Sabe aquele ditado “quem chega primeiro bebe água limpa”? No mundo da gastronomia globalizada, o ditado agora é: “quem registra primeiro é dono do nome”.
O acordo entre Mercosul e União Europeia não é apenas papelada diplomática. Ele é um divisor de águas que protege mais de 500 produtos europeus e, em contrapartida, blinda 37 tesouros brasileiros. Na prática? O Presunto de Parma só pode vir de Parma. O Queijo da Canastra só pode vir da Canastra. O resto? O resto é “tipo”, é “estilo”, mas não é o original.
Mas engana-se quem acha que isso é apenas uma barreira comercial. Para o produtor brasileiro, a Indicação Geográfica (IG) é o CPF do sabor. É a prova de que o solo, o clima e a mão do homem criaram algo impossível de replicar em série.
Para Rafael Wollmann, Diretor de Operações da Cooperativa Witmarsum, a IG foi o que separou o produto da prateleira comum para o status de ativo cultural.
“A IG garantiu que, enquanto o mundo se torna cada vez mais globalizado e os sabores mais padronizados, nós temos o direito de sermos únicos. É a prova de que quando a tradição menonita encontrou espaço no solo paranaense, criamos algo que não se consegue replicar. É gastronomia com CPF, com endereço e com alma”, afirma Rafael.
Quando o consumidor escaneia um QR Code e vê a história da família que colheu aquele café, o jogo muda. Jonas Aparecido da Silva, do café ouro do norte, da associação do Norte Pioneiro (a primeira IG do Paraná), conta que o impacto foi sentido diretamente na sustentabilidade das propriedades.
“Impactou na organização, na rastreabilidade e, principalmente, na rentabilidade financeira. Hoje o produtor mostra um produto de qualidade com o selo da IG em seus cafés marcas próprias e cafés verdes comercializados para o mundo afora. É gratificante ver o consumidor escanear o código e descobrir onde e como foi produzido”, destaca Jonas.
Para quem olha de fora, o processo de certificação parece um “bicho de sete cabeças”. Foi o que sentiu Inês Yumiko Sato Sasaki, produtora em Carlópolis, quando começou o projeto há dez anos. Mas o esforço de eliminar a burocracia e seguir as exigências do Sebrae abriu as portas da Europa.
“Carlópolis recebeu o título de Capital Nacional da Goiaba de Mesa e fomos parar em feiras em Madri e Berlim. A diferença de preço entre o mercado interno e o externo é muito grande. Na exportação não tem os altos e baixos do preço interno, é linha reta. Nossos produtores sentem orgulho de saber que temos um produto diferenciado”, conta Inês.
No fim do dia, o acordo Mercosul-UE reforça uma tendência que a gente defende aqui na Tutano: produto sem identidade é commodity. Se você produz “queijo”, você briga por centavos. Se você produz uma Indicação Geográfica, você vende história, tradição e exclusividade.
Estudos europeus já mostram que itens com proteção de origem podem custar até o dobro de similares comuns. Não é só cultura; é estratégia econômica pura. No novo mercado gastronômico, a origem é o maior luxo.