Faz parte do dia a dia do GoodTruck Brasil explicar que os alimentos devem ser consumidos mesmo após a perda de valor comercial.

Toneladas de frutas, verduras e legumes com algumas imperfeições estéticas são descartadas diariamente, porém, ainda são ricas em nutrientes e podem transformar a vida de milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade social.

E o sistema que hoje descarta esses alimentos tem nome: linear. Produzir, processar, consumir, descartar. E desde a indústria até o setor de gastronomia repetem essa lógica.

O que a Finlândia tem a nos ensinar

A Fundação Ellen MacArthur publicou um artigo que me fez refletir e pensar porque não temos esses modelos funcionando em grande escala ainda.

Nele, três restaurantes de Helsinki, capital da Finlândia, aparecem como exemplos do que pode acontecer quando a gastronomia decide romper com o desperdício de forma estrutural.

  • O Nolla (que em finlandês significa “zero”) funciona sem lixeiras convencionais. Os restos orgânicos viram adubo que retorna aos fornecedores. As embalagens de uso único foram simplesmente abolidas da equação. O resultado? Após duas semanas de operação, o desperdício foi reduzido em 80%.
  • O Restaurant Loop vai ainda mais longe, funciona como um hub de aproveitamento de alimentos excedentes da cidade, transformando ingredientes que seriam descartados por questões estéticas ou de rotulagem em refeições gourmet de alta qualidade.
  • O Ultima traz o questionamento, “E se a fazenda pudesse vir para dentro do restaurante?”. E eles conseguiram fazer isso, com cultivo hidropônico, aeropônico e criação de insetos alimentados pelos próprios resíduos da cozinha, eles tentam fechar o ciclo dentro de quatro paredes.

Três modelos diferentes mas com uma mesma pergunta de fundo: onde começa e onde termina a responsabilidade de quem cozinha?

O que já temos no Brasil, mas podemos escalar ainda mais!

Quando leio sobre o Restaurant Loop coletando 600 quilos de alimentos por dia de aterros sanitários em Helsinki, penso imediatamente no que já acontece no Brasil.

No GoodTruck Brasil, operamos exatamente nessa lógica de “loop” desde 2016. Nosso trabalho é resgatar alimentos com alto potencial de desperdício, de distribuidores, produtores, supermercados e empresas parceiras, e levá-los até comunidades em vulnerabilidade alimentar.

Já são mais de 1.200 toneladas doadas, centenas de voluntários mobilizados e ações fixas em sete cidades brasileiras.

Mas aqui está a diferença que quero destacar para quem atua na gastronomia: isso não é apenas assistência social. É logística circular. É design de sistema. É exatamente o que a economia circular dos alimentos propõe em escala global.

Atualmente, um comportamento comum em diversos pontos de venda é que a busca pela redução do desperdício é motivada principalmente pela gestão financeira e pela otimização da cozinha. Por outro lado, o aproveitamento integral dos insumos, o desenvolvimento da criatividade culinária e a educação alimentar dos clientes, focada no consumo sazonal e de partes não convencionais, representam a mudança comportamental mais importante para alcançarmos o impacto ambiental positivo almejado.

O ciclo que começa e termina com você

No artigo da Ellen MacArthur Foundation, o cofundador do Restaurant Loop traz uma frase que acredito que resume como podemos transformar essa realidade: “Olhe para as lojas próximas, veja o que elas estão jogando fora. Comece por perto, busque parcerias locais, procure passos simples para criar uma economia circular dos alimentos.”

Comece por perto. Essa é a chave.

Não precisamos de uma revolução sistêmica para amanhã. Precisamos de restaurantes que se perguntem: o que eu descarto toda semana que ainda tem vida? Quem eu poderia chamar para essa conversa? Que parceria local eu ainda não fiz?

No GoodTruck, aprendemos que a transformação alimentar não começa com grandes números. Começa com a primeira caixa aberta e com a primeira pergunta “esse alimento ainda pode ser consumido?”.

A cozinha circular não é uma utopia escandinava, ela já existe no Brasil.

Vamos fazer parte?

Renata Gonçalves é arquiteta e urbanista de formação e especialista em Impacto Social pelo Amani Institute. Como Presidente e Diretora Executiva do GoodTruck Brasil, atua na interseção entre planejamento territorial e segurança alimentar, transformando o desperdício de comida em resiliência para comunidades de todo o Brasil. Sua gestão levou o projeto a ser premiado pelo Pacto Contra Fome em 2023 e foi reconhecido como melhor iniciativa de logística ESG pela NSTech e o Mundo Logística. É especialista em métricas de impacto, parcerias ESG e atua também como Vice-Presidente do Brasil National Chapter, organização vinculada à ONU. 

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