Em abril deste ano, o Carreau du Temple, em Paris, abrigou por três dias um dos encontros reveladores do mercado de café especial: o Paris Café Festival 2026. Estive lá. E trago algumas provocações.
Demorou pra acontecer, mas a capital francesa virou, nos últimos anos, um dos epicentros da cultura de specialty coffee na Europa. Mas a velocidade do que está acontecendo por lá impressiona: estima-se que Paris abre até dez novas cafeterias por semana.
Uma semana.
Isso não é tendência. É ebulição.
O festival reuniu fundadores, torrefações, analistas de mercado e operadores de café de toda a Europa e da Ásia, e o que emergiu dos painéis e das conversas nos corredores foi um retrato claro de onde o mundo do café está indo. Mais do que isso: um espelho no qual o Brasil, e Curitiba em particular, tem muito a se enxergar.

Uma das discussões mais intensas do festival girou em torno de algo que quem vive esse mercado já sente na pele: a palavra “especial” perdeu precisão. Com o crescimento acelerado do setor, cada vez mais estabelecimentos adotam o rótulo sem necessariamente praticar a qualidade que ele pressupõe.
O mercado francês de specialty ainda representa apenas cerca de 3% do volume total do país, o que é, ao mesmo tempo, um dado alarmante sobre o quanto ainda está concentrado no discurso, e um indicativo poderoso de crescimento potencial.
No Brasil, a situação não é muito diferente. Temos um dos maiores e mais ricos parques de produção de café do planeta (somos o maior exportador mundial), mas a cultura de consumo de café especial nas cafeterias ainda engatinha em boa parte do país. A lacuna entre o que produzimos no campo e o que servimos na xícara continua grande.
O que isso pede? Educação. Rigor. E menos greenwashing de grão.
Quem acompanha a cena de cafeterias em Curitiba sabe que a cidade vem construindo, com seriedade, um ecossistema de café especial bastante singular. Não é São Paulo, em volume e fluxo, mas tem algo que cidades maiores muitas vezes perdem: consistência e identidade.
Com o pioneirismo do Lucca Café, hoje Curitiba possui uma geração de baristas e torrefações que vieram das grandes competições, que foram buscar conhecimento fora, que estão construindo negócios com propósito. Cafeterias que formam seu próprio público, que educam enquanto servem, que investem em origem e em método.
O que o festival de Paris mostrou é que esse perfil (do operador apaixonado e tecnicamente rigoroso) está sob pressão em todo o mundo. A nova leva de entrantes no mercado europeu é mais capitalizada, mais orientada à escala. A pergunta que fica para Curitiba é: como crescer sem perder o que nos faz relevantes?
Um painel dedicado ao tema de automação no festival deixou claro algo que provoca resistência em boa parte da comunidade de specialty: a tecnologia não é inimiga da qualidade. Pelo contrário, quando bem aplicada, ela libera o barista para fazer o que só ele pode fazer: criar conexão humana.
Grinders automatizados, sistemas de filtragem de água com ajuste em tempo real, extração orientada por dados. Tudo isso está reduzindo a variabilidade e permitindo que cafeterias operem com mais consistência, mesmo com equipes menores ou menos experientes.
Para o mercado brasileiro, onde a rotatividade de equipes no setor de bares e restaurantes é historicamente alta, isso deveria ser uma conversa urgente: automatizar o repetível para humanizar o essencial.

Se você ainda não tem matcha no cardápio, provavelmente já está atrasado. O festival confirmou uma tendência que já observávamos há alguns anos na Europa: as cafeterias estão se tornando plataformas de bebidas, não apenas de café.
Matcha, chai, bebidas funcionais, adaptogênicos — esses itens deixaram de ser curiosidade e viraram motores de receita e portas de entrada para novos consumidores. E aqui vale um parêntese curitibano: a erva-mate, produto profundamente enraizado na cultura paranaense, tem tudo para ocupar esse espaço com muito mais protagonismo nas cafeterias.
Com sabor marcante, versatilidade de preparo e uma narrativa de origem poderosa, o mate é um ativo que o Paraná tem em casa.. A lógica é simples: quem não bebe café também quer um ritual de qualidade, uma bebida com propósito, uma experiência que valha o deslocamento.
No Brasil, essa diversificação ainda é tímida. Há espaço enorme para cafeterias que consigam posicionar o menu de forma mais ampla sem perder a coerência de curadoria.
Talvez o insight mais estratégico do festival tenha vindo da análise do mercado asiático, especialmente da China, onde foram abertas mais de 20 mil cafeterias em apenas um ano. O que acontece em escala lá aponta para o que vem aqui: o mercado está se dividindo entre experiências premium e slow de um lado, e conveniência hipertecnológica e barata do outro.
Mas a maior oportunidade, segundo os analistas presentes, está no meio: qualidade acessível, em escala, sem abrir mão de uma experiência mínima de valor. Não é o café de R$ 5 na padaria. Não é o espresso de R$ 45 com origem rastreada e colheita manual. É o que está entre esses dois extremos, e que ainda não tem dono claro no Brasil.
Sair de Paris com a cabeça cheia de tendências é fácil. O difícil (e mais interessante) é fazer a ponte entre o que o mundo está discutindo e o que faz sentido para o nosso contexto.
A boa notícia é que Curitiba não precisa olhar para Paris e se perguntar o que falta. A cidade já tem o que o festival celebrou como diferencial: torrefações com identidade, baristas campeões, cafeterias que formam público e cultura. Esse trabalho já existe, e é reconhecido.
O que um encontro como o Paris Café Festival oferece não é um modelo a seguir, mas um conjunto de sinais: sobre automação, diversificação de cardápio, padrões de qualidade e novos consumidores, que ajudam a calibrar o que estamos construindo. O desafio agora não é alcançar o mundo. É entender quais partes dele realmente fazem sentido para o nosso território.

Texto produzido com base nos painéis e análises do Paris Café Festival 2026 e com dados do World Coffee Portal.
Dani Volcov
Daniele Volcov atua há mais de 15 anos no universo dos eventos e da gastronomia. É sócia do Festival Tutano e da Nazdarovia Eventos, onde desenvolve projetos que conectam marcas, profissionais e público por meio da comida. Entre eventos, viagens e experiências, dedica-se a observar e traduzir como a cultura alimentar se transforma e conecta pessoas, da terra à mesa.