A casca é dura, mas o vinho é saboroso.

Na metade de abril deste ano participei do II Encontro de Sucos e Vinhos do Paraná, realizado em um CTG em Bituruna. Tive o privilégio de compor a programação de palestras com pesquisadores de ponta da vitivinicultura brasileira que falaram sobre temas relevantes como viticultura regenerativa, variedades resistentes às mudanças climáticas e, no meu caso, o enoturismo como ferramenta de valorização e renda para viticultores.

Entre uma palestra e outra, conversei Michele Bertoletti, enóloga da vinícola Sanber e líder do processo de criação da Indicação Geográfica Vinhos de Bituruna, a primeira de vinhos do Paraná, reconhecida em 2022.

Michele contava que seu vinho branco feito da uva Casca Dura, ícone da região, inscrito em uma avaliação na categoria “Vinhos brancos aromáticos”, havia sido desclassificado por ser feito de uvas americanas (vitis labrusca e não vitis vinífera, cujas origens são, em sua maioria, européias). O motivo real da desclassificação? Puro preconceito que ainda paira no imaginário dos profissionais e consumidores de vinho que creem que o vinho de mesa é inferior ao vinho fino.

Os vinhos brancos de Bituruna provam justamente o contrário. É possível sim, com conhecimento enológico e um olfato apurado, fazer vinhos que competem de igual para igual com qualquer vinho aromático. Se décadas atrás, o vinho do nono ou da nona era feito de forma intuitiva, sem a mesma higiene e tecnologias de hoje, o cenário felizmente mudou. A nova geração de vinicultores, a maioria formados em enologia, tem conhecimento, técnica e produz vinhos bem feitos. Aquele vinho que você pode servir às cegas para um(a) amigo(a) e surpreendê-lo, quebrando paradigmas de que só vinhos de vitis vinífera, como as famosas Cabernet e Sauvignon Blanc, podem ter qualidade… ledo engano!

Para além da Casca Dura, é possível provar ótimos vinhos brasileiros rosados feitos de Isabel, espumantes de Niágara e tintos de Bordô, todas uvas de mesa. Vinhos que além de gostosos e despretensiosos são pilares da formação do Brasil como país viticultor, e que tem o potencial de nos fazer viajar por memórias afetivas guiadas por aromas e sabores que nos são tão familiares.

Uma curiosidade: antes da chegada dos imigrantes italianos (1875), aclamados como os fundadores da viticultura brasileira, já haviam se instalado alemães (1860) que plantavam sobretudo a uva Isabel. As uvas viníferas Merlot e Chardonnay, base dos vinhos do Vale dos Vinhedos, só ganhariam destaque na segunda metade do século XX.

Outro dado intrigante: Desde dos anos 1970 que a OIV – Organização Internacional da Vinha e do Vinho define a bebida como fermentada a partir de uvas e ponto, sem hierarquização ou menções sobre a origem das mesmas. Mas a despeito disso, com a constituição brasileira de 1988, se criou a distinção entre vinhos finos (feitos de viníferas) e vinhos de mesa (de uvas americanas ou híbridas). E talvez, junto com nosso “complexo de vira-lata” da mesma época, se consolidou o imaginário de que os vinhos finos seriam necessariamente melhores. O fato é que, até os dias atuais, muitos brasileiros costumam se envergonhar de gostar de vinhos de mesa e concursos ainda recusam amostras destes vinhos em suas avaliações.

O grande mérito da Indicação Geográfica Vinhos de Bituruna é justamente ser uma das únicas (junto com Urussanga, SC) a valorizar a vocação brasileira para produção de uvas de mesa, no caso paranaense, as uvas Casca Dura e Bordô. No Brasil, país cuja superfície plantada de uvas americanas supera 85% da área (!) é surpreendente que enófilos, sommeliers e críticos façam vista grossa para os tradicionais vinhos de mesa.

Pois saibam meus colegas do vinho, Bituruna é um patrimônio a ser reconhecido e valorizado por nós. Este município do centro sul do Paraná, com seu portal de entrada pitoresco adornado com garrafão de vinho e cacho de uva, possuiu vinhedos de quase noventa anos, provavelmente os mais antigos do estado em produção comercial. Tudo isso rodeado por lindos bosques de araucárias.

Os vinhos de Casca Dura são perfumados, com aromas intensos que lembram pêssego em calda e xarope de flor de laranjeira. Na boca são super frutados, com acidez suave e feitos em duas versões, seco e meio seco. Um vinho para beber geladinho, de aperitivo, ou para acompanhar pratos picantes e sobremesas à base de frutas. Além de gostosos são baratinhos, em média 30 reais a garrafa, desmontando outro paradigma de que vinho brasileiro bom costuma ser caro. Nem sempre.

Agradeço a hospitalidade de Bituruna e suas vinícolas anfitriãs Bertoletti, Di Sandi e Sanber.

Vida longa aos Vinhos de Bituruna!

Se você ainda não conhece, seguem algumas sugestões:

Da esquerda à direta: Bertoletti Castas Espaciais Casca Dura; Sanber Tozetti Casca Dura; Di Sandi

Casca Dura 1983; todos em disponíveis em versões seco e meio seco.

Onde comprar:

https://sanber-vinicola.lojaintegrada.com.br/

https://www.disandi.com.br/

Empório Gran Reserva, Shopping Mueller, Curitiba, PR.

Wagner Gabardo é executivo da VINOPAR – Associação dos Vitivinicultores do Paraná e diretor da escola de sommeliers Alta Gama, em Curitiba. É doutor em Geografia e Mestre em Turismo pela UFPR, onde pesquisa narrativas de Terroir, Enoturismo e Patrimônio Vitivinícola. Foi Pesquisador bolsista da UNESCO – Cátedra Cultura e Tradições do Vinho, Université de Bourgogne, 2021-2022. É especialista em Enologia e Viticultura pela UTP, Brasil, e tecnólogo em Sommelerie pelo Centro Argentino de Vinos y Espirituosas, Argentina. Professor há mais de quinze anos, encontrou na pesquisa e na docência sua forma de contribuir com desenvolvimento da sommelierie no Brasil. Amante e defensor do vinho brasileiro, não troca um espumante de Pinto Bandeira por nenhum Champagne.

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