Cláudia Krauspenhar leva a amizade a sério. Na cozinha do K.SA, alguns dos grandes chefs do país fazem parte dessa história

Era uma quarta-feira cinza em Curitiba, com cara de chuva, quando Cláudia Krauspenhar chegou ao K.sa. A energia dela chegou antes. A voz estava rouca, consequência da noite anterior, em que subiu saltitante ao palco do Prêmio Bom Gourmet, maior premiação de gastronomia do Sul do Brasil. O sorriso rasgado, desses que começam pelos olhos, permanecia ali. No salão, a equipe preparava o restaurante para a noite. Horas depois, estariam todos juntos para comemorar os prêmios recebidos na véspera.

Cláudia me recebeu com a alma lavada. Apontou, divertida, para a prateleira logo na entrada, onde reúne parte das placas conquistadas pelo restaurante, e brincou que ela já estava pequena para tantos prêmios. Na noite anterior, havia recebido quatro reconhecimentos: Chef 5 Estrelas, Lugares Imperdíveis, Melhor Carta de Vinhos e o sétimo lugar entre os melhores restaurantes do Paraná.

“Constância, dedicação e acreditar sempre que a gente pode melhorar”, respondeu quando perguntei a que atribuía tantas conquistas. O K.sa caminha para oito anos e ela fala da longevidade do restaurante com a responsabilidade de quem conhece tudo o que existe por trás de uma casa cheia. “A gente não trabalha pensando no prêmio. Trabalha pensando nos nossos clientes, porque quer que esse restaurante perdure, continue tendo sucesso. Muitas famílias dependem daqui.”

Naquela tarde, nossa conversa seguiu por outra história que acompanha esses anos de K.sa: a dos chefs que Cláudia trouxe para sua cozinha, dos amigos que fez pelo caminho e dos convites que também passaram a levá-la para cozinhar em outras casas. Relações que ela leva tão a sério quanto o próprio trabalho. “Eu falo para os meninos que não é só se a gente está fazendo uma boa comida ou não. A gente tem que pensar na nossa postura, na nossa imagem, no nosso legado.”

Cláudia fala em honrar a palavra, os funcionários e os compromissos. Em manter os pés no chão diante do glamour que passou a cercar a profissão. Para ela, os vínculos se constroem no cotidiano. “Isso é diário. São valores, são princípios. Quando é de verdade, a relação vai se construindo muito forte.”

Para entender essa disposição para receber, é preciso voltar um pouco. Antes de ser chef, Cláudia já gostava de arrumar a mesa, preparar a bandeja do café da manhã, colocar uma flor, cuidar de quem chegava. Ainda adolescente, ouviu que deveria estudar hotelaria. “Essa coisa do servir veio antes da comida. Antes de ser chef, antes de ser cozinheira, eu já era uma pessoa voltada para a hospitalidade.”

Paranaense, natural de Foz do Iguaçu, Cláudia estudou Direito, fez estágios na Defensoria Pública e na Justiça Federal e trabalhou no jurídico da Itaipu Binacional. Cozinhava em casa e já se aventurava em pequenos eventos até decidir trocar de caminho. Veio para Curitiba estudar gastronomia no Centro Europeu, trabalhou no Edvino, passou uma temporada profissional em São Paulo e, de volta à cidade, começou a receber cerca de 20 pessoas em casa, além de fazer catering.

Quando o K.sa nasceu, o nome ganhou um significado ainda mais particular. Cláudia havia acabado de se separar e deixado para trás sua referência de casa. Foi justamente nesse período que o restaurante se tornou, nas palavras dela, “um novo conceito, um novo entendimento de lar”. 

Anos depois, esse traço ganharia uma expressão própria no Abrindo a K.sa. A iniciativa começou depois da participação de Cláudia no Mestre do Sabor, reality gastronômico da TV Globo que a aproximou de cozinheiros de diferentes partes do Brasil. Com o restaurante recém-aberto, ela quis trazê-los para Curitiba e prolongar uma convivência que havia começado diante das câmeras. “Não foi uma estratégia, foi muito de coração.”

A primeira convidada tinha uma importância particular nessa trajetória. Manu Buffara foi quem levou Cláudia para viagens, abriu caminhos e a indicou para participar da atração da Globo. Cláudia a chama de madrinha. Por isso, quando decidiu abrir sua cozinha aos colegas, a escolha era evidente. “Óbvio que tinha que ser a Manu.” Naquela primeira edição, Manu cozinhou ao lado de Tássia Magalhães (Nelita).

