Estes últimos dias aconteceram algumas sincronias que me trouxeram para este texto. As três histórias, tão diferentes entre si, me lembraram da mesma coisa, a vida fica melhor quando a gente encontra lugares, trabalhos e relações em que podemos existir, sem nos apertar para caber e onde o pertencimento fortalece a hospitalidade, no trabalho e na vida.
Terminei o livro Designing Your Life, de Dave Evans e Bill Burnett, dois professores de Stanford que criaram esta disciplina para o curso de design e hoje ela é uma das disciplinas mais populares para todas as áreas da Universidade. Ele é sobre projetar uma vida com intenção, traz que a vida está sempre em construção e que uma vida bem projetada é uma vida que faz sentido, na qual quem você é, o que acredita e o que pratica estão alinhados. A hospitalidade aqui aparece na ideia de projetar uma vida onde a gente se acolhe melhor, em vez de viver espremido nas expectativas dos outros ou no que julgamos ser necessário.
Paralelamente a isso, uma líder outro dia me contou que tinha muito orgulho do seu f ilho, que está conseguindo cursar direito e que faz estágio em um escritório de advocacia. Ele lhe pediu para comprar uma moto, que facilitaria a sua vida, mas como ela não tinha possibilidades, aconselhou-o a arrumar um segundo emprego para conseguir realizar este sonho. Pois bem, o filho conseguiu um emprego de lixeiro, depois de um pouco mais de 1 ano já tinha comprado a sua moto e disse à mãe que estava com muita pena de deixar este emprego, porque apesar de cansativo, era a parte do dia que ele mais gostava. Ele fez amigos, a equipe era unida, muitas vezes eles iam cantando, o vento no rosto, o andar pela cidade agarrado ao caminhão, tudo aquilo lhe dava uma sensação boa de liberdade, ali existiu o sentimento de pertencimento.
E por fim, hoje, assisti um filme, “Meu Nome é Agneta” (vejam), onde uma mulher sueca de 49 anos, reprimida e infeliz se reencontra em uma pequena vila da Provence. Amei o filme e como ele mostra que vale a pena correr riscos para buscar sonhos e sair de uma vida em que você não se encaixa e que se encolher para caber não é o caminho, aqui a hospitalidade aparece nas pessoas da vila que permitem Agneta ser uma outra versão mais genuína e feliz de si mesma.
Quando conseguimos conectar o nosso trabalho a algo que tem significado para nós, a satisfação passa a ser consequência.
E isso tem tudo a ver com hospitalidade, fazer pelo outro, acolher de verdade. Foi o que aquela vila fez com a personagem, e o que a equipe dos lixeiros fez com o rapaz que sonhava com uma moto.
Muitas empresas querem encantar clientes, mas não criam ambientes onde seus próprios colaboradores se sintam vistos e pertencentes. Não existe atendimento encantador vindo de gente que não se sente parte.
O livro te provoca a buscar algo que te preencha e que você goste, para que a vida e a tua profissão, façam mais sentido e para isso, ele propõe agir mais e planejar menos. Fazer o caminho possível e ir ajustando a rota ao longo da trajetória, na busca do que realmente pode te fazer mais feliz.
Talvez hospitalidade seja isso: criar espaços onde as pessoas se sintam parte. Porque quando isso acontece, a entrega deixa de ser só tarefa e passa a ter também o cuidado.
Tuxa Gonçalves é mentora de lideranças, palestrante e treinadora de equipes de atendimento ao cliente. Especialista em gestão de pessoas na gastronomia, ajuda empresários a reduzirem o turnover, fortalecerem suas equipes e aumentarem seus resultados por meio de uma liderança mais preparada e equipes mais autônomas e engajadas.