Páscoa 2026: estratégia, design de experiência e gestão de crise no mercado de chocolates

A Páscoa é, tradicionalmente, a grande festa da chocolataria. No entanto, o cenário de 2026 impõe uma maturidade de gestão inédita. O setor enfrenta hoje três grandes desafios: a alta histórica nos custos do cacau, a mudança no comportamento de saúde do consumidor e a necessidade constante de diferenciação em um mercado cada vez mais concorrido.

Para entender como essas variáveis estão sendo geridas, a Tutano conversou com quatro empresárias que são referência no setor em Curitiba:

  • Hagi (Isabel Hagi Oda): especialista em torrones e chocolates, foca no resgate de técnicas ancestrais e no uso de cacau nativo da Amazônia.
  • GAaFeR (Valdene Webber): com um olhar sistêmico sobre o negócio, aposta em inovação de produto, narrativas emocionais e experiência de varejo.
  • Roberta Schwanke: conhecida pela versatilidade e agilidade em traduzir tendências globais e menus abrangentes, que atendem desde a sofisticação de grandes presentes até pequenas lembranças.
  • Di Érica – Atelier de Doces (Erica Trica Fedat): à frente de um atelier autoral e premiado, prioriza a escuta ativa e a criação espontânea para gerar memória e afeto.

Nesta análise, exploramos como elas transformaram esses obstáculos em pilares de sustentação para suas coleções, passando pelo design de experiência, a engenharia de custos e o novo perfil do consumidor.

1. Design de produto: do conceito à experiência de consumo

A criação de uma coleção de Páscoa deixou de ser apenas sobre “sabor” para se tornar sobre posicionamento estratégico.

Hagi: foca na exclusividade e no rigor técnico. O destaque é o ovo de laranja confitada, um processo de alta complexidade que leva 20 dias de trabalho para preservar o sabor e o brilho natural da fruta. É um produto de edição limitadíssima, onde o valor está no cuidado extremo em cada etapa e no uso de cacau de origens específicas do Pará (Tuerê e Mocajuba).

GAaFeR: trabalha a inovação através de collabs de alto impacto. A PigBox, em parceria com a Casa do Torresmo, é uma narrativa regionalista que conecta o chocolate à cultura do Sul do Brasil. Ao unir chocolate ao leite com torresmo e bacon, a marca utiliza a ousadia para reforçar seu posicionamento e criar uma experiência sensorial que foge do óbvio.

Roberta Schwanke: propõe que o novo viés da confeitaria vai muito além da combinação de sabores. A grande inspiração deste ano é a textura. O menu foi estruturado para apresentar a textura em diversos formatos — de mimos a grandes presentes — dando um protagonismo inédito à crocância e trazendo técnicas como a mousse francesa para o universo dos ovos de colher.

Di Érica – Atelier de Doces: a coleção “Allegria” foca na leveza e no entusiasmo, inspirada por uma paleta de cores vibrantes. Mais do que produtos isolados, a marca apresenta um catálogo que convida ao rito da celebração, incluindo bolachas em aquarela para o público infantil e ovos premiados, como o L’Eclet de Mil Folhas, que foca na construção minuciosa de camadas de sabor e textura.

2. Gestão de custos: estratégias para driblar a alta do cacau

Com a cotação do cacau em níveis históricos, a sobrevivência do negócio exigiu precisão financeira e criatividade produtiva.

  • Hagi (eficiência e planejamento): recusou atalhos ou redução da qualidade. A estratégia foi o planejamento de compras antecipado e o reforço nas relações diretas com os produtores, preferindo o crescimento consistente à redução do padrão de cacau que define a marca.
  • GAaFeR (engenharia de portfólio): trabalhou em três frentes: equilíbrio de margens no mix de 40 produtos, eficiência produtiva para reduzir desperdícios e a valorização da experiência para que o cliente perceba valor além do preço do chocolate.
  • Roberta Schwanke e Di Érica – Atelier de Doces (substituição estratégica de insumos): ambas exploraram recheios e complementos onde o chocolate não é o único protagonista. O uso de crocantes, frutas liofilizadas, mel e sabores como Martha Rocha ou frutas amarelas permitiu diversificar o cardápio e oferecer novas experiências sem depender exclusivamente da commodity pura.

 

3. Comportamento do consumidor: canetas emagrecedoras e a compra planejada

O ovo de Páscoa não é uma compra de impulso, mas um rito de presente. Por isso, o impacto de medicamentos inibidores de apetite é filtrado pelo posicionamento emocional de cada marca.

  • Hagi (indulgência e qualidade): percebe um consumidor mais consciente que prefere “consumir menos, mas melhor”. Mesmo em dieta, a escolha recai sobre produtos especiais com ingredientes bem trabalhados, onde a qualidade compensa a menor frequência.
  • GAaFeR (saudabilidade e inclusão): acompanha o tema com atenção e já desenvolve produtos com maior teor de fibras e proteínas, além de ampliar as linhas diet e zero lactose, dialogando com o novo comportamento sem perder o prazer do chocolate.
  • Roberta Schwanke e Di Érica – Atelier de Doces (flexibilidade de tamanhos): Roberta notou que as clientes esperam o domingo de Páscoa para a exceção, mas passou a oferecer mais opções de tamanhos menores. A Di Érica também investe em porções menores e produtos para compartilhar, respeitando a busca por equilíbrio.

 

4. Inovação: o diferencial competitivo

Como as marcas se sustentam para além do produto?

  • Hagi: sustenta sua base criativa no aperfeiçoamento da técnica e no resgate de processos de receitas originais quase esquecidas. A inovação está na valorização do sabor brasileiro (frutas, mel, cacau) e no orgulho de participar ativamente do ciclo do cacau nativo, que mantém a floresta em pé e gera trabalho digno para povos originários e ribeirinhos.
  • GAaFeR: a inovação é sistêmica e dividida em três pilares: produto (como a linha de tablets de erva-mate, vinho e cerveja), narrativa (organização emocional da coleção) e experiência (estética das lojas, embalagens e treinamento). O foco é não competir apenas pelo chocolate, mas pela capacidade de ser lembrada pelo cliente.
  • Roberta Schwanke: o diferencial está na abrangência do menu e na agilidade em traduzir desejos do mercado. A marca atende desde quem busca a sofisticação de grandes presentes e sobremesas estruturadas para a ceia até quem procura pequenas lembranças com alto valor agregado.
  • Di Érica – Atelier de Doces: a inovação nasce do “não engessamento” do atelier. A criação acontece no dia a dia, na escuta dos pedidos inesperados dos clientes e na coragem de testar, errar e ajustar. Mais do que seguir tendências, a marca busca criar experiências espontâneas que despertem memória, afeto e surpresa.

 

A Páscoa 2026 em Curitiba demonstra que a sobrevivência e o destaque no mercado de alta gastronomia dependem de uma visão macro da gestão. Essas marcas se mantêm relevantes porque priorizam não apenas o chocolate como produto final, mas a estratégia de negócio por trás dele: seja na rastreabilidade ética da cadeia produtiva, na engenharia de um portfólio diversificado ou na construção de uma experiência de marca que gere conexão real. 

plugins premium WordPress