Uma imersão em inovação, hospitalidade e negócios revela caminhos para fortalecer destinos, valorizar a produção local e transformar experiências em oportunidades para o setor gastronômico brasileiro.

Entre os dias 5 e 11 de outubro, Beto Madalosso e Dani Volcov, sócios da Tutano Gastronomia, participaram de uma missão técnica à Espanha promovida pelo Sebrae Paraná, em parceria com a Fecomércio PR. A programação reuniu lideranças empresariais e representantes institucionais em uma imersão por Sevilha e Madri, com foco em inovação, liderança, negócios em turismo e conexões internacionais.

Mais do que conhecer iniciativas bem-sucedidas, a proposta foi compreender como diferentes organizações estão enfrentando desafios que também fazem parte da realidade brasileira: a transformação digital, a competitividade dos destinos, a sustentabilidade dos negócios e a criação de experiências capazes de gerar valor para visitantes, empreendedores e comunidades.

Entre congressos, reuniões, visitas técnicas e experiências gastronômicas, uma percepção ganhou força: o futuro do turismo e da gastronomia não depende apenas de novas tecnologias, mas da capacidade de conectar inovação, identidade e pessoas.

E essa é uma reflexão que interessa diretamente a quem empreende, produz eventos e trabalha com gastronomia no Brasil.

Tecnologia como ferramenta, pessoas como protagonistas

Um dos pontos altos da missão foi a participação no TIS – Tourism Innovation Summit, em Sevilha, evento internacional dedicado às transformações da indústria do turismo.

Inteligência artificial, análise de dados, experiências digitais e novas plataformas de relacionamento com o consumidor estiveram entre os temas presentes nas palestras, nos estandes e nas conversas com empresas do setor.

A programação incluiu ainda visitas técnicas à Mastercard, Microsoft e Civitatis, ampliando o contato com soluções tecnológicas aplicadas ao turismo.

Mas o aprendizado mais relevante talvez esteja menos nas ferramentas apresentadas e mais na maneira de pensar sua aplicação.

A tecnologia não precisa substituir a dimensão humana da hospitalidade. Ao contrário, pode ajudar empresas a conhecer melhor seus públicos, aprimorar processos, personalizar experiências e liberar tempo para aquilo que realmente diferencia um bom serviço: o relacionamento entre pessoas.

Para restaurantes, hotéis, produtores e organizadores de eventos, isso significa olhar para a inovação não como um fim em si mesma, mas como um recurso para construir negócios mais eficientes, inteligentes e conectados às necessidades dos clientes.

A pergunta deixa de ser apenas “qual tecnologia devemos adotar?” e passa a ser “que experiência queremos proporcionar e como a tecnologia pode nos ajudar a fazer isso melhor?”.

Gastronomia como estratégia de desenvolvimento de destinos

Outro destaque da participação no TIS foi um painel dedicado ao papel da gastronomia na construção de destinos turísticos integrados e no desenvolvimento de rotas ligadas à produção de alimentos.

Essa discussão reforça uma ideia que defendemos na Tutano: a gastronomia é muito mais do que uma atividade de consumo. Ela é uma expressão da identidade de um território e pode funcionar como uma poderosa ferramenta de desenvolvimento econômico, cultural e turístico.

Quando restaurantes, produtores rurais, artesãos, mercados, meios de hospedagem e operadores turísticos trabalham de forma articulada, a experiência gastronômica ganha novas dimensões.

O visitante deixa de consumir apenas um prato e passa a conhecer sua origem, as pessoas envolvidas na produção, as tradições e as histórias que tornam aquele alimento único.

Para o Brasil, com sua extraordinária diversidade de ingredientes, biomas e culturas alimentares, existe um enorme potencial nesse modelo.

No Paraná, por exemplo, produtos como a erva-mate, os cafés especiais, os queijos, os vinhos e tantos outros ingredientes regionais podem ser pontos de partida para experiências que conectem gastronomia, turismo e desenvolvimento local.

O desafio está em transformar essa riqueza em produtos turísticos estruturados, com narrativas consistentes, articulação entre diferentes agentes e capacidade de gerar negócios.

Um destino gastronômico não se constrói apenas com bons restaurantes. Ele se fortalece quando toda a cadeia produtiva participa da experiência.

Mo de Movimiento: quando a sustentabilidade faz parte do negócio

Em Madri, uma das experiências mais marcantes da missão foi a visita ao Mo de Movimiento, restaurante que propõe uma maneira diferente de pensar a gastronomia, combinando responsabilidade ambiental, inclusão social, valorização de produtores e viabilidade econômica.

Instalado no antigo Teatro Espronceda, o restaurante nasceu de um projeto de transformação que incorporou princípios de economia circular desde a reforma do edifício. Entulhos da obra foram reaproveitados na construção de bancos, madeiras do antigo teatro ganharam novas funções e luminárias descartadas foram recuperadas.

Mas a inovação vai muito além da arquitetura.

Os fornos utilizados na preparação dos alimentos também integram um sistema de aproveitamento de calor para aquecer o ambiente. Grandes recipientes de cerâmica fazem parte de uma solução de resfriamento baseada em princípios naturais, enquanto sistemas de filtragem contribuem para reduzir o consumo de água engarrafada.

