A casca é dura, mas o vinho é saboroso.

Foi sentada no chão, em uma fila longa no Mata Cittá, que ouvi pela primeira vez sobre o Komah. O complexo situado na Cidade Matarazzo tinha virado uma febre instagramável – uma promessa de experiência – e foi justamente por isso que eu estava ali, curiosa para conferir o cenário temático, assunto que me atrai na gastronomia. Consciente do tempo que teria pela frente, decidi fazer bom uso da espera e puxei papo com um rapaz ao meu lado. Mineiro, ainda bem, gosta de conversar. Comentei, de forma despretensiosa, que talvez compensasse mais estar na fila de um Michelin – ainda sob o efeito do anúncio feito dias antes pelo Guia Michelin.

Ele respondeu na hora com um endereço direto: conheci um restaurante muito legal na Barra Funda, reconhecido pelo guia, com preço acessível e cozinha consistente. Pois bem, fiquei curiosa, mas o assunto seguiu para muitos outros assuntos que tínhamos em comum.

Ir a São Paulo, para mim, é sempre partir com uma lista organizada de restaurantes, com um ou dois focos principais, e manter alternativas à mão para eventuais ajustes. Gosto da liberdade de ir sozinha, até porque raramente fico sozinha. Desta vez, programei a viagem para ir com uma amiga. A dinâmica muda, mas desejávamos lugares em comum.

Quando ela chegou, contou que já conhecia o Komah. Disse que valia a ida, especialmente pelo banquete servido no almoço. Ajustamos a agenda para sexta-feira.

Cabe contextualizar que o Guia Michelin havia anunciado a edição 2026 em 13 de abril. Chegamos a São Paulo dois dias depois, sem nenhuma intenção de cruzar esse circuito. Aliás, eu também não sabia que o guia reconhecia restaurantes com excelente relação entre qualidade e preço e, o Komah, cabia direitinho nessa proposta de comer bem sem estourar o budget.

Casualmente, chegamos às 11h50. Juro que não planejamos a antecedência. Cerca de dez pessoas aguardavam na pequena área de espera da calçada. O restaurante não trabalha com reservas e em quinze minutos, o salão estava quase cheio.

 O Komah opera a partir de uma lógica que contraria o imaginário mais imediato do Guia Michelin. Nada de luxo evidente. Tijolo aparente, aço, madeira e gradil metálico estruturam o espaço. O balcão de drinks, ao centro, organiza o salão. A casa funciona quase como extensão da cozinha exposta colada ao pequeno salão.

Descobri que a trajetória do Komah ajuda a entender um dos possíveis caminhos que fez a notoriedade da gastronomia acontecer. Quando abriu, em 2016, a Barra Funda não fazia parte do circuito mais óbvio da gastronomia paulistana. Era um bairro associado a galpões, oficinas e estruturas industriais. Apostar ali, um endereço que já abrigava negócios da família, criou uma atmosfera de restaurante secreto – sustentado pelo boca a boca – que logo se transformou em diferencial. O que ajudou muito foi abrir às segundas-feiras à noite, atraindo cozinheiros e profissionais do setor. O lugar passou a circular entre nomes relevantes da gastronomia, como Alex Atala e Claude Troisgros.

À mesa

O aclamado “Banquete Komah” reúne os pratos mais representativos da casa e chega à mesa em sequência. Conservas coreanas abrem a refeição, seguidas por um yukhoe (steak tartare coreano) com tiras de pêra. Amei esse prato. Na sequência, chegaram os cortes suínos, servidos com folhas para montar pequenas trouxinhas. A ideia é simples, mas exige prática. Me lambuzei tentando fazer o “sanduichinho”, enquanto minha amiga (Bárbara Bongiolo) demonstrou mais habilidade e alguma elegância no processo. E quando a famosa omelete chegou (Kimchi Bokubap), a moça que nos atendeu rasgou a omelete para impressionar. 

Mais do que satisfeita com a generosa sequência, concluí que a alegria de provar um banquete por esse preço só não é superior ao deleite de gostar de cada detalhe de cada prato. Saímos dali com a sensação de que, além de criarmos uma memória, tínhamos feito uma deliciosa escolha, e com a clareza de que, às vezes, o melhor da viagem acontece fora do roteiro.

2024, 2025 e 2026

Não tive tempo de ver a famosa placa de 2026. Registrei a de 2025. Naquele momento, inclusive, eu também não sabia que o restaurante já fazia parte da lista em anos consecutivos. Soube depois, já em Curitiba. Moral da história: algumas coisas só fazem sentido depois – como aquela conversa despretensiosa na fila. Sorte de ter puxado papo com um desconhecido. Recomendo.

Thabata Martin é jornalista e estrategista de comunicação, com atuação focada em gastronomia, arte e arquitetura. À frente da VERSO.THT Comunicação Arte, constrói narrativas que conectam experiência, repertório e olhar de mercado, dentro e fora do roteiro.

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