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Viagem de moto ao Atacama por Beto Madalosso

31 de outubro de 2016

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6.100 Km entre Curitiba e San Pedro de Atacama, passando por 4 países: Brasil, Paraguai, Argentina e Chile

Atacama, outubro de 2016. Se me pedissem uma dica sobre o Atacama, minha dica seria esta: vá por estrada. De moto, carro ou bicicleta, vá por estrada. Eu não tenho nenhuma outra dica. Abra sua alma, encha bem o tanque, compre mapas pelo caminho e deixe o mundo guiar você. Não existem dicas neste texto ou em outros guias de viagem que superem as dicas de frentistas, garçons, recepcionistas, camareiras, ou daquele mochileiro solitário que você vai encontrar no caminho. Não pela qualidade da dica em si, mas pelo prazer de viajar na própria viagem, sem hotéis agendados, sem saber o cardápio de cada dia, sem ter ideia da distância entre postos de gasolina. Enfim, sem expectativas. Quando não temos expectativa, tudo surpreende, e perder-se não é perda de tempo, mas uma nova descoberta.

Acabei de voltar do Atacama. Eu e a Julia. De moto. Foram 6.100 Km rodados (ida e volta de Curitiba a San Pedro de Atacama), por 4 países (Brasil, Paraguai, Argentina e Chile), em 15 dias de viagem. Fiquei sem sinal de celular praticamente o tempo todo, gerando profunda desconexão do cotidiano e uma imersão mais potente na viagem em si.  Neste momento, de volta a minha casa, sentado em minha escrivaninha, reviro as mais de mil fotos e vídeos gravados em nossas maquinas fotográficas. Quebro a cabeça pra escolher o que e como postar.

Ei, mas não esqueça: a ideia não é dar dicas do que você deve fazer. A ideia é simplesmente inspirá-lo a viajar POR ESTRADA, com seu próprio mapa, seguindo dicas aleatórias, até chegar em San Pedro de Atacama.

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O Paraguai

Algumas fronteiras e estradas são, digamos, enigmáticas. Para nós, brasileiros, fronteiras e estradas paraguaias levam esse rótulo. Dezenas de vezes ouvi pessoas dizerem para “não viajar pelo Paraguai porque as estradas são péssimas, os policiais são corruptos, não tem nada pra ver… não vale a pena”. Acho que foi justamente isso que me fez querer atravessar de moto o Paraguai. E que prazer! Não é de hoje que eu adoro o caos da Ciudad Del Este. Há vida no caos! Aquilo pulsa! Milhares de moambeiros, sacoleiros, mototaxis, contrabandistas, traficantes, policia armada, barracas caindo aos pedaços, lojas de luxo, carrões, magnatas, miséria, piolhos, esgoto a céu aberto, UFA! A criminalidade que paira sobre a Ciudad Del Leste me seduz.

Cruzamos a Ponte da Amizade e rodamos 35 Km até que tive um estalo! “Não fizemos nossa entrada oficial no país”, falei para a Julia. Ora, voltamos até a fronteira para os trâmites na Aduana. Papelada pronta, seguimos pelos campos paraguaios. Estrada boa. Bem decente, eu diria. Logo fui engolido pelo tráfego desordenado e comecei a gostar da brincadeira. O dia de viagem fluiu bem, e a lenda de que a polícia paraguaia é corrupta não se fez verdadeira para nós. Em nenhum momento fomos parados, nem na ida nem na volta. Vá com calma e vá atento, mas não desvie o Paraguai.

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Cotações de porta em porta

Não carregamos barraca, nos hospedamos apenas em hotéis. Hotéis de estrada são sempre uma surpresa. Como eu disse, nós não fazemos reservas prévias. Acordamos cedo todos os dias, tomamos café, amarramos as malas na moto e saímos. Se o dia está bom, fluido, sem chuva ou outros transtornos, a gente resolve ir mais longe; se as condições não são favoráveis, a gente roda menos. Sempre que chegamos em cada cidadezinha, fazemos cotações de porta em porta. Além de perguntar o preço, pedimos dicas de outros hotéis para o próprio recepcionista de cada hotel e, assim, rodamos a cidade em busca do melhor custo x beneficio.

Às vezes, é a própria qualidade do hotel que nos faz ficar ou partir. Numa das noites, paramos num hotelzinho, o único que encontramos na cidade de Monte Quemado, bem no meio dos infernais Pampas Argentinos. É tão quente viajar por ali que uma das cidades da região se chama Pampa Del Infierno. A temperatura até o sol se por varia entre 38 e 40 graus, o que faz o suor escorrer e impregnar as roupas com poeira, monóxido de carbono e mal cheiro. Nada de mais. Quem viaja de moto até gosta disso, afinal, um pouco de mal cheiro também é sinal de que você está livre dos compromissos do dia a dia. Lavar peças de roupa no chuveiro do hotel e deixá-las secando amarradas sobre a moto no dia seguinte ajuda a amenizar.

