Basta falarmos em terroir para imaginarmos uma paisagem com vinhedos e penetrarmos nacomposição do solo, na topografia do terreno e no clima que se impõem e fazem com que uma safra de uvas seja sempre única. De fato estes fatores exercem forte influencia no sabor dos vinhos e reforçam a famosa expressão “o vinho nasce no vinhedo” ou o seu par francês, o vinho possui o “goût de terroir”.
No entanto, e curiosamente, o conceito de terroir nem sempre possuiu uma conotação
positiva como entendemos hoje. Tampouco essa expressão foi usada, em suas origens, para se referir a uma terra apta para produção de uvas de qualidade. Em minha pesquisa sobre a história do conceito de terroir, forjado na França no séc. XVI, me surpreendo ao descobrir que seu uso era comumente metafórico, para se referir aos costumes dos camponeses franceses. A elite intelectual da época usava a expressão “gente com goût de terroir” para desqualificar os modos de vida simples e a maneira rústica dos agricultores, que diferia dos modos considerados civilizados e sofisticados de se comportar, adotados pelos intelectuais parisienses que escreviam sobre o tema. A noção de goût de terroir só se inverteria efetivamente a partir do séc. XX, para o sentido que entendemos hoje, de um vinho autêntico que é a fiel expressão de suas origens geográficas.
Trago essa curiosidade para destacar um elemento crucial que compõe um terroir, tão
importante quanto o solo ou clima, e que muitas vezes esquecemos de valorizar: o fator humano. Afinal, vinhos são feitos por pessoas, que esculpem paisagens do vinhedo, e trabalham árdua e pacientemente ao longo do ano para que a planta entregue frutos para então fermentá-los e originar a bebida que tanto apreciamos. As pesquisas sobre enoturismo nos mostram que provar um vinho na presença de seu realizador(a), torna a experiência inesquecível, enriquecendo o sabor de um vinho.
Para melhor apreciar e entender um vinho é preciso enaltecer o papel da cultura na formação de um terroir. Deve-se respeitar o trabalho de cada um(a) que tornou possível aquele vinho que degustamos. Pessoas que escolheram trabalhar a terra, adaptar-se aos tempos da natureza, as intempéries que regem os trabalhos agrícolas. Pessoas muitas vezes simples, que contradizem a estereótipo do vinho enquanto um alimento sofisticado e elitista. Pessoas que decidiram que variedade de uva plantar, de que forma nutrir o solo, como conduzir as vinhas, quando podar e colher as uvas, de que forma fermentar e amadurecer para obter o estilo de vinho buscado.
É preciso entender que vinho é um alimento essencialmente cultural – sem cultura não há
vinho! – e que a diversidade de estilos de vinhos feitos ao redor do Brasil, é também resultado da diversidade cultural do povo brasileiro. Dos descendentes de imigrantes italianos da Serra Gaúcha que preservam um legado viticultor, passando pelo gaúcho estancieiro dos Pampas, pelos sertanejos que trabalham na colheita de uvas na Bahia, aos investidores neorurais do sudeste brasileiro que, apaixonados por vinho, decidiram investir em sua própria vinícola. Das pequenas propriedades de agricultura familiar aos grandes projetos de indústria vitivinícola, passando pelas importantes cooperativas. Do trabalho de pesquisadores de institutos como a EMBRAPA Uva e Vinho, EPAMIG, EPAGRI, EMRBAPA Semi Árido que tanto contribuíram no aprimoramento de cultivares e técnicas de manejo da vinha seja no Pampa, na Mata Atlântica, no Cerrado ou no semi árido nordestino.
Esta coluna é não apenas uma celebração ao vinho brasileiro mas às pessoas que o tornaram possível. Uma homenagem ao fator humano do terroir. Que o vinho se mantenha inseparável das suas paisagem mas sobretudo, das pessoas que o fazem. Um brinde à todas elas!