é o elo entre o privado e o público, entre indivíduo e estado. Sem perceber, virei um ser político, um líder por acaso. Passei a circular mais pelo comércio vizinho e a percorrer com bastante frequência as secretarias de Turismo, Urbanismo e Segurança, afim de exigir melhorias nas calçadas, nova pavimentação na avenida principal, policiamento noturno pra manter as lojas abertas até mais tarde, adequação na iluminação para pedestres, transporte público madrugueiro pra atender garçons e cozinheiras depois do expediente e, além dessas demandas consideradas mais urgentes, traçávamos diretrizes de desenvolvimento turístico para o futuro. Afinal, tratava-se do destino mais visitado de Curitiba e um dos bairros gastronômicos mais conhecidos do Brasil. Em setembro de 2004, mediei meu primeiro debate político com candidatos à Prefeitura de Curitiba em um clube aberto à comunidade. Osmar Bertoldi, Beto Richa, Angelo Vanhoni e Rubens Bueno, misturados aos demais conselheiros, formavam um círculo ao meu redor e expunham suas propostas. Não era nada fácil, confesso. Era preciso ter tarimba. Nesses momentos, a malícia e o jogo de cintura dos mais velhos me fazia falta. Então, algum conselheiro mais experiente, ao perceber minhas gaguejadas na hora do nervosismo, dava uma mãozinha pedindo a palavra e não deixava o baile parar. Tínhamos união. Criávamos pautas de reivindicações e elaborávamos cartas de compromisso para que os candidatos cumprissem com suas promessas. Aprendi cedo que cartas de compromisso não possuem valor na política brasileira, talvez em nenhum lugar do mundo. Candidatos eleitos nunca atenderam nem um terço das nossas demandas. Mesmo assim, era preciso continuar lutando.

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