Quando o Black Sabbath lançou seu primeiro álbum, em 1970, Lester Bangs, um dos críticos musicais mais temidos de sua geração, sentou para escrever e falou mal, muito mal. Tratou a banda de Birmingham como um acidente barulhento que não passava de cópia piorada do Cream de Eric Clapton – ênfase na cópia. A crítica envelheceu mal. O Sabbath virou lenda, Ozzy virou Ozzy, e Lester Bangs continuou sendo um crítico sempre disposto a assumir e assinar o risco do que escrevia, mesmo que esse risco significasse destruir uma banda em início de carreira.
Uma reportagem recente de Mauro Ferreira no jornal O Globo sobre o livro “Meu odiado crítico” define o ofício com precisão: campo minado. Ezequiel Neves, Júlio Medaglia, Sérgio Cabral e Zuza Homem de Mello não apenas gostaram ou desgostaram de discos, mas genuinamente construíram linguagem, contexto e memória para a música brasileira, frequentemente desagradando os artistas analisados.

Nossos odiados críticos – Ezequiel Neves (no alto, à esquerda), Júlio Medaglia (no alto, à direita), Sérgio Cabral (de camisa verde) e Zuza Homem de Mello
Créditos: arquivo/G1
Na gastronomia, durante muito tempo, a crítica morava em guias e colunas especializadas. O crítico profissional entrava discretamente num restaurante, sentava em qualquer mesa e só era identificado depois que o texto saía. Hoje, porém, qualquer pessoa pode atribuir uma estrela no Google, gravar um story ainda antes da sobremesa e influenciar milhares de futuros clientes. Isso democratizou a opinião, o que é ótimo, mas também democratizou o linchamento, o que é péssimo.
Foi mais ou menos isso que Curitiba voltou a discutir recentemente, quando uma crítica profissional envolvendo um restaurante recém-inaugurado e um certo sanduíche de pastrami fez a cidade lembrar que comida também produz debate público e se perguntar: afinal, criticar é destruir ou ajudar a construir?
Um crítico deve ser alguém que come antes dos outros, fotografa as benesses e ganha uma legenda maior no Instagram? Ou deve ser alguém que perceba e analise técnica, serviço, proposta, preço e coerência? Se é fato que todo restaurante carrega sonhos, também é verdade que alguns carregam massas passadas do ponto, e nesse contexto é preciso honestidade para aceitar que um restaurante não pode ser blindado de toda crítica apenas porque emprega pessoas e tem contas a pagar.
Nem toda manifestação negativa é ataque, e nem todo ataque é ilegal. O consumidor pode dizer que esperou demais, que achou caro, que a comida chegou fria ou com aquela textura melancólica de buffet no final do expediente. O crítico profissional tem liberdade de imprensa e liberdade de opinião — pode ser duro, ácido, irônico, pode comparar e pode escrever uma frase que o chef vai reler às três da manhã, de luz apagada, em ânimo de término de relacionamento.
A liberdade de expressão, garantida pela Constituição, protege não apenas as opiniões agradáveis, mas também as incômodas, duras e impopulares, desde que nos limites da lei. Afinal, se apenas o elogio fosse permitido, não estaríamos falando de crítica, e sim de assessoria de imprensa com couvert artístico.
Agora, atenção! Essa mesma liberdade de crítica não transforma ninguém em entidade acima da responsabilidade civil. Uma crítica pode ser dura, mas não pode ser leviana. Pode ser irônica, mas não pode inventar fatos. Pode questionar preço, técnica e execução, mas não pode imputar desonestidade sem base verificável.
Tanto para críticas profissionais quanto para avaliações online de consumidores, vale o conceito do abuso de direito: quem excede os limites da boa-fé ao exercer um direito comete ato ilícito. Dizer “achei caro pelo que entrega” é opinião, enquanto dizer “o chef é picareta” é ofensa pessoal. Afirmar que o ambiente “parece inspirado em outro lugar” pode ser crítica estética, mas imputar plágio sem elementos concretos já muda completamente a temperatura da cozinha.
Na prática, o Direito diferencia a intenção legítima de avaliar e informar da intenção de ofender e destruir. Havia base para o que foi dito? A linguagem foi proporcional? A crítica ficou no prato ou foi para a vida pessoal do chef? O texto informou ou apenas incendiou?
Quando a crítica ou avaliação entra no campo do ilícito (falsidade, anonimato, ataques em massa de avaliações negativas similares), o restaurante tem caminhos concretos para reagir:
Além de crítico e de estabelecimento, outro ator importante nessa história é o consumidor, afinal a discussão costuma girar em torno da crítica negativa e ignorar os riscos do elogio opaco, a famosa publi, ainda tratada com ingenuidade pelo mercado gastronômico.
Se há publicidade, parceria, convite, permuta ou pagamento, isso precisa estar claro. Por um lado, a publi paga boletos, câmeras, deslocamento e, às vezes, aquele almoço que todo mundo jura que foi só uma entradinha. Por outro lado, quando um perfil recomenda uma casa, o público presume curadoria. Se depois descobre que tudo era anúncio sem aviso, que era uma publi fingindo ser acaso, a conta chega para o influenciador, para o restaurante e para o consumidor. Na gastronomia, confiança é um ingrediente invisível, e se a crítica negativa pode ferir uma reputação, o elogio opaco também.
Pegando carona no texto recente do Beto Madalosso, toda cidade que cresce gastronomicamente passa por um momento de desconforto com a crítica. Enquanto a cena é pequena, todo mundo se conhece, se elogia e a discordância pública parece quase uma traição. Mas uma cena que deseja ser levada a sério precisa suportar mais do que aplauso. Precisa suportar método, comparação e discordância. Não existe cultura gastronômica robusta composta apenas de rankings, collabs e comentários dizendo “perfeito, chef”. O elogio aquece. A crítica afia. O mercado precisa dos dois.
Pegando carona no texto recente do Beto Madalosso, toda cidade que cresce gastronomicamente passa por um momento de desconforto com a crítica. Enquanto a cena é pequena, todo mundo se conhece, se elogia e a discordância pública parece quase uma traição. Mas uma cena que deseja ser levada a sério precisa suportar mais do que aplauso. Precisa suportar método, comparação e discordância. Não existe cultura gastronômica robusta composta apenas de rankings, collabs e comentários dizendo “perfeito, chef”. O elogio aquece. A crítica afia. O mercado precisa dos dois.
Se a gastronomia curitibana almeja ter estrelas Michelin em seus restaurantes, é certo que também precisa almejar ter sua Ruth Reichl, seu Lester Bangs, sua Ana Maria Bahiana e seu Zuza Homem de Mello.
Agnes Ortenzi e David Ortenzi são sócios da OrtenziAvila Propriedade Intelectual. Ela, formada em administração e artes cênicas. Ele, formado em direito com mestrado em Denominações de Origem vinícolas. Os dois apaixonados por gastronomia, vinhos, viagens e as outras coisas boas da vida. Cuidam de mais de 500 marcas, direitos autorais, desenhos industriais contratos, licenciamentos e outras “juridiquezas”. Neste espaço, trazem um olhar humano e descomplicado do mundo da propriedade intelectual para os consumidores e negócios do setor de gastronomia e bebidas.