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Um filho de dono de restaurante

24 de agosto de 2016

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Parentes ajudam. E se não quiserem ajudar são tidos como desertores

Sou filho de donos de restaurante. Sou neto, também. Sou sobrinho e primo. Acredito que a maioria das pessoas com quem conversei na vida, desde a minha infância, tinham alguma relação com restaurantes. Agradável? Sim. Desagradável? Também. Nem só das histórias românticas do cheiro da panela da nona vive uma pessoa que nasce dentro de um restaurante. Restaurante é o lugar que se confunde com a tua própria casa – e vice-versa – e você facilmente vai passar a vida sem saber a diferença entre trabalho e lazer. Isso é bom? Talvez. Uns dirão que sim; outros, ao saber disso, terão pesadelo.

Nasci no estacionamento do Restaurante Madalosso. Eu e todos os meus 27 primos de primeiro grau. As sete casas ficavam ali, como se fosse um forte ao redor de um castelo – castelo literalmente falando, já que a arquitetura do Madalosso foi, durante muitos anos, baseada em castelos medievais. Seis, das sete casas, são dos irmãos Helena, Flora, Severino, Nelson, Carlos e João – em ordem decrescente de idade –, e a sétima casa é a casa da Nona. Nona Rosa Fadanelli e Nono Antonio Domingos Madalosso. Foi na casa da nona que almocei todos os domingos da minha vida, dividindo a mesa com primos, tios, garçons, padres e quem mais aparecesse, até o dia que ela nos deixou. Depois disso todos os meus almoços de domingo foram no próprio restaurante, e, provavelmente, metade deles eu devorei em pé, dentro da própria cozinha, no meio do trabalho, andando pra lá e pra cá, tomando resto de refrigerante das garrafinhas que voltavam das mesas dos clientes. Nunca nem me dei conta. Meu almoço era irrelevante perante o andamento das coisas. Melhor dizendo: eu me preocupava muito mais com o almoço dos clientes do que com meu próprio almoço. Aprendi isso desde pequeno. Sempre foi assim.

Nasci no estacionamento do Restaurante Madalosso. Eu e todos os meus 27 primos de primeiro grau.

Donos de restaurante colocam os filhos pra trabalhar desde cedo. Eles acreditam que essa é uma ótima maneira pra ensinar as crianças, desde cedo, a “dar valor ao que têm”. “Isso aqui é teu, tem que aprender a cuidar”, diziam meu pai e minha mãe. Mas não só por isso. Como donos de restaurante passam mais tempo no trabalho do que em casa, eles fazem questão de levar a família pro trabalho, aliviando, assim, a culpa da pouca convivência. Não são poucos os restaurantes, bares ou lanchonetes, onde você vê filhos, sobrinhos, irmãos, esposas ou sogras do dono por lá, “ajudando” nos negócios. Usei a palavra ajudando porque esse é o termo: ajudando. Parentes raramente têm cargo definido, registro em carteira, horário pra entrar ou sair, e, quem dirá, têm salário. Parentes ajudam. E se não quiserem ajudar são tidos como desertores.

Abrir meu próprio restaurante acabou virando um desafio, um sonho em minha vida. Sonho que eu levaria quase vinte anos para realizar.

Comecei a ajudar com uns 13 ou 14 anos de idade. Como eu disse, eu não tinha salário, horário, nem função. Só tinha uma ordem: “vai ajudar pra aprender a dar valor”. Toda vez que eu estava à toa ou saia da linha, era o mesmo sermão: “tome jeito, vai ajudar no restaurante”. O ensinamento de valor entrou e ficou, se tornou um compromisso de mim comigo mesmo, e abrir meu próprio restaurante acabou virando um desafio, um sonho em minha vida. Sonho que eu levaria quase vinte anos para realizar.

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Um filho de dono de restaurante (parte 5)
Um filho de dono de restaurante (parte 4)
Um filho de dono de restaurante (parte 3)
Um filho de dono de restaurante (parte 2)

Um filho de dono de restaurante

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COMENTÁRIOS
  • Degustar a força da história de vida quando ela deixa nosso coração e ganha o mundo para ser apreciada por outros paladares é uma refeição e tanto. Enjoy the ride, parceiro!

  • Que alegria ver saindo o primeiro capítulo do livro que vai contar uma história interessantíssima. Eu a ouvi ano passado, em uma palestra sua, em uma livraria. Fiquei tão fascinada com ela que já perdi a conta para quantas pessoas eu a recontei. Quando esse livro for lançado, com certeza serei uma das primeiras na fila de autógrafos. Desejo sempre muito sucesso a vc Beto Madalosso, um menino iluminado, que nos proporciona muitas alegrias, mesmo que somente virtualmente. Beijo, Isabel Fogaça