Se você anda pelas ruas do Batel, do Centro ou do São Francisco, já deve ter percebido: a linha que separa a xícara de porcelana da taça de cristal está cada vez mais tênue. O modelo de negócio que “dorme” cafeteria e “acorda” bar — ou melhor, que é os dois o tempo todo — parou de ser uma tendência alternativa para se tornar uma estratégia de sobrevivência e escala.
Mas o que está por trás dessa migração? Além do charme estético, existe uma conta lógica que o setor finalmente começou a fechar: a guerra contra o ponto ocioso.
Para entender esse fenômeno, conversamos com quem acabou de colocar mais um pilar nessa cena. O Floreria, localizado estrategicamente em frente ao Museu Oscar Niemeyer (MON), nasceu de uma inquietação de Zé Netto e sua esposa Tati.
Zé, já conhecido pela “porrada” dos bares noturnos como Porks e Quermesse, sentiu que era hora de ocupar o dia. “A Tati cuida de todos os bastidores dos meus negócios, mas ela não gosta tanto de ficar na noite. A gente queria algo mais diurno, uma pegada mais relax”, conta Zé Netto. O insight veio de uma experiência morando em Buenos Aires: não uma cópia do famoso Florería Atlántico (referência mundial em coquetelaria), mas a inspiração de um lugar onde se pode “resolver o dia”.
No Floreria, a proposta é clara: você pode almoçar, fazer uma reunião de trabalho (aproveitando o novo comportamento híbrido pós-pandemia) e, sem trocar de mesa, emendar um drink. “Eu pensei no café muito para o turista. Eu, como turista, se vou tomar um café à tarde e tem uma cerveja ou um drink, eu aproveito”, explica. O ambiente, inspirado na sala de casa dos proprietários, foge do mármore frio e aposta no conforto para quem quer passar horas — seja com um laptop ou com uma tábua de petiscos.
Por que abrir um café-bar e não “apenas” um café? A resposta é financeira. Manter um ponto comercial em Curitiba custa caro. O aluguel, o IPTU e as taxas fixas correm 24 horas por dia. Se o seu estabelecimento só opera das 08h às 18h como cafeteria, você está pagando por um espaço que fica “morto” durante toda a noite.
Ao transformar o espaço em um café-bar:
Curitiba virou o laboratório perfeito para esse modelo porque o público local é exigente com o grão, mas adora o ritual do balcão. O formato já é um sucesso validado por casas que entenderam essa dualidade:
O Floreria chega para somar a essa lista com um diferencial de escala: são quase 200 lugares. A aposta não é ser o “mais especialista” em um único item (como as micro-torrefações), mas sim ser a melhor entrega de hospitalidade completa.
O café-bar é a resposta para um consumidor que não quer mais ser rotulado. Ele é o profissional que trabalha no café às 15h, mas é também o amigo que quer comemorar um aniversário com um brinde às 19h.
No fim das contas, estabelecimentos como o Floreria provam que a hospitalidade moderna não se divide mais por horários, mas por estados de espírito. E, para o empresário, é a chance de ouro de ver o seu ponto brilhar — e faturar — do primeiro espresso ao último fio de luz.