A própria Manu guarda uma lembrança anterior dessa história. “Criamos entre nós duas um espaço de muita troca. Temos diferentes trajetórias, viemos de diferentes gerações, mas nunca fizemos disso uma competição.” Quando fala da amiga, destaca sua generosidade, delicadeza e autenticidade. Reconhece também algo que as aproxima: “A Claudinha tem essa coisa de reunir, de juntar gente.”

Foi em uma viagem aos Estados Unidos que Manu se lembra de ter lançado a ideia. “Eu falei: ‘Amiga, a gente devia convidar as pessoas, fazer alguma coisa, trazer as pessoas para cozinhar’.” A sugestão encontrou terreno fértil em alguém para quem receber sempre foi natural. O que começou entre amigos ganhou continuidade e colocou uma sucessão de grandes cozinheiros diante dos fogões do K.SA.

A lista impressiona. Depois daquela primeira edição, passaram por ali André Saburó Matsumoto, Gi Nacarato, Onildo Rocha, Giovanna Grossi, Elia Schramm, Guto Cavanha, Felipe Schaedler, Fabrício Lemos e Lisiane Arouca. Janaína Torres (Dona Onça) dividiu uma edição com a chef capixaba Bárbara Verzola (Soeta). Manu retornou ao lado de Roberta Sudbrack (Sud, O Pássaro Verde). Depois foi a vez de Rafa Costa e Silva, acompanhado de Vini, seu subchef.

Há nomes que ainda fazem Cláudia lembrar do frio na barriga antes do convite. Roberta Sudbrack era uma referência que acompanhava desde antes de estudar gastronomia. Com Rafa Costa e Silva, a história ganhou contornos quase adolescentes. Os dois haviam participado do mesmo evento em São Paulo e Cláudia queria convidá-lo para cozinhar em Curitiba, mas voltou para casa sem coragem de fazer a pergunta pessoalmente. “Encho-me de coragem, mando um WhatsApp e jogo o telefone longe. Só vou ver no dia seguinte”.

A resposta veio. Assim como veio com os outros. Para Cláudia, essa receptividade está entre suas maiores conquistas. “É você fazer um convite e a pessoa falar ‘com o maior prazer’. Isso não tem preço”.

Em uma das edições, ela aproximou os convidados de chefs locais como Vânia Krekniski, Igor Marquesini, Danilo Takigawa e Ivan Lopes. E o ato de “abrir a casa” também nunca se restringiu à cozinha. Quem chega a Curitiba costuma conhecer a cidade e seus arredores pelas mãos da anfitriã.

Cláudia gosta de levar os visitantes ao Mercado Municipal, em restaurantes como Fuji e Quintana, curte o Maneko´s Bar e desce para Morretes onde come Barreado no Empório do Largo e depois segue para a fábrica de bala de banana e uma farinheira artesanal, visitada recentemente com Alex Atala. É também uma forma de usar os encontros para colocar luz sobre quem produz e cozinha por aqui. “Eu quero mais é que todo mundo se dê bem”.

Na criação dos menus, Cláudia dá liberdade aos chefs, mas gosta especialmente quando eles trazem para Curitiba pratos servidos em seus próprios restaurantes. Assim, o público pode provar uma assinatura que, em outras circunstâncias, exigiria uma viagem. “Eu gosto que os chefs tragam os pratos deles, dos restaurantes deles, porque acho que é uma oportunidade de a pessoa provar pelo menos um item do menu.” A regra, no entanto, é simples: “O chef é livre para fazer o que quiser. A casa é dele.”

Uma das exceções nasceu em San Sebastián. Na penúltima edição do Abrindo a K.sa, Cláudia recebeu Rubens Catarina, Dário Costa, Caio Soter e Kaywa Hilton, com quem acabara de viajar pelo País Basco. Para a ocasião, em vez de reproduzir pratos de seus restaurantes, os chefs partiram das comidas provadas durante os dias na Espanha para criar o menu. Eu estava entre os convidados naquela noite e pude acompanhar de perto o entrosamento à mesa e na cozinha. Na mesma data, circulava a edição da EXAME com a lista dos 100 melhores restaurantes do Brasil, na qual o K.SA aparecia em 19º lugar. O reconhecimento chegava enquanto Cláudia divertia-se com os amigos na cozinha e transbordava simpatia no salão.