Na cozinha, a proposta privilegia ingredientes ecológicos, artesanais e de proximidade, fortalecendo relações com pequenos produtores. Na gestão de pessoas, o restaurante também desenvolve iniciativas de inclusão e formação profissional de pessoas que enfrentam dificuldades de acesso ao mercado de trabalho.

O que torna o Mo de Movimiento especialmente inspirador é a coerência entre suas escolhas. Sustentabilidade não aparece apenas no cardápio ou na comunicação: ela está presente na arquitetura, nos processos, nas relações de trabalho, na seleção dos fornecedores e na própria concepção do negócio.

E há um aspecto fundamental nessa equação: a necessidade de construir um empreendimento economicamente sustentável.

Para restaurantes e eventos brasileiros, a principal lição não está necessariamente em reproduzir suas soluções arquitetônicas ou tecnológicas, mas em compreender a lógica que orienta o projeto.

E se a sustentabilidade deixasse de ser uma iniciativa complementar e passasse a ser um critério para todas as decisões do negócio?

Da contratação de fornecedores ao aproveitamento de recursos, da gestão de equipes à experiência oferecida ao consumidor, existem inúmeras oportunidades para incorporar práticas mais responsáveis, eficientes e conectadas ao território.

O Mo de Movimiento demonstra que inovação não significa necessariamente criar algo novo. Muitas vezes, significa repensar o uso daquilo que já existe, recuperar conhecimentos tradicionais e encontrar soluções inteligentes para desafios contemporâneos.

Uma referência especialmente relevante para um setor que precisa conciliar criatividade, competitividade e responsabilidade.

Conexões globais, identidade local

As reuniões de negócios e os encontros com representantes de empresas e instituições espanholas foram outra dimensão importante da missão.

Além dos contatos internacionais, a convivência com lideranças empresariais e institucionais do Paraná e de Santa Catarina criou oportunidades de troca de experiências e identificação de interesses comuns.

Mas houve também espaço para apresentar um pouco da nossa própria identidade.

Em parceria com a Associação de Locavorismo do Brasil (ALB) e a Mattea, levamos erva-mate paranaense para presentear os anfitriões espanhóis.

O gesto despertou curiosidade e abriu conversas sobre um produto profundamente ligado à história, à economia e à cultura do Paraná, estado que lidera a produção brasileira de erva-mate.

A experiência mostrou, de maneira simples, o potencial que nossos ingredientes têm para criar conexões e despertar interesse em outros mercados.

Às vezes, uma boa história contada a partir de um produto local pode ser tão poderosa quanto uma apresentação institucional.

Valorizar nossa origem não significa fechar os olhos para o mundo. Significa chegar a ele com uma identidade própria.

O que podemos trazer para os eventos e negócios brasileiros?

Ao reunir os aprendizados da missão, algumas oportunidades se destacam para o desenvolvimento do setor:

  1. Criar experiências, não apenas oferecer serviços. O consumidor procura vivências que tenham significado, identidade e capacidade de gerar conexão. Isso vale para restaurantes, destinos e eventos.
  2. Integrar a cadeia da gastronomia ao turismo. Aproximar produtores, chefs, empresários, operadores e instituições é essencial para transformar potencial gastronômico em produtos e oportunidades concretas de negócio.
  3. Usar dados e tecnologia com propósito. Ferramentas digitais devem ajudar a melhorar a gestão, conhecer o público e qualificar a experiência, sem perder o caráter humano da hospitalidade.
  4. Tratar sustentabilidade como estratégia empresarial. Práticas ambientais, sociais e econômicas precisam fazer parte da operação e contribuir para a longevidade dos negócios.
  5. Fortalecer redes de colaboração. A competitividade de um destino não depende apenas de bons negócios individuais, mas da capacidade de seus agentes trabalharem de maneira integrada.
 

Conhecer o mundo para transformar o que fazemos aqui

Para a Tutano Gastronomia, participar dessa missão representou uma oportunidade de ampliar repertório, estabelecer conexões e refletir sobre o papel que nossos projetos podem desempenhar no desenvolvimento do setor.

A experiência reforçou a importância de pensar eventos gastronômicos não apenas como espaços de encontro e celebração, mas também como plataformas de conhecimento, inovação, geração de negócios e valorização dos territórios.

Esse olhar dialoga diretamente com o propósito do Festival Tutano e das demais iniciativas que desenvolvemos: aproximar pessoas, estimular o empreendedorismo, promover conexões e contribuir para uma gastronomia brasileira cada vez mais relevante e competitiva.

Voltamos da Espanha com novas referências, mas também com uma convicção fortalecida: o Brasil tem ingredientes, talentos, histórias e diversidade para construir experiências gastronômicas extraordinárias.

O que precisamos é continuar investindo em articulação, gestão, inovação e visão de longo prazo para transformar esse potencial em desenvolvimento real.

Porque o futuro da gastronomia não será construído apenas por quem acompanha as tendências, mas por quem consegue transformá-las em oportunidades para as pessoas e os negócios.

Dani Volcov

Daniele Volcov atua há mais de 15 anos no universo dos eventos e da gastronomia. É sócia do Festival Tutano e da Nazdarovia Eventos, onde desenvolve projetos que conectam marcas, profissionais e público por meio da comida. Entre eventos, viagens e experiências, dedica-se a observar e traduzir como a cultura alimentar se transforma e conecta pessoas, da terra à mesa. 

Referências:

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