Antes do prato, vem a terra

No Salão Internacional da Agricultura, em Paris, comida, campo e pessoas se encontram e revelam como a conexão com a terra começa, de fato, à mesa.

A gente costuma falar de gastronomia olhando para o prato. Para a técnica, para o chef, para o resultado final. Mas em Paris, durante o Salão Internacional da Agricultura, fica evidente que a história começa muito antes e que é ali, no encontro entre campo e comida, que tudo ganha sentido.

No início deste mês, entrei em um dos maiores eventos agrícolas da França – e saí com a sensação de que estava, na verdade, em um grande festival de comida. Porque, no fim, é isso que conecta tudo: a terra, as pessoas e o que chega à mesa.

Durante cerca de dez dias, o espaço se transforma em uma verdadeira celebração da agricultura. Produtores, criadores, cooperativas, marcas e instituições ocupam os pavilhões para apresentar o que há de melhor no campo e, principalmente, aquilo que chega à mesa dos franceses.

É ali que acontece também uma das premiações mais importantes do setor: produtos como queijos, vinhos e outros alimentos recebem medalhas de ouro, prata e bronze que depois estampam as prateleiras dos supermercados. Mais do que um selo, essas medalhas funcionam como um indicador de qualidade e, ao mesmo tempo, como um reforço do valor cultural da comida.

Mas o que mais me chamou atenção não foram os números, nem o volume de negócios.

Foi o público.

Famílias inteiras circulando pelos corredores. Crianças descobrindo, pela primeira vez, de onde vêm os alimentos. Gente experimentando, aprendendo, perguntando. Porque, ali, a agricultura não está distante, ela é vivida.

Como em muitas feiras agrícolas pelo mundo, há animais em exposição, concursos que premiam os melhores exemplares de gado, aves, carneiros e porcos, além de arenas com apresentações. Mas o diferencial está em como tudo isso se conecta com a gastronomia.

Em praticamente todos os estandes, havia degustações, cozinhas montadas, chefs em ação. Produtores de trigo assando pão ao lado de quem cultiva o grão. Aulas de degustação de vinhos e cervejas. Preparos com carnes da agropecuária regional, sempre acompanhados de uma narrativa que valoriza o respeito à terra, ao animal e ao alimento.

E, talvez mais importante: emoção.

Para as crianças, experiências pensadas com cuidado: corridas de mini tratores, oficinas, aulas de culinária, pequenos espaços que explicam, de forma lúdica, como se faz um queijo ou como nasce um alimento.

Tudo ali parece trabalhar a mesma ideia: aproximar.

Aproximar as pessoas da origem da comida.
Aproximar o campo da cidade.
Aproximar o conhecimento da experiência.

Porque, no fim das contas, é à mesa que tudo acontece.

É ali que a gente descobre sabores, constrói memória, socializa e aprende (muitas vezes sem perceber) a valorizar aquilo que vem da terra.

O que mais levo dessa experiência é a clareza de que a conexão entre pessoas e agricultura não se dá apenas pela produção, nem pelo discurso técnico.

Ela se dá pela comida.

Pela experiência de comer, de provar, de compartilhar.

A gastronomia francesa, tão reconhecida no mundo, não nasce apenas da técnica ou da sofisticação. Ela nasce de uma cultura que ensina, desde cedo, o valor dos ingredientes, do território e de quem produz.

E talvez esteja aí uma das grandes lições desse evento.

Se queremos fortalecer a relação das pessoas com a terra, precisamos passar pela mesa.

Porque, no fim, é isso que conecta tudo: a terra, as pessoas e o que chega à mesa.


Dani Volcov

Daniele Volcov atua há mais de 15 anos no universo dos eventos e da gastronomia. É sócia do Festival Tutano e da Nazdarovia Eventos, onde desenvolve projetos que conectam marcas, profissionais e público por meio da comida. Entre eventos, viagens e experiências, dedica-se a observar e traduzir como a cultura alimentar se transforma e conecta pessoas, da terra à mesa. 



plugins premium WordPress