Um encontro com pescadores, siris e uma cultura ameaçada pelo apagamento de seus saberes
Antonina sempre teve um lugar especial no imaginário de quem vive o litoral do Paraná. Cidade histórica, marcada por casarões antigos, samba, carnaval e uma relação profunda com o mar. Mas, no último fim de semana, vivi ali uma experiência que foi além da paisagem e da gastronomia. Foi um mergulho real na cultura caiçara e na forma como o alimento nasce, circula e sustenta comunidades inteiras.
A viagem começou no sábado à noite. Saímos mais tarde do que o previsto, o que nos fez perder um ensaio das escolas de samba. Uma pena, considerando que Antonina abriga um dos carnavais mais tradicionais do estado. Ainda assim, a chegada compensou. Como sempre, fomos recebidos com carinho na Casa do Mangue, casa da Karla Manfredini e do Amaury. Um espaço de acolhimento genuíno, onde tudo acontece em torno da cozinha, da comida típica da região e de uma hospitalidade que não se explica, só se sente.
Começamos a noite com um camarão preparado com molho de moqueca, demos uma volta pela cidade para observar os prédios históricos e fomos descansar. Na viagem estávamos eu, meu filho e a super social media da Tutano, Waline. Eu estava ansiosa, pois tinha certeza de que seria especial. Mas não imaginava o quanto!
No domingo, acordamos cedo com uma chuva forte. Por alguns minutos, achamos que o passeio não aconteceria. Mas a chuva passou rápido. Às 7h20 encontramos o pescador Patrick no ponto combinado. Ele já estava acordado desde as três e meia da manhã, rotina comum para quem vive do mar, preparando iscas e deixando algumas gaiolas prontas para o dia.
Saímos em uma canoa com motor. Logo no início, o motor apresentou um problema, resolvido ali mesmo pelo Patrick, com a naturalidade de quem está acostumado a lidar com o imprevisível. Seguimos viagem e começamos a aprender.
As gaiolas usadas para capturar os siris são feitas de forma totalmente artesanal pelo pai do Patrick, a partir de rodas de bicicleta. As iscas são produzidas com aparas e restos de peixes pescados em outros dias. Nada se perde. Naquele dia, lançamos 16 gaiolas no mar. Impressiona a forma como os pescadores leem a baía, como se fosse uma estrada invisível. Eles sabem exatamente onde cada gaiola foi deixada, fazem o percurso e retornam depois, sem esquecer nenhuma.
Foi ali que conhecemos melhor as espécies de siri da região. O siri Mirim, menor, exige cerca de quatro dúzias para render um quilo de carne. Já o siri Guaçu, maior e mais robusto, precisa de aproximadamente 15 unidades para atingir o mesmo rendimento. Entender essas diferenças muda completamente a percepção sobre valor, esforço e tempo envolvidos na pesca artesanal.
Além de catar siri, também pescamos com vara. Pegamos alguns bagres pequenos, que foram devolvidos ao mar. Vimos siris acasalando. A fêmea foi devolvida à água e o macho mantido. Encontramos também uma siri cheia de ova, que retornou ao mar. Existe ali um respeito profundo pelos ciclos naturais e um entendimento claro do que pode e do que não deve ser feito.
No caminho de volta, o tempo começou a fechar novamente e paramos em uma pequena ilha, onde existe uma casa que funciona como ponto de apoio para a comunidade pesqueira. Durante a semana, um casal mora ali. Nos fins de semana, o espaço se transforma em ponto de encontro. Há chuveiros, banheiros e uma cozinha, usada de forma comunitária.
Chegamos na hora do almoço e a comida estava sendo preparada. No caminho, o Patrick havia coletado ostras, que foram abertas ali mesmo, no calor da brasa. Os pescadores abriram espaço na e dividiram o alimento conosco com uma generosidade que emociona. Comer ali, naquele contexto, fez tudo ganhar outro sentido.
Entre uma conversa e outra, entendemos melhor a rotina, os desafios e a importância do período de defeso, quando a pesca de camarão é suspensa e os pescadores dependem de auxílios governamentais para atravessar esse tempo. O senso de comunidade é forte, vivo e essencial para a sobrevivência cultural e econômica da região.
No retorno final, já próximo ao porto, as iscas que sobraram nas gaiolas foram lançadas ao mar, atraindo diversas aves. Tesoureiros, gaivotas e mergulhões acompanharam a nossa canoa, mergulhando para capturar o alimento. Vimos também a garça-branca e, com alegria, os guarás, aves de coloração vermelha intensa que estão voltando a habitar os manguezais da Baía de Guaratuba. Um sinal importante de recuperação ambiental.
