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Uma aventura na Índia

12 de abril de 2016

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Paola Seixas Gulin abriu a alma, o coração e o paladar pra contar sobre a viagem pelo país da vaca sagrada

O turbilhão de emoções já começou antes mesmo de chegar à Índia. Li livros, assisti a filmes, procurei no Google, pesquisei em guias, falei com todas as pessoas possíveis que já vieram para a Índia tentando me preparar para essa experiência tão… diferente. Me preparei tanto que cheguei a acreditar que sabia quase tudo que veria por aqui.

Bangalore (1) (2)Coitadinha de mim! Cheguei a Bangalore, uma cidade no sul da Índia com 6 milhões de habitantes e relativamente pequena se comparada com outras. Durante o trajeto aeroporto apartamento, liberei mais adrenalina do que quando pulei de paraquedas. Um trânsito sem regras e com muitas pessoas, vacas, carros, barracas, lixo, poeira, tuktuks, cachorros, buzinas, caminhões, ônibus caindo aos pedaços, motinhas desesperadas e por aí vai… Uma sensação que não existe Google, livro, guia ou filme que possa descrever e que me levou ao primeiro aprendizado aqui: você nunca sabe o que esperar. A Índia consegue te surpreender a cada dia, a cada costume, a cada experiência e é por isso que é tão encantadora.

Chocada com tantas diferenças e seguindo recomendações, resolvi ir com calma. Com calma no vestuário, nas perguntas, nos trajetos, nos programas, nos transportes, nas curiosidades e na comida! Fiquei à base de culinária ocidental, escovando os dentes com água mineral e andando com um desinfetante na bolsa.

E aí vem a bomba!

Bangalore (2) (2)Depois de uma semana tentando me ambientar, meu chefe vem com uma proposta bombástica: visitar universidades no interior da Índia. Nessa hora, aquela calma planejada foi substituída por um desespero interior. Vim para trabalhar em uma startup que promove empreendedorismo para jovens, já que a Índia está tendo um boom de população jovem que logo se transformará em uma demanda gigantesca de emprego que a estrutura atual não comporta. Portanto, para suprir essa necessidade, estimular a economia interna e transformar jovens em criadores de empregos e receitas, buscamos universitários com sonhos empreendedores e damos todo o suporte necessário para realizá-los. E como uma típica startup, a verba é superlimitada. Nada de luxo, conforto ou regalias. Lá fui eu, então, viajar mais de 10 horas de ônibus, com dois indianos, para o interior de um dos países mais caóticos do mundo. Eis que durante esse tratamento quase de choque, comecei a entender – ou pelo menos tentar – como a culinária diz muito sobre a cultura indiana.

A começar pelo tradicional café da manhã do sul, que é tão despertador quanto atravessar a rua nesse trânsito caótico: começamos com uma Masala Dosa, uma espécie de panqueca com recheio de batata com muuuuuito tempero (Masala = Tempero) e pimenta, que precisa ser mergulhada em dois molhinhos com muito mais tempero e pimenta. E, para acompanhar, o tradicional “Filter Coffe”, que é surpreendentemente maravilhoso!

A intensidade da pimenta…

Por mais que você implore por uma refeição “not spicy, pleeease”, na maioria das vezes essa opção não existe. Por mais que você tente disfarçar, o corpo dá sinais de desespero: o nariz começa a escorrer, os olhos começam a lacrimejar, o paladar já não sente o sabor de nada e depois é só rezar para que seu estômago e intestino recebam bem essa bomba. É mais fácil achar um indiano loiro do que um estrangeiro que se livrou de uma indigestão.

Mas chega uma hora em que seu corpo tem duas opções: se acostumar ou se acostumar. Do mesmo jeito que a gente tem que se adequar a um novo estilo de vida, abrindo a cabeça, deixando muitos de nossos costumes de lado e vivenciando o novo. Shorts, saias, vestidos e regatas já não fazem mais parte do meu guarda-roupa, virei uma pechinchadora oficial e não estou comendo carne de vaca.

Vaca sagrada!

Como em várias outras culturas, a religião dita as regras de comportamentos e costumes. Para muitos, grande parte do dia é dedicada a rituais religiosos. E na hora de escolher o cardápio, a religião é fator decisório.

Sim, a vaca é sagrada para os hindus, por acreditarem que ela é a “mãe de todos os deuses”. Sim, as vacas fiam perambulando nas ruas e deixam o trânsito ainda mais caótico! Mas sim, tem restaurantes que servem carne de vaca! E, também por questões religiosas, grande parte dos indianos é vegetariana. Mas aquele conceito de que comida vegetariana é sem gosto não pode ser aplicado aqui na Índia. Aliás, um dos únicos adjetivos que não podem ser atribuídos à gastronomia indiana é “sem graça”. Qualquer arroz, batata ou salgadinho é cheio de especiarias com sabores muito específicos. Cada prato leva uma média de 5 a 7 temperos e a cor é usada como medida para saber se está saboroso: quanto mais vermelho, melhor!

