Whatafuck, por André Bezerra

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Hambúrguer de Costela com Bacon. Foto: André Bezerra

Foi no verão de 2010, janeiro: três amigos saíram para um pedal na praia, em Guaratuba: o Guilherme, o Vina e o Lela. Depois do pedal, bateu a fome e pararam em uma lanchonete para um prensadão. Ao olhar para o milho e a ervilha no sanduíche com cara de podrão, o Guilherme suspirou e a conversa transcorreu mais ou menos assim:

– Por que os caras não montam um sanduíche decente? Para que colocar ervilha e milho no sanduba? Olha para esse guardanapo, não dá para limpar a boca, só espalha, é um espalhanapo.

– Por que você não abre tipo um Mc Donald’s?

– Prefiro abrir algo diferente, para ir na contramão do Mc.

– Vamos pensar num nome.

– Na contramão do Mc, o nome tem que começar com o M, mas ao contrário, de ponta cabeça.

E o Guilherme soltou logo de primeira:

– Tipo um W? Whatafuck!

A partir dali, o lanche virou celebração. Os três brindaram nos copinhos de plástico, sobre seus prensadões e entre muitos espalhanapos, o batismo daquela que, dali a cinco anos, seria a hamburgueria que mudaria a maneira dos curitibanos se relacionarem com a comida de rua.

A primeira experiência do Guilherme Requião com a gastronomia foi na Disney, onde trabalhou em uma hamburgueria no parque, como intercambista. Depois embarcou em um navio, onde foi auxiliar de garçom. “Eu gostava da função porque o auxiliar entrava mais na cozinha do que o próprio garçom, que tinha que ficar nas mesas”, disse Guilherme.

No dia seguinte do pedal seguido de prensadão, o Guilherme reencontrou a Paola, ex-namorada de adolescência. Em pouco mais de um ano, estavam casados e abriram o Guiolla, junção dos nomes dele e dela. Em um ambiente bacana no Batel, passaram a vender belas criações de burgers. Um dia, o Daniel Mocellin ofereceu serviços de redes sociais. Juntos, Guilherme e Daniel realizaram um trabalho bacana. O Guiolla ia bem e os amigos Vina e Lela costumavam aparecer. Normalmente em bermudas e camisetas de bandas de rock, chamavam o Guilherme e pediam: “A gente quer um Whatafuck”. O próprio Guilherme explica: “Eles queriam aquele hambúrguer mais simples que a gente ficou pensando em janeiro de 2010. A ideia, aliás, nunca saiu da minha cabeça, sempre fiquei elaborando mentalmente”.

Com muitas soluções criativas e alguma improvisação, o fato é que levou somente 45 dias para que o investimento se pagasse

Em 2014 o Daniel chamou atenção do Guilherme para o movimento que uma casa vinha gerando na Vicente Machado, onde ele sempre parava para uma fatia de pizza com chope gelado. Era a segunda unidade do Pizza, que havia aberto a primeira casa na Trajano Reis. Um pouco cético no início, Guilherme acabou concordando que a proposta era atraente. A ideia de um lugar para servir o hambúrguer simples e “com uma pegada de rua” ficava mais latente cada vez que descia a Vicente Machado.

Guilherme Requião e Daniel Mocellin passaram a entrar nas pequenas lojas e boutiques ao longo da avenida, perguntando se os donos topariam negociar os pontos. Em três dias já haviam recebido sinalização de interesse de uma boutique de artigos para banho e de uma browneria. O Guilherme sacou uma parte do dinheiro que tinha no Guiolla e o Daniel vendeu a sala comercial onde trabalhava. Com investimento curto e um planejamento bem detalhado em mãos, começaram a levantar o Whatafuck da Vicente Machado. Como o dinheiro não era muito, algumas soluções surgiram da necessidade. A cozinha fica em cima e os pedidos são feitos embaixo, então precisariam de um passa-carga, um pequeno elevador para descer os pedidos. Custava muito caro. Tiveram a ideia do escorregador de hambúrgueres, a gravidade se encarregaria do “serviço pesado”. Nascia um equipamento exclusivo, mais uma das dezenas de sacadas que formam a hamburgueria.

Em 20 de maio de 2015 o Whatafuck foi inaugurado na avenida Vicente Machado, quase esquina com a Presidente Taunay. A multidão se aglomerava tanto na calçada, em busca do hambúrguer simples e delicioso de dez reais, que o jeito foi convidar um amigo carismático para chamar os nomes dos clientes pelo megafone, para que viessem retirar seus pedidos. Espirituoso, ele brincava com a moçada, criava apelidos, impulsionava as vendas. Foi outro sucesso com a marca registrada Whatafuck e o megafone ainda aparece na comunicação gráfica dos eventos. A prefeitura proibiu o equipamento, entraram os painéis digitais.

Com muitas soluções criativas e alguma improvisação, o fato é que levou somente 45 dias para que o investimento se pagasse. Perguntamos ao Guilherme a quê ele creditaria esse fenômeno em pleno ano de crise: “Curitiba tinha uma demanda reprimida pela comida de rua nesse modelo. A própria crise ajudou, além da proibição de fumar em lugares fechados e a cultura natural da cidade de buscar cerveja artesanal.”

Dois anos e meio transcorridos da inauguração do Whatafuck, o Guilherme saiu do Guiolla, que segue sob o comando da Paola, hoje ex-esposa dele. A hamburgueria imaginada em volta da mesa do prensadão de Guaratuba vem prosperando e expandindo a olhos vistos. A dupla de sócios abriu o segundo Whatafuck, provocando nova corrida de investidores para abrirem casas com comida de rua em volta, a exemplo do que aconteceu na Vicente Machado. Dessa vez no Shopping Hauer. “Conseguimos manter segredo por dois meses. Quando descobriram que haveria outra unidade do Whatafuck ali, todos os demais pontos do shopping foram negociados para empreendimentos com comida de rua”, declarou Guilherme. Então veio a Roots – batatas fritas e chope – vizinha de parede do Whatafuck Vicente, a Whata Store – boutique com produtos, em sua maioria da marca Whatafuck, além de chope e drinques – e as novidades para 2018 são a Roots Shopping Hauer e a primeira Whatafuck São Paulo.

Na Whata Store é possível encontrar growlers, camisetas, bonés, óculos e tênis Whatafuck. Os óculos foram desenvolvidos pela Evoke, os tênis são criados e produzidos pela curitibana Öus, tudo em regime colab entre as marcas. A Whatafuck produz os próprios chope e cerveja. Os tênis trazem estampas inspiradas na cerveja e seu solado é feito com malte da Whatafucking Beer.

Como dizem na linguagem popular: “é um bebê que nasceu com fome”. Em inglês, língua que o Guilherme conhece a ponto de ter dado aulas, um americano que ouvisse a história deste belo empreendimento exclamaria para todo mundo ouvir:

“Whatafuck man?!”

Whatafuck 

Vicente

Av. Vicente Machado, 845, Centro
Terça-feira, 18h às 00h30
Quarta-feira a Sábado, 17h30 à 1h30
Domingo, 17h30 à meia-noite

Shopping Hauer

Rua Cel. Dulcídio, 739, Batel
Terça-feira, 18h às 00h30
Quarta-feira a Sábado, 17h30 às 2h
Domingo, 17h30 às 00h30

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André Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra