Por Renata Gonçalves
Nesta época do ano, as salas de reunião, sejam elas de vidro na Faria Lima ou de alvenaria nos fundos de uma cozinha industrial, vibram na mesma frequência: a do Planejamento Estratégico. Enquanto CEOs do setor privado projetam o EBITDA e o market share para 2026, existe um mito silencioso de que, no Terceiro Setor, as coisas funcionam apenas na base do improviso e da boa vontade.
Precisamos falar sobre essa visão errônea. O terceiro setor está mais profissionalizado do que nunca! Hoje, uma ONG opera com KPIs (Indicadores-Chave de Desempenho), OKRs (Objetivos e Resultados-Chave) e uma gestão de recursos tão ou mais afiada que a de muitas multinacionais. Afinal, no nosso caso, a “perda” não é apenas um número vermelho no balanço, ela significa alguém que deixou de ser alimentado.
No GoodTruck Brasil, por exemplo, o planejamento para o próximo ano não incluir apenas o desejo de ajudar mais. É engenharia logística. Nós desenhamos rotas, calculamos o peso dos alimentos doados, acompanhamos via pesquisa como o nosso trabalho impacta as comunidades atendidas e como podemos melhorar esse número. Nosso lucro é o impacto socioambiental mensurável e uma equipe remunerada.
O Desperdício como Erro de Planejamento
Para uma pessoa dona de restaurante ou chef de cozinha, 2026 já começou. Você está revendo fornecedores, desenhando o menu sazonal e calculando o que será necessário desenvolver. Mas, existe uma linha nesse planejamento que muitas vezes é tratada como “custo operacional inevitável”: o desperdício.
Segundo dados da ONU (PNUMA), cerca de 17% de todos os alimentos disponíveis para consumo no mundo são desperdiçados. No setor de food service, isso é dinheiro indo literalmente para o lixo.
Planejar 2026 no setor de gastronomia precisa ir além da renovação do salão ou do novo prato estrela. Precisa incluir a Meta Zero de Desperdício como um objetivo estratégico de negócio. Um restaurante que desperdiça menos é uma operação mais eficiente, mais rentável e mais conectada com o consumidor moderno, que já exige posturas sustentáveis das marcas que consome.
A Parceria como Estratégia de Negócio
É neste ponto que o Terceiro Setor e o Setor Privado deixam de ser paralelos e se cruzam. O excedente de produção do seu restaurante ou da sua indústria de alimentos, aquilo perfeito para consumo, mas que não tem valor comercial imediato, é o ouro da nossa operação.
Quando o GoodTruck Brasil conecta quem tem comida sobrando com quem tem fome, estamos resolvendo uma dor logística de ambos os lados. Para o restaurante, transformamos um passivo (o custo e a logística reversa do descarte) em um ativo social e de marca. Para a ONG, garantimos o insumo para nossa operação de impacto que alimenta centenas de famílias.
Um Convite para 2026
O convite que deixo aqui, para chefs, gestores e empreendedores da gastronomia, é para olharem para as ONGs não como solicitantes, mas como parceiros estratégicos de logística e sustentabilidade.
Ao desenhar as metas do seu negócio para o próximo ano, pergunte-se:
Quanto do meu insumo está virando lixo e como posso reduzir isso na fonte?
Para o excedente inevitável, quem são os parceiros sérios no meu ecossistema que podem dar a esse alimento o destino nobre que ele merece?
O planejamento de 2026 está acontecendo agora, em todos os setores. Que tal se, no próximo ano, além das metas de faturamento, tivermos também metas ousadas de quantas toneladas de alimentos não jogamos fora?
A gastronomia tem o poder de nutrir e de transformar.
Quando o setor privado e o terceiro setor sentam na mesma mesa para planejar, o resultado é um menu onde ninguém sai perdendo e muito mais gente sai alimentada.