O convidado seguinte carregava um significado particular. Alex Atala era uma referência para Cláudia muito antes de ela imaginar que um dia dividiria a cozinha com ele. Quando ainda estudava Direito, acompanhava na televisão os programas de Atala e Flavinha Quaresma. Era fã.

O primeiro encontro entre os dois em outra condição aconteceria por intermédio de Manu, em Paris, em 2019, quando o K.SA tinha apenas um mês. Manu participaria de um evento e chamou Cláudia para acompanhá-la. Naquela viagem, ela se viu próxima de nomes que conhecia como referências da profissão: Mauro Colagreco (Mirazur), o chef chileno Rodolfo Guzmán (Boragó), além dos chefs peruanos Virgilio Martínez e Pía León (do Central). Até François Hollande, ex-presidente da França, entrou na cozinha para cumprimentar a equipe.

Atala estava no evento como convidado. Foi lá que ela conheceu a pessoa que existia para além do chef que acompanhava havia anos. “Todo mundo fala que é perigoso conhecer seus ídolos, porque você pode se decepcionar. Graças a Deus, não”.

Em 2026, Alex Atala finalmente cozinhou no K.SA. Cláudia não esconde a dimensão daquele encontro, mas sua lista de afetos não obedece à projeção pública de cada convidado. Fala dos amigos que conheceu na televisão e levou para a vida. Ao longo dos anos, outras relações foram se formando. “Quando eu comecei o “Abrindo a K.SA”, eu não era tão amiga do Rafa, eu não era amiga do Alex. Ao longo desse movimento, foram acontecendo coisas, a gente foi se encontrando e já rola uma conversa diferente, um reconhecimento natural”.

A amizade, para Cláudia, não afrouxa o rigor. Quando um grande chef entra em sua cozinha, a equipe inteira sente a régua subir. “É um teste com profissionais de alto gabarito. Eles puxam a nossa régua lá para cima e a gente tem que se virar para dar conta do recado”. Ela confia na equipe e, convicta, afirma que o desejo de estar à altura do convidado mobiliza todos.

Na criação dos menus, Cláudia dá liberdade aos chefs, mas gosta especialmente quando eles trazem para Curitiba pratos servidos em seus próprios restaurantes. O Abrindo a K.SA também permite provar uma assinatura que muitas vezes exigiria uma viagem a outra cidade. A distância ou simplesmente a falta de oportunidade podem manter aquela cozinha longe do público daqui. “Eu gosto que os chefs tragam os pratos deles, dos restaurantes deles, porque acho que é uma oportunidade de a pessoa provar pelo menos um item do menu”.

Manu vê nessa circulação um movimento que alcança a gastronomia paranaense. Para ela, receber profissionais de outras cozinhas abre conversas e favorece a circulação de conhecimento. “Esses encontros melhoram o profissional e melhoram a cidade. Mas isso não é uma coisa que acontece sempre em todos os estados. Tenho muito orgulho de que isso aconteça aqui no Paraná”, enaltece. Há outra característica da amiga que ela faz questão de registrar. “Ela não busca o protagonismo. Cláudia também quer ampliar o círculo”. 

A história do Abrindo a K.SA segue sem calendário rígido. Em agosto ganha uma edição dedicada ao vinho com o prestigiado enólogo Alejandro Galaz, que Cláudia conheceu anos atrás e reencontrou recentemente no Chile. Há convidados encaminhados para outubro, novembro e dezembro e um nome já acertado para março que ela ainda guarda em segredo.

A voz rouca daquela tarde tinha sua explicação. Cláudia comemorara os prêmios como costuma fazer: sem economia de afeto. E dali a algumas horas faria tudo outra vez, agora com quem trabalha ao seu lado todos os dias. “Hoje tem festa aqui no restaurante para a minha equipe. Vamos fazer um churrasco”.

Thabata Martin é jornalista e estrategista de comunicação, com atuação focada em gastronomia, arte e arquitetura. À frente da VERSO.THT Comunicação Arte, constrói narrativas que conectam experiência, repertório e olhar de mercado, dentro e fora do roteiro.

plugins premium WordPress