Não existem dicas neste texto ou em outros guias de viagem que superem as dicas de frentistas, garçons, recepcionistas, camareiras, ou daquele mochileiro solitário que você vai encontrar no caminho. Não pela qualidade da dica em si, mas pelo prazer de viajar na própria viagem, sem hotéis agendados, sem saber o cardápio de cada dia, sem ter ideia da distância entre postos de gasolina. Enfim, sem expectativas. Quando não temos expectativa, tudo surpreende, e perder-se não é perda de tempo, mas uma nova descoberta.

A Cordilheira dos Andes

Acordei animado em Salta, era dia de cruzar a Cordilheira dos Andes. Meu desejo por mais aventura me fez escolher a estrada de chão rípio ao invés de asfalto. Viajar pelo rípio exige mais técnica e muito mais tempo, já que a velocidade média cai para menos da metade. Mas vale a pena. A estrada entre Salta e San Antonio de Los Cobres é vazia, praticamente intransitável, e a integração com a natureza ou a falta dela nos carrega pra outro mundo. Areia, pedras vermelhas imensas espalhadas como meteoros por todos os lados, rebanhos de lhamas e bodes, riachos, vilarejos improvisados, casas de barro e sem luz elétrica, e, claro, as onipresentes igrejinhas em qualquer sinal de civilização. Encantados, parávamos de tempos em tempos pra filmar e fotografar, como se o dia não tivesse hora pra terminar.

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Argentina

Já passava das três da tarde quando chegamos em San Antonio de Los Cobres. Quando me dei conta, percebi que nosso timing nos colocava em situação de perigo. Decidi, então, seguir para Susques. A ideia era sair do rípio e viajar por asfalto, já que levaríamos muito mais tempo pra cruzar a cordilheira por aquela estrada truncada, composta por areia e pedras.

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Chegamos em Susques às cinco da tarde. Abastecemos a moto e enchemos nosso galão de gasolina reserva. Postos de gasolina, diferente do Brasil, são raros na Argentina. “Julia, o ideal é a gente ficar por aqui, não podemos cruzar a cordilheira à noite. Lá em cima faz 10 graus negativos, e a gente pode morrer congelado”, falei. Susques é uma cidade minúscula, sem qualquer estrutura, a não ser por um posto de gasolina e… um hotelzinho. Hotelzinho abençoado, que rejeitamos. “Vamos atravessar, não quero parar aqui neste fim de mundo. A gente consegue”, ela sugeriu. E foi justamente a rejeição do hotel na cidade de Susques que nos fez tomar uma decisão inconsequente e imprudente, e, sem exagerar, passar perto da morte.

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Paso de Jama

Seguimos. Chegamos à Aduana do Paso de Jama meia hora antes do fechamento (ela fecha todos os dias, às 8 da noite). Documentos carimbados, burocracia finalizada. Partimos. O Paso de Jama fica a 4,2 mil metros de altitude. Frio, vento, medo. Dali a estrada serpenteia até se perder no meio da cadeia de montanhas. Sobe a 4.900 metros e, pra chegar a San Pedro de Atacama, ainda faltavam 160 Km. Do sol, sobrou apenas o alaranjado que refletia em algumas nuvens que manchavam o profundo céu azul. Estrada vazia. Penumbra. Medo. Lá fomos nós, embrulhados em jaquetas e capas pra quebrar o vento. Veio a escuridão. O vento congelante assobiava pelas frestas dos nossos capacetes. Uivos da morte que assombram as noites do Deserto do Atacama. A Julia tremia. Tremia de frio. Meu GPS indicava a altitude e a distância pra chegar. 4.500 metros, 4.600 metros, 4.700 metros…140 km, 130 km, 120 km… Eu não parava de subir.

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Senti a ponta dos meus dedos congelar

Senti a ponta dos meus dedos congelar. Parei de sentir os dedos. Preocupado com a situação da Julia, de tempos em tempos, eu diminuía a velocidade e gritava: “Julia, tá bem? Tá bem?”, eu insistia, esperando que ela respondesse alguma coisa. Até que, numa das vezes, ela parou de responder. Sua tremedeira mudou de ritmo, ficando mais intensa e espaçada. “Ela está tendo convulsões”, pensei comigo. Parei a moto. Tentei olhar para o seu rosto naquela escuridão. Ela estava chorando e não conseguia responder. Fez um leve sinal com a mão esquerda, ordenando que eu seguisse em frente. Entrei em desespero. Aqueci meus dedos no motor da moto até senti-los novamente. Abri a viseira do meu capacete, afim de enxergar melhor, e acelerei pra chegar o mais rápido possível em San Pedro de Atacama. Rezei pra não ter problemas mecânicos. Se parássemos ali, não ia sobrar ninguém pra contar história. Depois de uma hora e meia de angustia, avistei, lá em baixo, as luzes de San Pedro. “Julia! Julia! Julia!!!! Tá lááááá!!! Estamos chegando! Falta Pouco!!!”, gritei com todas as minhas energias. Ela não respondia. Sessenta quilômetros separam os picos da cordilheira da cidade de San Pedro. A altitude despencou e a temperatura ficou mais amena. Logo que vi os primeiros hotéis, saltei da moto enquanto ela continuava com olhar apático, quase sem reação. “Senhor, tem quarto livre para hoje?”, perguntei na primeira hospedaria que entrei. A resposta foi positiva. Quando voltei, a Julia estava sentada na calçada, encolhida, como se tentasse se proteger de alguma coisa. Eu disse: “Vamos, achei um hotel, você precisa tomar banho”. “Eu não quero sair daqui, quero dormir aqui, não me incomode”, ela falou, visivelmente fora de si. Arrastei-a para dentro do hotel e, depois de um chá quente e alguns minutos de aquecedor ligado, ela se recuperou. Foi um susto. Que susto! Hotéis melhores viriam, mas foi esse que salvou a nossa viagem de uma possível tragédia.

