Um jantar inesquecível nas Ilhas Faroe

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Foto: Vicente Frare

Sempre gostei muito de viajar e, ultimamente, me interesso cada vez mais por culinária e gastronomia. Então, nada mais natural do que unir paixões para viajar em busca de novos sabores, texturas e ingredientes. Foi nessa vibe que desembarquei nas Ilhas Faroe, um arquipélago semi-independente da Dinamarca no meio do Atlântico Norte a fim de conhecer o trabalho do chef Poul Andrias Ziska no restaurante Koks.

Sabia que a experiência consistiria em um menu-degustação com pratos elaborados unicamente com ingredientes provenientes do arquipélago. A base da filosofia de Ziska é de incentivar a produção local de alimentos e de valorizar os fazendeiros faroenses. Estava empolgadíssimo para experimentar os lagostins pescados na baía em frente ao restaurante e as algas criadas por fazendeiros marinhos. Curioso também estava para saber que gosto teriam o bacalhau e carneiro preservados com a técnica de fermentação chamada raest, típica dali. Fazer uma refeição em um restaurante como o Koks é como visitar uma exposição de arte. Você precisa deixar-se levar pelo que o chef artista quer te contar.

A experiência toda é como uma performance em que visão, tato e paladar são atiçados, criando sensações diferentes, algumas vezes contraditórias. Por isso gosto de ir sozinho, já que muita gente é cheia de mimimi. Se me servem formigas, lagartas e flores, eu como. Posso não gostar e até sofrer para engolir, mas considero parte da experiência. Faz parte da linguagem. Você passaria de olhos fechados numa exposição controversa na Saatchi Gallery? Eu não.

Se me servem formigas, lagartas e flores, eu como. Posso não gostar e até sofrer para engolir, mas considero parte da experiência. Faz parte da linguagem.

O Koks não é somente um restaurante nas Ilhas Faroe. É um disseminador de novos conceitos de gastronomia e um incentivador da economia local. Por causa de sua estrela Michelin, está com o livro de reservas completo e fez com que o turismo nesse remoto território tivesse um boom (pelo menos durante a primavera e o verão). Para chegar até ele é preciso ir até Kirkjubour, um vilarejo afastado. O restaurante tem uma vista panorâmica da encosta com as casas de teto de grama, os carneiros que pastam calmamente, o mar azul escuro e as outras ilhas do arquipélago. O salão é simples, à la Escandinávia.

Fui recebido em português pelo garçom que iria cuidar de mim. Ele havia ensaiado os diálogos e palavras ao longo do dia exclusivamente para que eu me sentisse em casa. Me acomodaram em uma mesa para uma pessoa, na frente da janela, com uma das melhores vistas. Mais um detalhe bem programado, já que estava sozinho, assim ficaria entretido com o fim de tarde no vilarejo. Tarde que nunca acabou, já que o sol nunca se pôs.

Escolhi a degustação com harmonização de vinhos. Foram 19 pratos, cada um com um formato diferente e uma história fascinante. Vinhos foram sete. Tudo muito lindo e saboroso. Chegou um ponto em que, devido ao álcool e ao overload de sensações, parecia que eu já não era mais eu. Me concentrei para não dar vexame. Lembro de alguns dos pratos como a cauda de lagostim e a bexiga de bacalhau, os outros se misturaram em minha memória, como as flores e os legumes, mas o conjunto foi inesquecível.

A fina lâmina de carneiro fermentado à la raest veio com um saquinho de algas secas que, ao serem espalhadas em cima da carne, deram o gosto de trufas negras. Serviram também algumas das larvas encontradas na paleta fermentada. Segundo eles, elas se alimentam da melhor parte da carne, por isso são suculentas. Fechei os olhos, agradeci a deus por estar ali, enfiei uma a uma na boca e engoli tudo com um sorvo de Pommard “Les Vieilles Vignes” 2013 da Borgonha. Pronto, passou. Quando terminei com o pratinho delicado de chocolate, nozes e tomilho já nem lembrava das minhocas dentro da minha barriga.

Os quatro dias seguintes que passei explorando as ilhas foram a continuação do jantar no Koks já que a imersão na cultura local continuava. Comi o raest outra vez, fui num sushi bar considerado o mais fresco do mundo (os japoneses que desmintam), comi outras flores e até um pouco de carne de baleia (que para mim foi mais complexo para engolir do que as lagartas do Koks). Senti que havia participado em algo que somente ali poderia experimentar e é isso que define uma refeição como essas.

Conto um pouco mais sobre as minhas andanças pelas Ilhas Faroe nas Travel Stories do meu site www.travelvince.com

Vicente Frare é administrador da Pulp Edições e editor do site TravelVince.com, divide seus dias entre Curitiba e o mundo atrás de novas experiências. Pratica CrossFit, ioga e meditação.

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