O poder das cores

Uma tradicional refeição indiana vem em um prato fundo junto com vários potinhos cheios de molhos diferentes. E se prato colorido é sinônimo de saudável, aqui na Índia cada refeição deixaria qualquer nutricionista orgulhoso! Para acompanhar, muito carboidrato! O arroz vem puro, para ser misturado com alguns desses molhos, e sempre tem um pão para ajudar. Hapati, Roti, Naan, Paratha ou Puri. Independentemente do nome esquisito, eles são maravilhosos e podem ter diferentes versões ou sabores, conforme seu gosto.

Comendo com a mão… o quê???

Comendo com a mão (1)E como se já não bastassem tantas diferenças de sabor, aqui a forma de comer também é diferente: garfo, faca e colher são substituídos pela mão, o que me levou a uma grande e difícil quebra de paradigma! Durante uma das minhas viagens, me deparei ao lado de um professor com longos cabelos brancos, em um restaurante universitário, com um prato cheio de comida na minha frente e nenhum talher. A solução foi copiar o que os outros estavam fazendo! Dando aquela olhada de canto, ia tentando aprender os passos, mas no fim a bagunça foi inevitável. Depois de algumas gafes, agora já peguei o jeito! Só se pode comer com a mão direita, porque a esquerda é impura. Para comer o arroz, tem que misturar o molho, fazer um bolinho na mão e colocar tudo na boca! O copo pode ser segurado com a mão esquerda, para não lambuzar ainda mais com a mão suja. E no final (ufa!!), eles geralmente servem um potinho com água e limão para você limpar a mão. As explicações para esse costume são variadas: tem quem diga que a comida fia mais saborosa, que existem substâncias nutritivas entre a unha e o dedo, que a digestão começa ainda antes de colocar o alimento na boca ou que a mistura dos diferentes ingredientes só é eficiente com a mão. Independentemente da razão, por mais esquisita que pareça, essa é mais uma das experiências que a Índia proporciona com sensações que nós jamais teríamos vivenciado nos nossos padrões.

Culinária e cultura

Templo Bangalore 2E em um país com mais de um bilhão de habitantes, 28 estados, 22 línguas oficiais e mais de 2000 dialetos, a diversidade é impressionante. Cada região tem suas próprias características, peculiaridades, paisagens, culturas e costumes. E a culinária não poderia ficar de fora. Junto com tantas diferenças vem mais um grande aprendizado indiano: não se pode generalizar nada aqui! Generalizar seria dizer que um país que representa quase 20% da população mundial age de determinada maneira, enquanto que uniformidade é uma coisa que a Índia não possui. Norte, sul, leste e oeste oferecem diferentes tipos de refeições, de acordo com as especiarias disponíveis, religiões, hábitos etc. E comida é motivo de orgulho: cada um defende com unhas e dentes sua gastronomia local. Dizer que algum prato é parecido com outro é tão ofensivo quanto dizer que o deus Ganesha é um elefante!

Banquete indiano

9. Street Food (1)Tem quem diga que a comida de rua é a mais saborosa, mas, apesar de gostar, tenho que discordar. Não tem nada melhor que uma comida caseira! E na cultura indiana, receber pessoas em casa é uma cerimônia que requer várias preparações. Por mais simples que seja, eles sempre vão te oferecer milhares de coisas para comer. E se você acha que sua avó te enche de comida, precisa visitar uma casa indiana. Eles não param de servir, nem querem saber se você já está satisfeito e dizer “não” é motivo de ofensa. Então a dica é: vá sem comer nada antes! E diante de tantas experiências, tentativas e aventuras, tenho certeza de que ainda não conheço nem 1% da Índia. Cada dia é um novo aprendizado, uma nova surpresa e um novo motivo para sorrir. Por isso que o melhor conselho que posso dar para qualquer pessoa que queira vir para cá é: venha com cabeça, coração e paladar abertos para uma das experiências mais especiais da sua vida.

Um legítimo chai!

Os “americanizados de plantão” podem ficar tristes, mas um autêntico Chai não tem nada a ver com o servido no Starbucks. Ele é muito mais simples, prático e tão importante quanto o cafezinho brasileiro. Vale tentar em casa:

Dando corpo

Ferva a água e coloque chá preto a gosto (em folhas! O sachê é quase uma ofensa!).

Dando cor e cheiro

Deixe a água ferver mais um pouco, pegando todo o aroma e cor das folhas.

Toque final

Acrescente o leite, colocando o equivalente a 20 a 30% da quantidade total de água.

Se quiser, pode adicionar açúcar. Pronto! Agora é só peneirar e desfrutar um verdadeiro chai! Menos comuns, as versões de Masala Chai também estão disponíveis e podem incluir gengibre, cardamomo, canela, cravo e, claro, pimenta!

Paola Seixas Gulin já foi modelo, é administradora, trabalhou em uma grande corporação e foi para a Índia mostrar que o mundo precisa mais do que apenas boas intenções. Precisa de atitude.
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