Ao longo do dia, um dado chamou atenção: enquanto lançamos 21 gaiolas durante a experiência, em um dia comum de trabalho o Patrick lança cerca de 50. São horas sob o sol, em um trabalho físico intenso e pesado, feito com dignidade, conhecimento profundo do território e alegria. Ainda assim, é um modo de vida ameaçado. Mudanças ambientais provocadas pela ação humana, pesca predatória em larga escala e redes de alto volume afetam diretamente essas comunidades, reduzindo os recursos naturais que sustentam a vida caiçara.
Essa vivência reforça algo essencial: a importância de valorizar o pequeno produtor, a pesca artesanal e a cozinha que nasce do território. Comprar de quem respeita os ciclos da natureza é também uma forma de preservar cultura, identidade e memória.
Tudo isso ajuda a entender por que experiências como essa precisam ser registradas e compartilhadas. O curta-documentário Maré de Memórias, idealizado por Karla Manfredini, nasce justamente desse desejo. Ele acompanha a pesca artesanal na região e a Cozinha Caiçara de Herança, construída a partir do saber ancestral e da transmissão de conhecimento entre gerações. Diante do apagamento gradual das tradições e dos modos de vida caiçaras, pressionados pela falta de incentivo, pelas mudanças ambientais e pela ruptura geracional, o filme se propõe como um gesto de preservação da memória. Com lançamento previsto para o início de março, Maré de Memórias convida a olhar para o mar não apenas como paisagem, mas como origem, sustento e cultura.
Ale Vianna é diretora da Tutano e trabalha criando pontes entre comida, cultura e pessoas. Atua também na Nazdarovia e na Mapie, desenhando experiências, eventos e produtos inovadores para a hospitalidade brasileira. Vive a gastronomia dentro e fora do trabalho – entre mercados, mesas e conversas – sempre buscando equilíbrio nos momentos de movimento, treino e cuidado com a saúde. É mãe do Caio, papel que atravessa tudo: o jeito de olhar, de escutar, de escolher o ritmo e de imaginar futuros mais sensíveis, humanos e possíveis.
Karla reside em Antonina, criadora da Cada do Mangue e curadora oficial do Espaço Litoral no Festival Tutano. Nossa deussa gastronômica separou uma lista de lugares e experiências para você colocar a mala no carro e aproveitar o melhor do litoral!
Caçarola do Joca: O mais antigo e tradicional da cidade.
Restaurante Buganvill: Estabelecimento histórico com pratos clássicos.
Armazém da Barca: Gastronomia local em um ambiente diferenciado.
Brisa do Mar & Le Bistrô: Opções variadas, do rodízio ao buffet.
The Burguer: Hamburgueria com destaque para o sanduíche com molho Barbecue.
Bar Benedito: Ideal para descontração e drinks.
Casa do Kibe Vovó Rachida: Cozinha árabe autêntica pelo artista Marcelo Cecyn.
Casa da Pizza: Desde os anos 2000 no calçadão.
Balas de Banana: Balas Antonina e Bananina (ambas com lojas próprias).
Picolé Dona Luci: Um legado de puro sabor com mais de 60 anos de história.
Cafés Recomendados: Mimosear, Café da Família (antigo Café Ruínas), Antonina Pani e Louis & Marshesini.
Casa do Mangue (Conexão e Partilha): Atende com reservas para experiências gastronômicas e hospedagem. É a sede do projeto que une 18 estabelecimentos em uma rede de receitas autorais com bala de banana.
Conforto no centro histórico ou imersão total na natureza.
No Centro: Hotel Camboa (clássico), Hotel Capelista (tradicional), Pousada da Praça (localização central) e Pousada das Laranjeiras (puro charme).
No Vale do Gigante: Casa da Mata Ecolodge e Grajagan Mata Atlântica, focados em ecoturismo e silêncio.
Para explorar a história viva e as paisagens da Baía e da Serra.
Trem Caiçara (Maria Fumaça): Passeio nostálgico e histórico pelos trilhos da região.
Baía de Antonina: Passeios de Catamarã com o Mestre André e contemplação da vista na Igreja Matriz.
Vale do Gigante: Rafting no Rio Cachoeira com a Icaturafting; experiências de caiaque com a Gusso Turismo e Antonina Adventuri.
Ruínas do Armazém Macedo: Antigo armazém de erva-mate, um marco do apogeu econômico.
Turismo Cultural: Visita à Colônia Cacatu, a primeira colônia japonesa do Paraná.
Fharmacia Internacional: Uma das farmácias mais antigas do Brasil ainda em atividade.
Livraria da Barca: Espaço essencial para os amantes da literatura.
Moda e Artesanato: Vagante (moda sustentável), Loja Artenina (Associação dos Artesãos), Casa da Nega e Mercado Municipal.