Pois eu, há pouco mais de dez anos, tampouco sabia…
Para contar esta história deixe-me apresentar. Sou Wagner Gabardo, diretor da escola de sommeliers Alta Gama e tecnólogo sommelier formado na Argentina.
Quando voltei do país hermano, no início de 2011, estava em busca de oportunidades para me inserir no mercado do vinho curitibano quando surgiu uma oportunidade de aperfeiçoar meus conhecimentos na área. Abria, em 2013 a primeira – e única – turma de especialização em Viticultura e Enologia, oferecida pela Universidade Tuiuti do Paraná. Não pensei duas vezes em cursar já que essa seria também uma porta para conhecer profissionais que atuavam na vitivinicultura em terras paranaenses. Foi então que tive contato com dois projetos vitivinícolas, a vinícola Legado, em Campo Largo e a vinícola Araucária, em São José dos Pinhais, ambas com cultivos de uvas viníferas, para minha surpresa!
A história que me contavam era que o Paraná se dedicava – e ainda o faz – a produção de uvas de mesa, usadas na elaboração dos popularmente chamados “vinhos coloniais”, dos quais o exemplo mais icônico é o vinho Campo Largo, produzido pela Zanlorenzi. Me lembro de tomar Campo Largo, diluído em água com gás e açúcar quando era jovem, nos almoços dominicais em família. Outras vezes era o vinho Del Rei também produzido por uma família curitibana. Porém estes vinhos já não eram mais produzidos no Paraná, já que uma praga de solo que corrói a planta pelas raízes, chamada pérola da terra, praticamente dizimou as vinhas paranaenses ao longo dos anos 1970, forçando muito famílias de produtores a produzir ou a comprar uvas no Rio Grande do Sul. Tamanha era a importância da viticultura para o primeiro planalto paranaense na época que uma estação da EMBRAPA Uva e Vinho funcionou em Colombo entre as décadas de 1970 e 1990.
Mas eis que, no final dos anos 2000, corajosos(as) viticultores decidem, empreender na árdua e desafiadora tarefa de cultivar uvas viníferas e a desenvolver projetos de enoturismo na Região Metropolitana de Curitiba. E eu tive a sorte de vivenciar parte desta história.
Em 2013, fiz o evento de lançamento dos dois primeiros vinhos da vinícola Araucária, o Poty Brut, o qual recomendo abaixo, e o Angustifólia Cabernet Sauvignon. Desde então estreitei laços com a vinícola onde trabalhei como guia de enoturismo e depois como sommelier quando o restaurante de cozinha campestre foi inaugurado. Foi bonito acompanhar o desenvolvimento desta vinícola.
Lembro bem, na minha época como guia, passar os fins de semana curtindo a natureza em meio aos vinhedos e torcendo para que aparecesse um carro no horizonte, com pessoas curiosas em conhecer essa tal vinícola e provar seus vinhos. De lá pra cá o projeto cresceu, e hoje os fins de semana lotam de visitantes que podem não só visitar a vinícola, mas almoçar no restaurante, fazer trilhas e se hospedar em chalés em meio ao bosque de Araucárias. Em 2019, Araucária seria escolhida como vinícola do ano por um guia de vinhos brasileiros e passaria a colecionar medalhas em avaliações de vinhos do eixo Rio-São Paulo.
A história da vinícola Araucária, a qual escolho para falar nesta coluna inaugural, exemplifica o movimento que o vinho paranaense experimenta. São projetos vinícolas recentes, que entregam vinhos de muita qualidade e oferecem atividades que entretem os fãs de gastronomia e das paisagens rurais nos arredores de Curitiba.
Desde 2019, tenho a satisfação de ser o secretário da VINOPAR, associação que reúne vinícolas de todo o estado, na qual coordeno ações de promoção do vinho e enoturismo no Paraná, como a criação do mapa do enoturismo do estado e a realização de festivais do vinho paranaense. Quando converso com visitantes em cada edição do Festival VINOPAR ou quando entrego um mapa do enoturismo a alguém interessado, ouço: “Nossa, não sabia que haviam tantos vinhos bons no Paraná!” ou “Não sabia que o Paraná tinha tantas vinícolas”. Pois sorrio encorajo a seguir provando o sabor da nossa terra.
Se você que está lendo já conhece, siga acompanhando os lançamentos de vinhos e as regiões emergentes que estão surgindo. E parabenizo pelo seu interesse! Se ainda não, faço questão de sugerir alguns rótulos para começar a experiência. Como escrevo este texto em uma tarde de calor intenso de verão, minhas sugestões combinam com clima:
Poty Brut, vinícola Araucária – espumante feito a partir de chardonnay pelo método
tradicional. No aroma, um cheirinho de pão na chapa. No paladar é cremoso, saliva bastante e lembra abacaxi maduro. Servir bem geladinho. Se preferir espumantes bem secos – como eu – minha sugestão é provar o Poty Nature.
Sapienza branco, vinícola Legado – feito a partir da uva Viognier. No aroma é
frutado, lembra pêssego e carambola. No paladar as frutas se mostram mais, é leve e bem fresco. Para os que gostam do sabor levemente amadeirado a dica é provar o Sfizio Vioginier. Já a versão espumante, imperdível, é o Flair Brut branco, também feito a partir desta uva coringa da Legado.
Wagner Gabardo é executivo da VINOPAR – Associação dos Vitivinicultores do Paraná e diretor da escola de sommeliers Alta Gama, em Curitiba. É doutor em Geografia e Mestre em Turismo pela UFPR, onde pesquisa narrativas de Terroir, Enoturismo e Patrimônio Vitivinícola. Foi Pesquisador bolsista da UNESCO – Cátedra Cultura e Tradições do Vinho, Université de Bourgogne, 2021-2022. É especialista em Enologia e Viticultura pela UTP, Brasil, e tecnólogo em Sommelerie pelo Centro Argentino de Vinos y Espirituosas, Argentina. Professor há mais de quinze anos, encontrou na pesquisa e na docência sua forma de contribuir com desenvolvimento da sommelierie no Brasil. Amante e defensor do vinho brasileiro, não troca um espumante de Pinto Bandeira por nenhum Champagne.