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San Pedro de Atacama

Na manhã seguinte, a vida renasceu em San Pedro. Tomamos nosso café e saímos pelas ruelas, batendo pernas em meio a turistas europeus, americanos, japoneses, chilenos e brasileiros, que se amontoam nas agências de viagem da Rua Caracoles, a rua principal. Entramos num restaurante chamado Delicias de Carmen, onde abri meu mapa e mostrei pra uma garçonete. “Sugira pra gente os lugares mais legais pra visitar aqui em San Pedro”, eu pedi. E ela, com uma caneta, rabiscava em círculos e linhas e explicava o porquê de cada sugestão. E foi com aquele mapa, todo riscado, que visitamos, guiados por nós mesmos e sem agências de viagem, alguns dos melhores destinos de San Pedro de Atacama.

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Mas nada, NADA!, é tão surpreendente quanto a estrada. A estrada que liga San Pedro a Susques, aquela que cruzamos a noite na ida, foi, sem duvida, a responsável pelos melhores e piores momentos de nossa viagem. No caminho de volta, fomos mais prudentes. Saímos cedo de San Pedro afim de chegar ainda durante o dia a Purmamarca, o vilarejo das montanhas de sete cores. Nos 500 Km que separam as duas cidades, testemunhamos os espetáculos da natureza mais marcantes de nossas vidas.

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Assunção, uma cidade pra morar

Agora, de todas as cidades que passamos, se eu tivesse que adotar uma cidade pra morar, minha cidade seria Assunção. Por tudo! Por sua riqueza e sua pobreza; por seu conservadorismo e modernismo; pelos hermanos que nos abraçam com olhares de verdadeiros hermanos. Uma cidade que tem esgoto a céu aberto e é cosmopolita ao mesmo tempo. Descolada, alternativa. Escolhemos Assunção, nossa penúltima parada antes de chegar em casa, pra passar 3 dias inteiros e fazer o que nos fez tanta falta: lavar as roupas e desligar a moto. Do hotel bom e bem localizado, saímos caminhar. Shoppings, centro histórico, bares, feiras e restaurantes. Assunção falou nossa língua, nos convidou a ficar, nos convidou a voltar. Assunção foi a cidade que tomou conta de nossos imensos corações latino americanos.

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E por isso eu viajo

E por isso eu viajo. Viajo porque gosto da chuva que cai, da brisa que seca, do sol que incendeia e queima a minha pele. Pele que sua suor amargo, que escorre no rosto e encharca minhas roupas. Gosto do cheiro. Cheiro que fica. Das cocheiras mijadas, das matas queimadas, das chaminés cansadas. Gosto do gosto. Gosto de fuligem. Fuligem de caminhão que ofusca as crianças humildes na beira da estrada, que acenam, que sonham, que querem ir junto. Aceno de novo. Não posso parar. Sou um passageiro neste lugar. Então acelero. Acelero pelo caos que pulsa. Nas periferias, nas fronteiras, no som da língua estrangeira. Não tenho passado. Passo. Passo batido. A estrada se abre. Me convida. Me abraça. Aumento o som, a guitarra explode. Minha garganta grita. Grita de novo. Grita mais alto. Minha alma evapora, vira poeira. Carrega meus medos que ficam para trás. O sol se põe. Sinto vazio. Profundo e sombrio. É a noite que cai. É a lua que nasce e reflete o azul do verde dos campos. Lá longe um novo destino. Luzes florescem. Abro a viseira. A liberdade entra. Me abraça, me engole, me ilumina. Sou um ponto de luz que risca, que passa e que some de novo. Não quero que acabe. Acelero. Pleno. Feliz. Acelero.

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Conheça os 15 pratos (ou comidas) que o Beto e a Julia encontraram entre Curitiba e San Pedro de Atacama

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COMENTÁRIOS
  • Excelente narração. Sou vidrado em viajar de carro. Eu e minha esposa já fomos para Bariloche, Santiago, Buenos Aires, Montevidéu (de carro e datas diferentes). Parabéns