O cenário do foodservice no Brasil está mudando mais rápido do que muitos previam. Se antes o desafio era a concorrência direta entre marcas, hoje o “adversário” está na farmácia. O uso de medicamentos da classe das canetas emagrecedoras, como o Mounjaro, deixou de ser um nicho para se tornar um fenômeno econômico: dados recentes mostram que a demanda explodiu a ponto de o Brasil já importar mais canetas emagrecedoras do que celulares (CNN Brasil).
O impacto é tamanho que o Senado Federal já discute a quebra temporária da patente do Mounjaro para ampliar o acesso (Senado Notícias), o que sinaliza que essa nova realidade veio para ficar. Mas o que isso significa para o setor de Alimentos e Bebidas? Significa que ignorar o “efeito Mounjaro” é o caminho mais rápido para a obsolescência.
Imagem: Instagram @rausecafe
Não se trata apenas de comer menos; trata-se de comer diferente. Quem utiliza o medicamento relata uma mudança drástica na percepção visual e digestiva da comida. Como bem observa Nina Ribas, do Rause Café, localizado em Curitiba, o público — composto por CEOs, profissionais do setor comercial e um público corporativo que transita pelo Batel — está trocando a quantidade pela qualidade.
Nina adaptou seu cardápio com precisão cirúrgica:
Digestibilidade: Substituiu o clássico arroz e feijão (que “pesa” para quem usa a medicação) por purê de batata e legumes coloridos.
Aparência: O prato precisa ser “convidativo ao olhar”. A gordura e a fritura agora geram náusea; o frescor gera desejo.
Reprecificação: Menos comida no prato exige um ajuste no preço para que o cliente não se sinta “injustiçado” ao pagar por algo que não vai consumir.
Imagem: Divulgação
Se engana quem pensa que o setor de doces está imune. Ana Lygia, da PikurruchA’S, que conta com 5 unidades em São Paulo, percebeu que sua linha Zero Açúcar já vende mais que a linha tradicional. O comportamento mudou: a sobremesa não é mais um hábito diário, mas um “momento de permissão” que precisa valer cada caloria.
A estratégia agora é ser “para todas as horas”:
Diversificação: Expandir para o café da manhã e almoço leve (como croissants e opções funcionais).
Lifestyle: Se o cliente está postando fotos na academia e não mais da “calda caindo”, a marca precisa estar nesse universo, seja promovendo um café da manhã com ioga ou grupos de corrida.
Adaptação ou Morte: Como diz Ana, “se a gente quer continuar atendendo, vamos ter que mudar um pouquinho a receita e olhar para essa vida mais saudável”.
Conclusão: O A&B Precisa Ser Flexível
O mercado real não aceita fórmulas mágicas. O setor de A&B não vai perder para o Mounjaro se souber jogar o mesmo jogo: foco em saúde, porções inteligentes, processos rigorosos de qualidade e, acima de tudo, escuta ativa do cliente. Quem insiste no “sempre foi assim” corre o risco de ver seus pratos voltarem cheios para a cozinha.
Para complementar trouxemos 3 temas essenciais para qualquer negócio de alimentação e que apareceram de forma recorrente nas palestras da CBC, que reuniu nomes da confeitaria brasileira em janeiro deste ano
Imagem: Waline Piper
Maturação leva tempo: Assim como um negócio sólido não nasce grande, a adaptação a novas tendências de saúde deve ser estratégica e gradual. Crescer no ritmo certo, respeitando o tempo de aprendizado do seu público, é estratégia, não fracasso.
Rede Social não é o único canal: Postar fotos bonitas ajuda, mas o que sustenta o faturamento em tempos de “consumo menor” é a multicanalidade. Estruture seu delivery e crie pontos de contato físicos que transformem a compra em um hábito saudável.
Processo sustenta o crescimento: Decidir o que não fazer é tão importante quanto o que fazer. Se uma moda não se adequa ao seu conceito, tenha a coragem de manter seus processos e não entrar em trends só por entrar. Respeitar o processo é respeitar a sua marca.