O debate sobre a jornada de trabalho na gastronomia deixou de ser apenas uma questão de RH para se tornar uma estratégia de sobrevivência. De um lado, instituições alertam para o impacto nos preços; do outro, empresários e especialistas provam que o “custo do cansaço” pode ser invisível, mas é real.
Dados apresentados pela CNC (Confederação Nacional do Comércio) trazem o lado mais pragmático. No setor de “Restaurantes e Similares”, a escala 6×1 é a espinha dorsal de 94% da força de trabalho.
Um empresário de Curitiba (que preferiu o anonimato) reforça essa preocupação: “Teríamos um aumento de pelo menos 20% na folha. Isso só seria viável se todo o setor fosse obrigado a fazer o mesmo”. Ele ainda levanta o ponto da gorjeta: “Com mais gente, a gorjeta é dividida por mais pessoas, o que diminui a remuneração de quem já está na casa”.
Zé Neto (Porks/Quermesse) foca na realidade financeira: “A base salarial da categoria não dá o luxo de a pessoa escolher folga em detrimento de dinheiro. Na prática, esse colaborador vai usar o segundo dia para fazer ‘taxa’ (freelance) em outro lugar”. Para ele, a mudança deve ser uma escolha estratégica de cada negócio para reter talentos, e não uma imposição governamental.
Diferente das projeções teóricas, o empresário Tuffik Baduy já implantou a escala 5×2 em quase todas as funções de suas casas. O relato traz a “vida real” dessa transição:
Anauila, do restaurante Spring, vê a 5×2 como uma evolução inevitável. Para ela, a mudança obriga o negócio a buscar faturamento onde antes não buscava. “Para unidades que fecham aos domingos, a escala 5×2 seria o incentivo para abrir nesse dia de grande movimento. O faturamento extra compensaria a contratação de novos funcionários sem repassar custo ao cliente”.
Isabela Raposeiras (Coffee Lab) e o Chef Kaká Gomes trazem o contraponto final:
A discussão revela que não existe uma fórmula única. O movimento de empresários como Tuffik Baduy e Isabela Raposeiras mostra que é possível antecipar a tendência e usar a escala como diferencial competitivo para atrair talentos.
A pergunta que fica para o setor em Curitiba é: o mercado vai esperar uma imposição legal ou vai se adaptar agora, entendendo que colaboradores saudáveis e “donos de sua liberdade” são quem realmente sustentam o negócio no longo prazo?